Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

Bradesco revisa projeções e vê Selic em até 9,25% no fim do ciclo de alta

Em relatório mensal, banco também reduziu a previsão de crescimento do PIB de 1,8% para 1,6% no ano que vem; inflação pode chegar a 5% em 2022, no cenário pessimista

Cícero Cotrim e Mateus Fagundes, O Estado de S.Paulo

01 de outubro de 2021 | 18h46

Diante de um cenário de inflação cada vez mais elevada, o Bradesco aumentou as suas projeções para a taxa básica de juros, a Selic. Em relatório mensal divulgado nesta sexta, 1º,  o banco elevou a estimativa de taxa Selic no fim de 2021 de 7,5% para 8,25%, e estima que os juros devem atingir um pico entre 8,75% e 9,25% no atual ciclo de aumento. Para o fim de 2022, o banco elevou a projeção para a Selic de 7,5% para 8,5%. 

Por causa das surpresas recentes com a inflação, o Bradesco também aumentou sua estimativa para Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) em 2021 de 7,80% para 9,0%. A estimativa para 2022 também foi revisada, de 3,30% para 3,80% - acima do centro da meta do ano que vem, de 3,50%.

No entanto, o banco alerta que o quadro de 2022 é incerto. O cenário pessimista considera IPCA de 5,0% no ano que vem, acima do teto da meta. No cenário otimista, o IPCA ficaria em 3,0%.

"Se de um lado há riscos de propagação dessa inflação via inércia, novas surpresas com preços de energia e combustíveis, extensão dos problemas de oferta e repasses em bens industriais além de possíveis elevações em planos de saúde que levem o IPCA para 5,0%, também há importantes riscos de baixa", diz o Bradesco.

Entre os riscos de inflação mais baixa, os economistas do banco citam uma queda dos preços de commodities e a desaceleração dos preços de alimentos. O banco nota ainda que uma crise hídrica menos severa e uma política econômica menos expansionista dariam alívio para o IPCA de 2022.

Com os juros e a inflação mais altos e sinais recentes que sugerem menor expansão global, o Bradesco também revisou a estimativa de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) em 2022 de 1,8% para 1,6%. Para 2021, contudo, as previsões do banco se mantiveram inalteradas em 5,2%.

"Não enxergamos, ao menos por ora, crescimento do PIB muito inferior a 1,5% no ano que vem", afirmam os analistas do Bradesco.

A atividade interna pode ser ajudada pela recuperação do mercado de trabalho, mas o banco pondera que o cenário global para o próximo ano requer atenção, diante da perspectiva de retirada de estímulos monetários e indicativos de que a China poderá aceitar um crescimento do PIB menor em troca de nova agenda de desenvolvimento.

"Como consequência, o maior impacto deve se dar sobre as economias emergentes e os preços das commodities. No Brasil isso teria um efeito relevante no crescimento do PIB, especialmente decorrente da queda das exportações - o minério de ferro, sozinho, poderia retirar cerca de US$ 20 bilhões do saldo da balança comercial", afirma  o Bradesco.

O banco pondera ainda que é preciso acompanhar a situação da crise hídrica e seus efeitos para a geração de energia. O risco de racionamento é, para o Bradesco, o principal vetor negativo a ser monitorado para a atividade econômica. 

"A materialização de um cenário de seca que leve à necessidade de racionamento poderia retirar entre 0,5 e 0,7 ponto percentual de crescimento do PIB. No entanto, esse risco ainda é minoritário, contingente à hidrologia dos próximos meses. Além disso, ao contrário da crise hídrica de 2001, hoje o sistema está muito mais integrado e dispõe de maior oferta de usinas termoelétricas, tornando-o mais resiliente às adversidades climáticas", afirma o banco.

Risco fiscal ‘relevante’

O Bradesco ressaltou que o cenário-base do banco assume certa preservação do teto dos gastos, embora os riscos persistam. A instituição vê melhora dos dados correntes, mas piora das discussões acerca das contas públicas no ano que vem.

"Para os precatórios, passamos a considerar a criação de um limite anual para o pagamento dessas despesas, de acordo com a alternativa em discussão entre governo e Congresso. Contudo, a parcela remanescente dos precatórios deverá ser renegociada e paga fora do teto de gastos ou adiada", diz o banco.

Já sobre o novo programa social, que irá substituir o Bolsa Família, o Bradesco estima que "seja encontrada uma solução para o financiamento do novo programa social sem perdas adicionais de arrecadação". Mas alerta para o "risco fiscal relevante" da perda de arrecadação com a reforma do Imposto de Renda, um dos mecanismos que deve ser destravado para garantir o 'novo' Bolsa Família.

Em números, o Bradesco espera que o déficit primário do setor público seja de R$ 80 bilhões em 2021 e de R$ 71 bilhões em 2022. Para a relação dívida bruta/PIB, é esperado avanço de 81,5% este ano a 83,2% no próximo.

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