Bovespa perde quase meio PIB em menos de cinco meses

Desde 20 de maio, quando o Ibovespa atingiu seu pico, valor de mercado das empresas encolheu mais de R$ 1 tri

Mônica Ciarelli, da Agência Estado,

08 Outubro 2008 | 20h12

Nos últimos quase cinco meses, a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) saiu do paraíso ao inferno. Desde 20 de maio, quando o Ibovespa - índice que mede o desempenho das ações mais negociadas na Bolsa - atingiu seu pico histórico, em 73.517 pontos, o valor de mercado das companhias no pregão paulista já encolheu mais de R$ 1 trilhão. Só para se ter idéia do tombo, a perda representa pouco menos da metade do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil em 2007.   Veja também: Ajuda de BCs mostra que crise é mais grave, diz economista Após atuação forte do BC, dólar fecha em queda de 1,38% BC vende dólares pela 1ª vez desde fevereiro de 2003 Mantega convoca reunião de emergência do G-20 sobre crise Fed lidera corte global de juro e taxa cai 0,5 ponto percentual Especialistas dão dicas de como agir no meio da crise Entenda o pacote anticrise que passou no Senado dos EUA  A cronologia da crise financeira  Veja como a crise econômica já afetou o Brasil  Entenda a crise nos EUA    Diante da dimensão da crise financeira internacional, poucos economistas arriscam traçar um cenário para a Bovespa no curto prazo. "Nossa geração nunca experimentou ou deve experimentar outra crise dessa dimensão de novo", previu o ex-presidente da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e sócio da JB Partners, José Luiz Osório. Segundo ele, não há sinais de que o cenário de turbulências no mercado possa se dissipar no curto prazo.   "O preço das ações nesse momento de crise fica divorciado da realidade da companhia", explica o ex-presidente do Banco Central e sócio da Tendências Consultorias, Gustavo Loyola. Segundo ele, as chances da PIB brasileiro crescer menos de 3% em 2009 cresceram muito nas últimas semanas com a piora das turbulências no front externo. "Seria uma desaceleração muito forte. Este ano, o crescimento deve ficar na casa dos 5%", afirmou.   Para Loyola, o Banco Central erra ao adotar intervenções em "conta gotas" no mercado de câmbio. Ele lembra que a disparada do dólar afeta diretamente a inflação, o que deve obrigar o governo a manter os juros em um patamar elevado. A conjunção desses fatores tende a resultar em lucros menores para as empresas.   A recomendação do ex-presidente do Banco Central era uma intervenção mais pesada, que causasse perdas ao investidor que estivesse apostando na alta da moeda americana frente ao real. "Não podemos gastar os US$ 200 bilhões de reservas com intervenções em conta gotas. As intervenções do Banco Central deveriam ser mais fortes."   O sócio responsável pelo Modal Asset Management, Alexandre Póvoa, observou que a previsão de lucro para as companhias em 2009 mudou. A grande dúvida hoje, ressaltou, é saber qual será o nível de preço das commodities e como ficará a questão do crédito.   "Esse é o grande ponto de interrogação", afirmou. Póvoa explica que a queda da bolsa paulista nas últimas semanas reflete ainda a saída dos investidores nesse momento de crise, especialmente dos estrangeiros. Ele pondera que muitos fundos tiveram resgates no exterior, o que obrigou os investidores a vender ativos por aqui para cobrir as perdas lá fora.   Apesar do cenário sombrio para a economia, Osório acredita que o investidor deveria olhar com atenção para o papel de empresas que têm bons fundamentos e está com preço deflacionado. "Acho que é o momento para quem tem dinheiro para comprar agora e esperar uma melhora do mercado", afirmou Osório, que comandou no Brasil por dois anos o Lehman Brothers, segundo maior banco de investimento americano que fechou as portas em setembro potencializando ainda mais a crise internacional.

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