Dida Sampaio/Estadão
O ministro Paulo Guedes comemorou nesta quinta os resultados do mercado formal de trabalho. Dida Sampaio/Estadão

Brasil abre 394 mil empregos formais em outubro, melhor saldo para o mês em 29 anos

Segundo o Ministério da Economia, no entanto, mesmo com o crescimento das vagas com carteira assinada nos últimos três meses, ainda não houve recuperação das perdas registradas entre março e maio deste ano

Lorenna Rodrigues, O Estado de S.Paulo

26 de novembro de 2020 | 10h40
Atualizado 26 de novembro de 2020 | 23h14

BRASÍLIA - A economia brasileira gerou 394.989 empregos com carteira assinada em outubro, segundo dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) divulgados nesta quinta-feira, 26, pelo Ministério da Economia. Foi o melhor resultado para o mês desde o início da série histórica, em 1992. Até então, o melhor valor para esse período havia sido registrado em 2009 – quando foram abertos 230.956 empregos formais.

Apesar disso, mesmo com o crescimento dos empregos formais nos últimos meses, ainda não houve recuperação de todas as perdas registradas entre março e maio deste ano, no auge da pandemia de covid-19 – quando foram perdidos 1,594 milhão de empregos. Até outubro, o saldo ainda está negativo em 171.139.

O ministro da Economia, Paulo Guedes, disse que o País pode terminar o ano com perda zero de empregos com carteira assinada. Mas ele não deu projeções para os próximos meses para sustentar sua estimativa. Historicamente, dezembro registra fechamento de vagas.

“A economia continua retomando em 'V' e gerando empregos em ritmo acelerado. Reagimos com resiliência, soubemos fazer distanciamento social e, ao mesmo tempo, manter a economia girando”, afirmou ele.

Guedes deixou a entrevista coletiva de apresentação dos dados sem responder perguntas, como tem feito nessas ocasiões. Após críticas de que a equipe econômica estaria sem rumo, disse que isso não ocorreu. “Não perdemos o rumo nesta recessão, estamos nos levantando e criando emprego”, completou. Ele agradeceu ao presidente Jair Bolsonaro por ter mantido a equipe econômica que, segundo ele, foi várias vezes ameaçada, e disse estar bastante satisfeito.

O secretário especial de Previdência e Trabalho do Ministério da Economia, Bruno Bianco, ecoou a fala do ministro. “A economia está em franca retomada, o Caged e os empregos estão voltando em 'V', mais até do que a nossa expectativa. O mês de dezembro é um mês historicamente negativo, mas temos a influência do benefício emergencial”, avaliou ele, em referência ao pagamento do auxílio emergencial – que, a princípio, deixará de ser feito a partir de janeiro de 2021.

O secretário de Trabalho do Ministério da Economia, Bruno Dalcolmo, acrescentou que o governo não espera um comportamento do Caged em 2020 igual ao de outros anos. Segundo ele, se normalmente os meses de dezembro têm fechamento de cerca de 300 mil vagas, este ano o comportamento pode ser diferente.

O Sudeste foi a que registrou o maior saldo positivo (186.884), seguida pelo Sul (92.932) e Nordeste (69.519). No Centro-Oeste foram abertas 25.024 vagas e, no Norte, 20.658 postos de trabalho. Houve saldo positivo de 156.766 contratações nas empresas de serviços - setor que mais abriu vagas. No comércio, o resultado foi positivo em 115.647 vagas e na indústria, em 86.426. Na construção, foram recuperadas 36.296 vagas no mês passado. A agricultura registrou o fechamento de 120 vagas. 

PIB

O superávit do Caged em outubro é compatível com um crescimento de 1,9% do Produto Interno Bruto (PIB) no quarto trimestre em relação ao terceiro, calcula o Banco ABC Brasil. “Quando traduzimos o ritmo do Caged para o PIB oficial, os números sugerem algum viés de alta para o PIB do quarto trimestre”, afirma o economista sênior Daniel Xavier, em nota a clientes. O ABC Brasil prevê, atualmente, crescimento de 1,2% do PIB em outubro a dezembro.

Na avaliação do economista-chefe da Genial Investimentos, José Márcio Camargo, o saldo do Caged de outubro retrata um momento positivo, mas o governo precisará reduzir a incerteza fiscal no País para que resultados como esse se repitam.

“O cenário positivo exige que o Orçamento de 2021 obedeça ao teto de gastos (regra que limita o crescimento dos gastos à inflação), que em 2021 o País aprove um conjunto de reformas capaz de fazer com que a questão fiscal deixe de ser uma nuvem pesada sobre a economia brasileira”, afirma Camargo. “Sem resolver isso, não devemos esperar um ano positivo em 2021.”

O comportamento do Caged até aqui mostra que é possível a concretização de um cenário no qual a renda do trabalho possa substituir o fim do auxílio emergencial, de acordo com o economista. Camargo reforça o resultado positivo do setor de serviços, de criação de 156.766 vagas, e a disseminação do resultado positivo entre todos os setores da atividade.

