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BRA terá dificuldade para superar crise, dizem consultores

Má administração pode agravar situação financeira e levar empresa ao mesmo fim da Vasp e Transbrasil

Beth Moreira, da Agência Estado,

23 de outubro de 2007 | 11h43

Nem mesmo a redução do número de vôos solicitada na semana passada, a ser confirmada nesta terça-feira, 23, pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), poderá ajudar a BRA a sair da intensa crise que atravessa. A péssima situação financeira - resultado de anos de má administração, na avaliação de especialistas ouvidos pela Agência Estado - poderá levar a companhia a fechar as portas no curto prazo. Para o consultor da área de aviação, Paulo Sampaio, as chances de a empresa encerrar suas atividades são muito fortes. "A companhia segue o mesmo caminho da Vasp e da Transbrasil", avalia. Sampaio ressalta que não há indícios de que os investidores estrangeiros vão assumir a companhia, até porque existe uma limitação em relação à participação desses grupos em empresas aéreas que operam no Brasil. "Também não vejo ninguém que pudesse estar interessado em comprar a BRA, principalmente, nesse momento", afirma. Além dos problemas financeiros, Sampaio cita a dificuldade de relacionamento dos controladores (os irmãos Folegatti) com a sócia minoritária Brazil Air Partners, formada por fundos de investimentos, entre os quais o Gávea, do ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga, e pelos bancos Goldman Sachs e Bank of America. Fontes ligadas ao setor lembram ainda que a parceria com a OceanAir não deu certo, o que mostra a dificuldade de relacionamento dos controladores da empresa. Segundo essas fontes, dívidas pendentes, personalidades fortes de seus presidentes e estratégias inconciliáveis teriam determinado o fim da aliança após três meses. Especialistas avaliam que os freqüentes atrasos e cancelamento de vôos refletem uma situação financeira ruim. O número excessivo de reclamações de passageiros sobre atrasos e cancelamentos de vôos levou a Anac a determinar a realização de uma auditoria na empresa aérea no início de outubro. Investigações preliminares apontaram a realização de vôos sem autorização de horário e uma sobrecarga imposta às tripulações - a agência recebeu denúncias de jornadas de até 22 horas. Entre 26 de agosto e 26 de setembro, a Anac registrou 454 queixas de passageiros contra a empresa. Dessas, 224 foram convertidas em infrações. Na semana passada a agência suspendeu por tempo indeterminado, as vendas de passagens internacionais da empresa, por conta de problemas com os dois Boeings 767 que fazem rotas para o exterior. Segundo a empresa, uma das aeronaves foi paralisada para manutenção programada e a outra parou porque um dos seus motores foi atingido por um pássaro e entrou em manutenção não programada. 'Falida' Para Sampaio, a paralisação das rotas internacionais por falta de aviões é típica de uma empresa falida. "Eles têm 10 aviões e estão voando com apenas metade da frota, o que mostra que a situação está negra", afirma. O consultor ressalta ainda que a situação financeira da companhia não reflete a crise do setor, "mas apenas má administração". "Houve apenas uma retração temporária da demanda ocasionada por problemas pontuais. A crise da empresa é resultado de uma administração exótica e que não soube direcioná-la pelo caminho correto", avalia. O especialista lembra que as taxas de ocupação da empresa são altas, o que mostra que a empresa não sofreu redução de demanda. O consultor de aviação da Bain & Company, André Castellini, avalia, no entanto, que o mau desempenho da BRA reflete sim a situação do mercado, mas somado à má administração. "Dá para ver pelos resultados da TAM e da Gol que este está sendo um ano difícil", afirma. O especialista lembra que por conta do aumento da oferta gerado com a chegada de novos aviões das duas empresas, as tarifas aéreas caíram significativamente no primeiro semestre do ano. "Uma concorrência desse tipo em uma empresa com custos mais altos e pouca capacidade para reduzir preços como a BRA, leva necessariamente a perdas elevadas de dinheiro", avalia. Além disso, a crise do setor afugentou grande parcela da categoria de passageiros que costuma viajar a lazer ou para visitar amigos e parentes, público alvo da BRA. O especialista acha difícil avaliar o tamanho da dívida da companhia aérea, mas acredita que seus ativos podem ser de interesse de algum grupo que queira investir no setor. "Eles têm slots, aviões voando, tripulação, malha aérea e um canal de distribuição que podem ser atrativos", afirma. Castellini concorda, no entanto, que negociar com os atuais controladores pode ser um problema. "A venda da empresa só seria viável se os controladores abrirem mão do controle", avalia. Novas aeronaves Um especialista que prefere não se identificar lembra ainda que a derrocada da empresa, ironicamente, inviabilizaria a concretização do maior contrato de venda de aviões da Embraer para uma empresa brasileira, cuja assinatura contou inclusive com a presença do presidente Lula. O pedido, assinado em agosto, prevê a entrega de 20 jatos Embraer 195, de 100 lugares, com opção de compra de mais 55 aviões. No total, o acordo pode chegar a US$ 2,7 bilhões. Segundo fontes que acompanham o setor, a companhia ainda não conseguiu as garantias exigidas pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para obter o financiamento do órgão. "E mesmo que conseguisse o banco não financiaria o valor total da operação", lembra a fonte. O contrato era visto como o grande propulsor do crescimento da BRA no mercado doméstico e o que faltava para a consolidação da empresa como a terceira maior companhia aérea do Brasil. A expectativa era de que com novos aviões, a empresa pudesse aumentar significativamente a sua malha, principalmente com vôos over hub (que não passem pelos grandes aeroportos), o que poderia refletir na atual fotografia do mercado, onde TAM e Gol aparecem em primeiro e segundo lugar. Fundada em 2000, a BRA opera para 26 destinos nacionais e três internacionais em vôos regulares e ocupa a quarta posição no mercado. Atualmente a empresa conta com uma frota de dez aeronaves, dos quais um Boeing 767-200 (capacidade para 232 passageiros) e um 767-300 (284 passageiros), ambos utilizados nas rotas internacionais. Nas rotas domésticas a companhia utiliza seis 737-300 (148 passageiros) e dois 737-400 (170 passageiros). Segundo dados da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), de janeiro a setembro a BRA reduziu sua participação de mercado doméstico sobre igual período de 2006 para 3,54%, ante 4,30% mantida em igual período do ano passado. A taxa de ocupação da companhia foi de 69%, ante 75% do mesmo intervalo de 2006. No mercado internacional, a participação da empresa até setembro foi de 6,33%, ante 3,62% registrado nos primeiros nove meses do ano passado. A ocupação média no intervalo foi de 73%, ante 86% de 2006.

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