Marcelo Chello/Estadão
Marcelo Chello/Estadão

'Brasil ainda não está no nível de outros países no ESG'

Para executivo, exigências de investidores em relação a práticas concretas na Europa, por exemplo, é muito maior do que aqui

Entrevista com

Miguel Stilwell, presidente do grupo EDP

Renée Pereira, O Estado de S.Paulo

03 de novembro de 2021 | 05h00

Apesar do avanço das melhores práticas ambientais, sociais e de governança (ESG, na sigla em inglês) nos últimos anos, o Brasil ainda está um passo atrás em relação a outras nações do mundo, sobretudo da Europa. Em entrevista ao ‘Estado’, o presidente do grupo EDP, Miguel Stilwell, afirma que o País ainda não está tão alinhado com o ESG como outras geografias. “Na Europa, é difícil ter uma conversa com um investidor que não passe pelo ESG. O Brasil ainda não está nesse nível.”

De passagem pelo País para inaugurar o primeiro parque solar no País, de 252 MW, em Pereira Barreto, no interior de São Paulo, o executivo afirmou que a empresa tem trabalhado para tornar seu portfólio de geração 100% renovável até 2030. Isso significa investir cerca de € 25 bilhões entre 2021 e 2025 e se livrar de algumas térmica a carvão que ainda respondem por 5% dos resultados totais da empresa.

Stilwell também destacou os efeitos da pandemia na digitalização e nas formas de trabalho no mundo todo. O grupo adotou um regime híbrido em todas as subsidiárias de 22 países, com três dias de trabalho no escritório e dois dias de flexibilidade para o funcionário, que define se quer trabalhar em casa ou no escritório. Veja a seguir trechos da entrevista:

A pandemia acelerou uma série de fatores, como a digitalização e o ESG. Como vocês estão trabalhando isso? O que mudou depois da pandemia?

Este ano publicamos e apresentamos ao mercado um novo plano de negócios com alguns fatores instintivos. Tinha três grandes pilares. Um deles tem a ver com crescimento sustentável e o objetivo de ser totalmente verde até 2030. Para isso, precisamos investir muito no tema de transição energética. Vamos investir cerca de €24 bilhões entre 2021 e 2025. Desse total, 88% é renovável (eólica e solar). O restante é destinado a investimento em redes, como distribuição e transmissão, e clientes. Estamos muito alinhados com as metas de descarbonização.

E os demais pilares?

O segundo pilar tem a ver com o ESG. Estamos investindo em renováveis e vamos desinvestir em térmicas, principalmente centrais a carvão e reduzir as emissões de CO2. No componente social, queremos olhar nossos investimentos nas comunidades, mas também vamos dar atenção para temas como igualdade de gênero e diversidade. Do ponto de vista de boa governança também refizemos nossa estrutura para estarmos mais alinhados com as melhores práticas de ESG. Outro pilar está ligado a pessoas. Nosso objetivo é ter uma organização voltada para a parte da digitalização, inovação e conseguir atrair boas pessoas para a empresa e retê-las. Essa foi a estratégia que apresentamos. 

Essa nova sede tem a ver com esses objetivos da empresa?

No contexto da pandemia, nós reconhecemos que tudo está mudando, seja no setor elétrico ou nas formas de trabalhar. As nossas instalações daqui são um exemplo da nova forma de trabalhar, que é muito diferente de antes. Sentimos que houve de fato uma mudança na forma como as pessoas trabalham. Tomamos uma decisão mundial de trabalhar de forma híbrida. Serão três dias no escritório e, em dois dias, as pessoas decidem como for melhor. Implementamos esse modelo em 22 países onde estamos. Isso é possível porque temos infraestrutura tecnológica digital. Hoje em dia é possível ser bastante produtivo mesmo estando remoto. É bom ter essa capacidade de trabalhar de forma remota, mas também é importante estarmos fisicamente juntos. Contratamos muitas pessoas ao longo do último ano e algumas nunca tinham estado fisicamente com as pessoas, não tinham se conhecido fisicamente.

Como você compara o ESG no Brasil e na Europa? Estamos atrasados?

O Brasil ainda não está tão alinhado como outras geografias. A Europa claramente está dedicando muito tempo e atenção a isso. Por lá, os investidores pressionam as empresas e privilegiam primeiro aquelas que têm boas práticas de ESG. Vemos isso de uma forma muito concreta. E eles penalizam quem não tem as boas práticas. No Brasil, temos procurado seguir o que adotamos no resto do mundo. Exemplo disse é que temos uma vice-presidente focada especificamente em ESG.

