Gabriela Biló/Estadão - 27/8/2019
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Coluna

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Bradesco, Itaú Unibanco e Santander aderem a coalizão que reúne ONGs e agronegócio

Segundo comunicado dos três maiores bancos do País, movimento tem como objetivo promover um modelo de desenvolvimento pautado pela economia de baixo carbono como resposta às mudanças climáticas

Giovana Girardi, Cleide Silva e Fernanda Guimarães, O Estado de S.Paulo

01 de outubro de 2020 | 14h33
Atualizado 01 de outubro de 2020 | 21h52

A Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura, entidade que reúne organizações ambientalistas e do agronegócio, recebeu nesta quinta-feira, 1, um apoio de peso do setor financeiro. Bradesco, Itaú Unibanco e Santander aderiram ao grupo que vem buscando consensos a fim de apontar caminhos para problemas que hoje estão paralisando negócios no Brasil, como o desmatamento da Amazônia.

Em comunicado conjunto, os três maiores bancos privados do País, que em julho já tinham anunciado a criação do Plano Amazônia, voltado para o desenvolvimento sustentável da região e a proteção da floresta, afirmaram que o objetivo é implementar ações para promover um novo modelo de desenvolvimento econômico no País.

A pauta orientadora, disseram, é a economia de baixo carbono, a fim de responder aos desafios das mudanças climáticas e trazer avanços na agenda de clima e agropecuária no Brasil.

O anúncio ocorre em meio a uma maior cobrança pelo rastreio da cadeia da agropecuária e os bancos têm sido cobrados a negarem crédito para aqueles que desmatam ilegalmente a Amazônia, por exemplo. O rastreio eficaz e fiscalização são alguns dos desafios para se analisar toda a cadeia, do início ao fim.

Somar esforços

Após a divulgação oficial, as três instituições informaram ao Estadão que reconhecem na Coalizão um ambiente no qual podem somar esforços com outras empresas e organizações da sociedade civil. “A agenda de preservação da floresta e de combate ao desmatamento exige atuação conjunta. Por isso, além de promover ações no âmbito de atuação dos bancos, temos buscado atuar em fóruns empresariais como o Cebds (conselho empresarial) e agora a Coalizão”.

Os três bancos afirmaram que o Plano Amazônia continua sendo implementado e que o recém criado Conselho Consultivo de especialistas trabalha com eles na definição das ações que serão implementadas, começando por quatro frentes prioritárias: atuação junto ao setor frigorífico para eliminar o desmatamento da cadeia da carne; apoiar o desenvolvimento de culturas sustentáveis na região, como açaí e cacau, por meio de soluções financeiras e não financeiras; atuar em prol da regularização fundiária e fomentar a pesquisa e a bioeconomia.

“O Plano é composto majoritariamente por medidas que os bancos podem adotar nas suas atividades de negócios. Estamos falando sobre condições de acesso a crédito, adoção de diligências na concessão de financiamentos, entre outras”, cita a nota. “A Coalizão tem uma agenda mais ampla, que possui convergências com os compromissos dos bancos. Há desafios que são específicos do setor financeiro, onde serão empreendidos os maiores esforços, agora contando também com o apoio da Coalizão e de seus membros.”

Adesão em alta

Criada em 2015, a coalizão vem sendo turbinada ao longo deste ano com a chegada de mais entidades e empresas do agro que têm visto um risco a seus negócios diante da repercussão negativa que a crise ambiental do País tem causado mundo agora. Em meados do mês, o grupo se manifestou cobrando o governo Bolsonaro. Eles sugeriram uma série de medidas para conter o desmatamento.

Desde o ano passado, aderiram os frigoríficos Marfrig, JBS e BRF e associações como Abiec (indústrias exportadoras de carne), Abrapalma (de produtores de Óleo de Palma) e Abia (da Indústria de Alimentos). Além da Unicafes (União Nacional das Cooperativas da Agricultura Familiar e Economia Solidária), que reúne cooperativas, federações e confederações da agricultura familiar e da agroecologia.

Eles se unem a entidades como a Abag (Associação Brasileira do Agronegócio) e ONGs como Ipam (Instituto de Pesquisas Ambientais da Amazônia), WWF-Brasil, Imaflora e Imazon. O grupo, porém, teve a perda do Observatório do Clima, grupo que reúne organizações ligadas ao clima. Com as novas adesões, a coalizão agora soma cerca de 250 entidades, ONGs e empresas.

“Hoje somos o maior movimento de diálogo cidadão no que tange à agricultura, ao clima e à floresta no Brasil. Esse crescimento que tivemos neste ano mostra o momento de grande anseio por diálogo e por uma construção positiva entre o agronegócio, os setores de clima e agora dos serviços financeiros”, disse ao Estadão Marcello Brito, um dos cofacilitadores da coalizão e presidente da Abag.

“Em todo o mundo, a presença dos bancos e dos fundos de investimento nessa agenda mudou o debate que era muito focado no social e no ambiental. Trouxe uma nova dimensão que é da análise de risco de longo prazo. Acredito que a entrada do setor financeiro se dá justamente porque eles estão medindo o risco das mudanças climáticas e o impacto que poderão ter sobre os negócios”.

O aumento do grupo ocorre também em um momento que o governo federal tem sido fortemente cobrado por investidores estrangeiros e nacionais sobre medidas para combater a devastação ambiental no País, escancarada em setembro com a alta expressiva de queimadas no Pantanal e na Amazônia.

“Toda a polarização que estamos vivendo no País, não só na agenda agroambiental, reflete o quanto estamos todos muito tensionados no Brasil. E tensão cansa. Uma consequência é que as pessoas, as organizações, as empresas começam a buscar espaços onde possam dialogar e consigam construir, buscar convergências e construir caminhos para solucionar os problemas”, disse André Guimarães, também cofacilitador da coalizão e diretor executivo do Ipam.

“Estamos aprendendo a duras penas que a polarização é importante para marcar posições, mas não é a ferramenta para resolver o problema. Para isso é preciso entendimento, convergência”, complementa Guimarães.

Convergência difícil

Apesar desses novos membros, o esforço por buscar convergências entre ruralistas e ambientalistas não tem sido exatamente fácil. No fim do ano passado, a coalizão sofreu um forte baque ao perder seis entidades-chave do agronegócio brasileiro, como a Sociedade Rural Brasileira (SRB), a Associação Brasileira Indústrias Óleos Vegetais (Abiove) e União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica). O movimento, conforme o Estadão apurou na época, ocorreu por pedido do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles.

Nesta semana, a Aprosoja, entidade que reúne os produtores de soja, rompeu com a Abag sob a justificativa de que a imagem do agro está sendo “difamada”.

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