Brasil 2009 - ajustes nos investimentos

O grave equívoco das autoridades americanas, deixando o banco de investimento Lehman Brothers quebrar, mudou a natureza da crise. Seus impactos imediatos foram uma gigantesca crise de crédito e uma perda sem precedentes de riqueza no mundo, implicando desorganização do sistema bancário, queda vertiginosa da demanda e forte recessão.Apesar da insistência do governo brasileiro em não reconhecer o tamanho da ameaça, a internalização da crise foi imediata, especialmente por meio de uma instantânea contração no crédito e da saída de capital do País. Isso levou a uma desvalorização algo desordenada (alta volatilidade) do real. Além disso, a rápida mudança na percepção dos agentes dos riscos do novo ambiente econômico implicou revisão na estrutura de consumo das famílias e ajustes nas empresas. Vejamos com mais cuidado essas reações.No lado da demanda, a redução no crédito e o efeito "rádio peão" levaram os consumidores a diminuir suas compras. Mas esse ajuste na demanda deverá ocorrer de maneira desigual entre os diversos tipos de produtos. Os de maior valor agregado, seja pela menor oferta de crédito ou pelo medo de assumir um endividamento mais alto num ambiente em que o risco de perder o emprego é maior, sofrerão mais. Já os de menor valor agregado, como alimentos, vestuário e calçados, sentirão menos. Isso porque deverá haver uma substituição no padrão de consumo das pessoas, trocando bens mais caros, como carros, por bens um pouco mais baratos. Além disso, é razoável supor que os consumidores de renda mais alta e os mais qualificados serão mais afetados do que os demais. Isso porque, além de terem sofrido perdas importantes de riqueza (ações, fundos de investimento, etc.), os trabalhadores mais qualificados sentirão a redução na procura das empresas por mão-de-obra mais especializada, resultado de menores investimentos e fortes perdas no sistema financeiro.No lado das empresas os ajustes também têm sido rápidos e intensos. A quebra do Lehman Brothers e a piora da crise ocorreram em setembro, justamente o momento em que as empresas estão em fase de revisão do planejamento estratégico e elaboração do orçamento para 2009. Por outro lado, a demanda também caiu rapidamente, implicando aparecimento de estoques indesejados aqui e no resto do mundo.A combinação de menor oferta de crédito, problemas em operações de crédito com derivativos e estoques acima do desejado pressionou as finanças das empresas, exigindo uma mudança rápida na gestão de seus negócios. Da ampliação do market share e dos investimentos, prioritários até antes da piora da crise, passou a ser fundamental a administração do caixa. Isso tudo resultou no adiamento imediato dos investimentos.A reciclagem do consumo nos moldes acima descritos e a queda na demanda por nossas exportações resultam no fato de que a grande variável de ajuste ocorrerá nos investimentos. Isso porque muitos fatores concorrem para reduzir ou postergar os ganhos com novos projetos, ao contrário do que parece supor o governo, qual seja, que tudo se resuma a repor (via Estado) a oferta de crédito, seja para consumo, seja para investimento. Vejamos estes fatores: Queda de demanda e aparecimento de capacidade ociosa. Alguns exemplos: 1) commodities como carnes, minérios, metais e produtos químicos; e 2) setor automobilístico. Nesses casos, o adiamento de novos projetos por pelo menos dois anos é inevitável. Elevação dos riscos dos projetos no mundo todo, em razão do forte aumento da insolvência e da incerteza quanto às perdas do sistema financeiro e empresarial. É oportuno dizer que a redução na taxa de juros não soluciona a questão, pelo menos por certo tempo. Virtual impossibilidade de conseguir garantias e créditos de longo prazo (por exemplo, vejam-se os adiamentos de projetos de infraestrutura). Até gigantes como Petrobrás terão de reduzir e reprogramar investimentos.Não é por menos que a cada dia são mais comuns as notícias de adiamento de investimentos, o que indica que estes sofrerão uma forte redução em 2009, dos esperados +13,3%, em 2008, para +1,3%. Sendo possível, inclusive, um desempenho pior do que este inicialmente projetado pela MB. *José Roberto Mendonça de Barros e Renata Ferraz de Toledo Machado são economistas da MB Associados

José Roberto Mendonça de Barros e Renata Ferraz de Toledo Machado*, O Estadao de S.Paulo

21 de janeiro de 2009 | 00h00

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