A exigência aqui é menor?

Aqui não existe uma apreciação tão clara por parte dos investidores em relação ao tema ESG. Na Europa, é difícil ter uma conversa com um investidor que não passe pelo ESG. Eles têm pessoas que escrutinam as empresas para verificar se estão cumprindo as regras. O Brasil ainda não está nesse nível. Mas acreditamos que isso vai crescer e se tornar um tema cada vez mais relevante. 

Como é a exigência lá fora?

Lá há um escrutínio muito grande em relação aquilo que são as práticas concretas, e mensuráveis. Não pode ser um programa simplesmente com boas intenções, tem de ter coisas razoavelmente concretas. Os investidores olham e premiam de fato quem consegue corresponder às expectativas. Nós, por exemplo, temos uma política ativa de promoção para mulheres. Em nível global, temos 25% de mulheres no grupo. Nosso compromisso é chegar aos 30% até 2025. São metas concretas.

Para o investidor, há um peso diferente entre o social, ambiental e governança?

Governança é uma precondição para os investidores aplicarem seus recursos. Boa governança quer dizer ter boas práticas éticas e ter profissionais experientes. O ambiental também passa a ser um tema crítico. Os investidores exigem saber qual é a política ambiental, de sustentabilidade e de combate as alterações climáticas, ainda mais para a EDP que tem algumas emissões de CO2. Eles querem saber como, quanto e quando vamos reduzir. Esse tipo de prática é uma coisa muito presente. No social, os investidores ainda não têm o mesmo nível de escrutínio em relação aos outros componentes. Na Europa, estão definindo um green taxonomy (ferramenta que permite entender o que é ambientalmente sustentável). Eles definem o que é considerado de fato um investimento verde. Também falam em criar um social taxonomy – esse está um pouco mais atrasado, mas vai olhar o que é considerado uma boa política de investimento na competência social. É um tema relevante. 

O grupo ainda tem térmicas a carvão. Onde essa fonte é mais importante? 

Hoje temos na Península Ibérica e no Brasil. 74% da nossa geração já é com energias renováveis. Vamos para 100% em 2030. O carvão representa 5% dos nossos resultados totais. Já fechamos algumas na Europa e outras estão em fase de fechamento. Aqui temos uma central muito eficiente. Portanto, estudamos algumas alternativas. Estamos procurando parceiros para fazer a operação da usina. Temos até 2025 para resolver essa questão.

Qual fonte é prioridade para o grupo?

Mais de 95% do nosso histórico é eólico. Vimos que a eólica era muito competitiva face a solar ao longo dos últimos anos. Mas o custo da solar caiu muito. Portanto hoje em dia, dependendo da região, usamos a eólica ou a solar, ou, às vezes, as duas. Isso depende da geografia. No centro dos Estados Unidos, há muita eólica; na Califórnia, solar; e na costa leste, eólica off shore. Aqui no Brasil tem excelentes condições de eólicas no Nordeste e temos solares em outras regiões, como São Paulo. 

Quanto vocês devem investir nessas fontes?

Em termos globais, vamos construir cerca de 4 gigawatt (GW) por ano até 2025. Ou seja, cerca de 20 GW de energia no total. Metade será eólica e metade solar. No Brasil, já temos 1,5 GW construídos ou em construção de eólica e 500 MW em solar. Até 2025, esses números serão maiores.

A empresa colocou três hidrelétricas à venda no Brasil? Por que?

Estamos fazendo um rebalanceamento do nosso portfólio. Isso tem a ver com nossa estratégia global. Queremos ter hidrelétrica de forma ponderada. Em Portugal, vendemos 6 barragens no ano passado. Além disso, queremos liberar capital para reinvestir em outras fontes, como eólica e solar e novas tecnologias renováveis. Por isso, temos de vender alguns ativos. 

Qual o peso a turbulência política nos investimentos da empresa no Brasil?

A EDP está no Brasil desde os anos 90, Já aprendemos a trabalhar aqui. Nós temos uma visão que o setor elétrico no Brasil é muito sofisticado, estável e previsível. Gostamos de investir no País, pois há boas oportunidades de negócios. Mas tem de ter uma visão de longo prazo. Ao longo de cinco anos, vamos investir R$ 16 bilhões no País, em distribuição, transmissão, comercialização e geração.

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