Bovespa fecha em queda de 3,53%; em NY, queda supera 1%

Investidores avaliam que nem mesmo o maior pacote de socorro para o sistema financeiro pode resolver a crise

Da Redação,

03 Outubro 2008 | 17h21

Os mercados financeiros reagiram com oscilação à aprovação do esperado pacote de socorro ao mercado financeiro nos Estados Unidos. Próximo do encerramento dos negócios, as bolsas em Nova York e a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) chegaram aos patamares mínimos do dia. No fechamento, a Bolsa caiu 3,53%, aos 44.517,32 pontos - a menor pontuação desde 28 de março de 2007, quando terminou em 44.484 pontos. O volume financeiro totalizou R$ 5,035 bilhões (dado preliminar). Na semana, o Ibovespa acumulou uma perda de 12,34%.   Veja também: Aprovação do pacote protege o povo americano, diz Paulson Aprovação demonstra compromisso do governo, diz Bernanke Recurso extra reduz impopularidade de plano, diz economista Após plano aprovado nos EUA, dólar sobe 1,14% Crise afetará neoliberalismo, dizem analistas Especialistas dão dicas de como agir no meio da crise Veja os destaques do pacote de socorro aprovado nos EUA A cronologia da crise financeira  Veja como a crise econômica já afetou o Brasil Entenda a crise nos EUA    O dia, porém, começou diferente. Na espera da votação do pacote de ajuda aos bancos nos Estados Unidos, pela Câmara dos Representantes, os investidores compraram ações brasileiras, alinhados ao viés mais positivo das bolsas em Nova York. Isso levou o Ibovespa à máxima de 48.075 pontos na primeira etapa do dia, o que representou uma elevação de 4,18%. Mas, como disse uma fonte, não existe milagre. "Ainda tem muita coisa para rolar nesta crise. E o mercado não tem dinheiro novo para se defender", afirmou.   Tal percepção comprovou-se logo após o anúncio da aprovação do plano nos EUA. A Bolsa já havia reduzido a alta, e oscilava ao redor dos 47.600 pontos, com alta superior a 3%, quando saíram as primeiras informações sobre o aval da Câmara ao plano aprovado no Senado, por volta das 14h20. Em "queda livre", o índice paulista abandonou o território positivo e chegou à mínima até aquele momento, de 45.381 pontos (-1,66%). A partir dali, a oscilação predominou nas operações locais, com o Ibovespa voltando a trabalhar no azul momentaneamente.   Ao longo da tarde, contudo, o índice acionário paulista acentuou as perdas, chegando à mínima de 44.840 pontos, uma queda de 4,31%. "O doente está na UTI e você insiste em dar remédio. Você acha que vai adiantar alguma coisa no curto prazo?", comparou um experiente profissional da área de renda variável para justificar a queda, mesmo com a aprovação do tão esperado plano de ajuda aos bancos.   De acordo com esse profissional, o mercado estava todo comprado para o anúncio e, após a confirmação, passou a zerar essas posições, alinhado com a redução das altas em Wall Street - onde os índices também inverteram o sinal e encerraram em queda.   Projeto   A Câmara dos Representantes aprovou hoje o projeto por 263 a 171 votos - o que representou uma reversão do ocorrido na segunda-feira, quando a Câmara chocou os investidores e seus próprios líderes ao votar contra uma versão mais estreita do plano para comprar ativos podres de instituições financeiras. O voto de segunda-feira provocou uma forte baixa nos mercados e forçou o governo Bush e os líderes do Congresso a se empenharem com força para salvar o pacote.   O plano, que deverá ser a maior intervenção do governo nos mercados financeiros desde a Grande Depressão, representa uma ajuda de US$ 700 bilhões para as empresas combinado com US$ 152 bilhões em incentivos fiscais e instrumentos para os reguladores federais lidarem com a crescente crise econômica. Na quarta-feira, o Senado aprovou o projeto por 74 a 25 votos.   Na visão do economista-chefe da CM Capital Markets, Tony Volpon, a reação "compra no rumor e vende no fato" do mercado hoje é mais do que uma tática de trading. Para ele, ela sinaliza o entendimento do mercado de que, mesmo que um passo importante na solução da crise do setor bancário norte-americano tenha sido dado hoje, uma crise econômica, na forma de recessão, já existe nos EUA. E certamente os dados de emprego daquele país corroboram essa percepção.   Fatores internos   Na Bovespa, pela manhã, além da aposta de que o plano seria aceito pelos deputados norte-americanos, novidades anunciadas pelo Banco Central sobre compulsórios também trouxeram alívio para os investidores. Agora, bancos que adquirirem carteiras de crédito de outras instituições terão redução do depósito compulsório dos depósitos a prazo.   Depósito compulsório é a parcela de recursos que os bancos precisam recolher ao Banco Central. Com a redução desta parcela, é esperado que R$ 23,5 bilhões sejam liberados no sistema financeiro. A medida deve beneficiar principalmente pequenos e médios bancos, que têm enfrentado graves problemas para captar recursos no mercado.   A medida foi bem recebida e mostra que o governo brasileiro está trabalhando para reequilibrar as condições de liquidez do sistema. Analistas acreditam que a medida tem impacto direto positivo na expectativa de taxas de captação de curto e médio prazo das instituições financeiras. "Se o sistema sabe que a captação de recursos para honrar compromissos não será abalada, não tem porque o custo dessa captação disparar", disse João Augusto Salles, da Lopes Filho, à jornalista Silvia Araújo, do Empresas e Setores.   Por outro lado, esta medida reduz a rentabilidade das ações de bancos, que estão entre as maiores baixas do Ibovespa. As ações do Unibanco caíram 10,08%, Itaú PN -7,10%, Banco do Brasil ON -6,40% e Bradesco PN, -5,03%. Fora do índice, Cruzeiro do Sul PN -6,01%, Daycoval PN -4,35% e Pine PN -5,52%.   Notícias corporativas também pesaram sobre as operações. A notícia de uma perda potencial da Aracruz com derivativos, cujo valor justo estava negativo em R$ 1,95 bilhão em 30 de setembro, segundo fato relevante divulgado hoje pela companhia, levou as ações preferenciais da empresa a liderarem as maiores baixas do Ibovespa hoje. No fechamento, os papéis registraram uma perda de 24,81%.   As ações PN da Votorantim Celulose e Papel (VCP) também sofreram hoje e fecharam com a quarta maior queda do dia, de 10,72%. Vale lembrar que a VCP detém 28% das ações ordinárias da Aracruz. Ainda merece destaque que as duas companhias adiaram a divulgação de seus resultados trimestrais: Aracruz do dia 7 para 17 de outubro; e VCP do dia 15 para 17 de outubro.

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