Ainda assim, quando se considera o total da força de trabalho no País (e não apenas a abertura de novas vagas formais), a tendência é que a taxa de desemprego continue em movimento ascendente e encerre 2020 próxima de 16%, diz o economista. “Mas é uma estatística que representa relativamente pouco, porque esse desemprego já existe e só vai começar a aparecer na estatística”, afirma.

Já na avaliação do economista Luka Barbosa, do Itaú Unibanco, o resultado de outubro indica que o pior momento do emprego formal já ficou para trás na crise provocada pela covid-19. Mas ele destaca que o estoque de emprego segue abaixo do nível pré-pandemia. De acordo com o ajuste sazonal do Itaú, o nível de emprego formal no País com o dado de outubro é de 38,665 milhões, contra 39,445 milhões em setembro. Barbosa afirma que a direção é positiva, mas o ano ainda deve fechar com o estoque aquém do patamar de fevereiro. / COLABOROU CÍCERO COTRIM e THAÍS BARCELLOS

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Entenda por que os números do Caged e do IBGE apontam em direções contrárias

Apesar de o mercado de trabalho formal registrar o quarto mês seguido de mais contratações que demissões, o índice de desemprego no País não para de subir

Redação, O Estado de S.Paulo

26 de novembro de 2020 | 10h42
Atualizado 23 de dezembro de 2020 | 13h30

Nos últimos meses, a cada divulgação de dados do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados), que consolida os números  do mercado de trabalho formal, têm-se a impressão de que tudo está melhorando. Já são cinco meses seguidos de saldo positivo – ou seja, mais contratações do que demissões. Mas aí vem o IBGE e divulga seus dados do mercado de trabalho, a Pnad Contínua, e o que vemos é um balde de água fria. O desemprego não para de subir. Por que essa discrepância vem ocorrendo?

A principal causa disso é que são pesquisas bastante diferentes, com metodologias distintas, apesar de ambas trazerem um retrato do mercado de trabalho. No caso do Caged, o número se refere apenas às admissões e demissões feitas pelas empresas formalizadas. São os registros nas carteiras de trabalho dos empregados, dados que as próprias empresas enviam ao Ministério da Economia.

Já no caso da Pnad Contínua, é uma pesquisa “amostral”, com perguntas feitas às pessoas, e se refere tanto ao trabalho formal quanto ao informal. Acontece que, no Brasil, a informalidade é bem maior que a formalidade. Segundo os dados do próprio IBGE, em setembro havia no País 29,1 milhões de empregados com carteira assinada no setor privado. Mas esse mesmo setor privado tinha 8,8 milhões de trabalhadores sem carteira assinada, que se somavam aos 31 milhões de informais e aos 21,5 milhões de trabalhadores “por conta própria”. Ou seja, o universo dos “sem carteira” é mais do que o dobro dos “com carteira”.

Além disso, alguns analistas acreditam que, por causa da pandemia da covid-19, os dados do mercado formal de trabalho podem estar distorcidos. A avaliação é que os programas de auxílio lançados pelo governo federal para conter os efeitos da pandemia, como a suspensão dos contratos de trabalho, estariam segurando as demissões, que aumentariam assim que essas “muletas” sejam retiradas.

Daniel Duque, especialista em mercado de trabalho do Ibre/FGV, já levantou também a hipótese de que muitas empresas, sobretudo as pequenas, responsáveis pela maior massa de empregos, simplesmente fecharam as portas durante a pandemia e nem reportaram os desligamentos, o que ajudaria a melhorar os dados do Caged.

Seja lá qual for o motivo, o verdadeiro retrato do mercado de trabalho brasileiro só deve ser conhecido no ano que vem, quando os auxílios fornecidos ao governo, tanto às pessoas quanto às empresas, forem retirados. Haverá, nesse caso, um número muito maior de pessoas nas ruas em busca de uma ocupação. Ninguém tem muita esperança de que será um retrato bonito.

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'Caged mostra que recuperação começou, apesar de todos os problemas', diz pesquisador da Fipe

Segundo Hélio Zylberstajn, geração de quase 400 mil postos formais de trabalho em outubro reflete a retomada em vários setores da economia

Entrevista com

Hélio Zylberstajn, professor sênior da FEA/USP e pesquisador da Fipe

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

26 de novembro de 2020 | 18h45

A geração líquida de quase 400 mil postos formais de trabalho em outubro é uma recuperação vigorosa do emprego, sustentável e reflete a retomada  que houve em vários setores da economia, segundo Hélio Zylberstajn, professor sênior da FEA/USP e pesquisador da Fipe.

Apesar dessa melhora, ele lembra que 20 milhões de brasileiros perderam trabalho formal e informal por conta da pandemia e o saldo positivo de vagas com carteira assinada dos últimos meses é ainda insuficiente para resolver o problema. “O filme da ocupação está  muito ruim, mas o retrato hoje está muito bom. E o filme tende a melhorar daqui para frente.” A seguir trechos da entrevista.

Como o sr. avalia o resultado do Caged de outubro, com a abertura líquida de 394 mil postos com carteira assinada?

É uma notícia animadora mesmo. Não chega a ser uma novidade porque em setembro o Caged já tinha fechado com um saldo positivo de 314 mil vagas. Em termos mensais, poucas vezes chegamos a essa marca.

De onde vem esse resultado?

As últimas pesquisas do IBGE mostram que comércio, indústria e serviços estão positivos e o emprego está refletindo essa reviravolta. Acho que uma parte é sazonal, pois no fim do ano o emprego cresce. Tanto a indústria está produzindo para o final do ano como o comércio e os serviços estão contratando para o final do ano. Com a pandemia e o lockdown, todo mundo ficou em casa e houve queda repentina no consumo: as lojas pararam de vender, as fábricas pararam de produzir. A queda na atividade foi um baque enorme. As previsões eram de uma queda do PIB (Produto Interno Bruto) entre 9% e 10%. Mas a coisa começou a voltar: as pessoas passaram a consumir e as empresas começaram a correr atrás para atender a demanda. Daí, houve um crescimento dos dois lados. Por isso, o emprego cresceu rapidamente. É algo surpreendente, ninguém esperava uma recuperação com esse vigor.

Os trabalhadores temporários entram nesse saldo?

Sim, são contratados com carteira assinada.

Quanto desse saldo é trabalhador temporário e efetivo?

A indústria e a construção civil contrataram muito em outubro. E a indústria não contrata temporários. Quem contrata temporários é o comércio e não se trata de uma parcela tão grande. É recuperação de emprego mesmo. A contratação nos serviços também aumentou muito.

Essa recuperação do emprego é sustentável?

A parte dos temporários, é claro, vamos perder. Mas as empresas estão contratando não só temporários. A decisão de contratar é uma decisão tardia. O empresário antes de contratar espera um tempo para saber se a demanda se sustenta mesmo. Se ele decidiu contratar, é porque está convencido de que vai vender. A minha expectativa é que, fora a sazonalidade da perda do emprego em dezembro, essa coisa vai se sustentar no começo do ano que vem. Não vamos ter um saldo de 400 mil novos empregos em janeiro, mas não vamos ter gente sendo demitida. Além de os empresários estarem contratando porque sentiram que as vendas estão firmes, quem entrou na suspensão do contrato de trabalho e na redução de jornada e salário tem garantia de emprego. Esses trabalhadores não serão demitidos. Estamos projetando a manutenção do emprego para os meses iniciais do ano que vem. Tudo indica que é uma recuperação com alguma sustentação.

Qual é a tendência do emprego como um todo, já que há muitos informais que estão fora do mercado?

O último dado do IBGE que pega o trabalhador formal e o informal mostra que ambos estavam crescendo a ocupação na Pnad (a pesquisa sobre mercado de trabalho do IBGE). O que vai acontecer daqui para frente é algo meio paradoxal, mas que é fácil de entender. Tivemos um deslocamento enorme de pessoas para fora do mercado de trabalho. Muitos trabalhadores formais foram desligados e muitos informais, os ambulantes, perderam mercado. Esse povo foi para casa e não aparece na estatística da desocupação porque não está  procurando emprego.

Agora, como eles estão vendo essa melhora, vão voltar ao mercado. Por isso, a ocupação vai crescer, porque as empresas estão contratando. E a taxa de desocupação também vai crescer porque muita gente estará voltando a procurar emprego. A questão é que a oferta de vagas será num volume menor do que a quantidade de pessoas que precisam de trabalho. Na pandemia, tivemos um crescimento de 20 milhões de pessoas não ocupadas. Destas, metade está procurando emprego e a outra metade quieta em casa. Quando se olha para o Caged e se vê que as contratações líquidas foram de 400 mil em outubro, se tem a dimensão de quantas vagas são necessárias ainda. Precisamos arrumar trabalho para esses 20 milhões de desocupados.

Então, o cenário é favorável ou não para a ocupação?

O filme da ocupação está muito ruim, mas o retrato hoje está muito bom. E o filme tende a melhorar daqui para frente.

Mas vai melhorar mesmo com o fim do auxílio emergencial, com a incerteza do quadro fiscal e o risco de uma segunda onda de covid?

Apesar de tudo, foram contratadas 400 mil pessoas em outubro. Isso está mostrando uma energia, um vigor latente na economia. Precisa acontecer uma coisa muito ruim, uma tripla tempestade perfeita para desmanchar esse movimento que começou. Claro que temos problemas, mas a recuperação começou, apesar de todos os problemas que temos.

Com esse resultado do Caged são zeradas as perdas que houve com a pandemia?

De janeiro a outubro, estamos no vermelho com 171 mil postos. Na pandemia, de março a outubro, estamos devendo 511 mil vagas. Esse saldo negativo da pandemia vai se reduzir bastante com o resultado de novembro, que provavelmente será muito bom, e ficar muito próximo de zero. Mas o ano fecha no negativo porque em dezembro geralmente há mais demissões do que contratações. É um movimento sazonal que não tem a ver com a pandemia. Teremos perdas no fechamento do ano, mas muito menor do que imaginamos.

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