Márcio Fernandes/Estadão
Os brasileiros pretos e pardos eram 75% da população vivendo em condições de miséria no ano passado Márcio Fernandes/Estadão

Brasil alcança recorde de 13,5 milhões de miseráveis, aponta IBGE

País tem mais miseráveis do que a soma de todos os habitantes de países como Portugal, Bélgica, Cuba ou Grécia

Daniela Amorim e Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

06 de novembro de 2019 | 10h00

RIO - O Brasil atingiu nível recorde de pessoas vivendo em condições de miséria no ano passado, 13,537 milhões de brasileiros, contingente maior do que toda a população da Bolívia. Os dados são da Síntese de Indicadores Sociais (SIS), divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)

O País tem mais miseráveis do que a soma de todos os habitantes de países como Portugal, Bélgica, Cuba ou Grécia. 

“A pequena melhora no mercado de trabalho não está chegando a essas pessoas, está pegando pessoas já numa faixa (de renda) mais alta. A extrema pobreza cresce”, ressaltou André Simões, gerente da Coordenação de População e Indicadores Sociais do IBGE.

A pesquisa do IBGE considerou a classificação do Banco Mundial para a pobreza extrema, ou seja, pessoas com rendimentos inferiores a US$ 1,90 por dia, o equivalente a cerca de R$ 145,00 mensais - na conversão pelo método de “paridade de poder de compra” (PPC). 

A conversão pelo PPC dá um valor diferente da que usa a cotação diária do câmbio comercial ou turismo. Nesse método, é levado em conta o valor necessário para comprar a mesma quantidade de bens e serviços no mercado interno de cada país em comparação com o mercado interno dos Estados Unidos. Como os cortes de pobreza do Banco Mundial foram estabelecidos em 2011, o IBGE usou a taxa de conversão pelo PPC daquele ano e atualizou os valores pela inflação, para chegar aos R$ 145 mensais.

“O principal programa de redução de pobreza do Brasil tem uma linha de corte de R$ 89,00. Mesmo a pessoa recebendo Bolsa Família, ela vai estar abaixo de uma linha de pobreza global. Está bastante longe dos R$ 145,00 (adotados pelo Banco Mundial). A linha usada para administração do Bolsa Família está abaixo da linha de pobreza internacional”, lembrou Leonardo Athias, técnico também na Coordenação de População e Indicadores Sociais do IBGE.

O programa Bolsa Família, voltado para a redução da extrema pobreza, atende às famílias com renda per capita de até R$ 89 mensais. Famílias com renda per capita entre R$ 89,01 e R$ 178,00 mensais podem ser contempladas apenas se tiverem crianças ou adolescentes até 17 anos de idade.  O porcentual de famílias que recebem Bolsa Família caiu em sete anos, segundo dados do IBGE, passando de 15,9% dos lares brasileiros em 2012 para 13,7% em 2018.

Por outro lado, o total de miseráveis no País vem crescendo desde que começou a crise, em 2015. Em 2014, 4,5% dos brasileiros viviam abaixo da linha de extrema pobreza. Em 2018, esse porcentual subiu ao patamar recorde de 6,5%. Em quatro anos de piora na pobreza extrema, mais 4,504 milhões de brasileiros passaram a viver na miséria, a maioria deles era de cor preta ou parda.

Os brasileiros pretos e pardos eram 75% da população vivendo em condições de miséria no ano passado. Quando considerada a população abaixo da linha de pobreza - ou seja, com renda de US$ 5,50 por dia, cerca de R$ 420 mensais - eles também eram maioria.

Em 2018, 25,3% da população brasileira estavam abaixo da linha de pobreza, 52,5 milhões de pessoas, sendo 72,7% deles negros ou pardos. Em relação ao pré-crise, o País tem mais 6,706 milhões de pessoas na pobreza. 

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Trabalhador de baixa renda têm perda salarial há 4 anos

No ano passado, os 10% mais ricos ganharam 13 vezes mais do que os 40% mais pobres, diferença recorde na série histórica da pesquisa, iniciada em 2012

Daniela Amorim e Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

06 de novembro de 2019 | 10h00

Os trabalhadores com menores rendimentos sofrem com perda salarial há quatro anos consecutivos. Ao mesmo tempo, os trabalhadores mais bem remunerados conseguiram ganho expressivo em 2018, aumentando a desigualdade no mercado de trabalho brasileiro. Os dados são da Síntese de Indicadores Sociais (SIS), divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)

No ano passado, os 10% mais ricos ganharam 13 vezes mais do que os 40% mais pobres, diferença recorde na série histórica da pesquisa, iniciada em 2012. A renda média dos 40% pior remunerados encolheu 0,8%, enquanto os 10% mais bem remunerados aumentaram o ganho em 4,1%. Como a massa de trabalhadores passou a ganhar menos, os empregadores gastaram menos com a mão de obra que empregam, explicou João Hallak, analista da Coordenação de População e Indicadores Sociais do IBGE. 

“A renda do empregador envolve a receita menos a despesa dele. Com uma despesa menor com a força de trabalho, a renda dele melhora”, justificou Hallak.

Além dos empregadores, militares e servidores públicos passaram a ganhar mais em 2018, segundo os pesquisadores do IBGE. “Servidores públicos e militares têm estabilidade, conseguiram reajuste acordado com o governo em períodos anteriores. Como a inflação foi muito baixa no período, algumas categorias tiveram aumento real. E tem a carreira do Judiciário, que conseguiu elevados aumentos salariais”, completou Hallak. 

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Negros têm mais dificuldade de encontrar emprego e recebem até 31% menos que brancos

Desigualdades raciais no País se refletem em menos oportunidades e menos renda disponível, aponta IBGE; renda média domiciliar per capita dos pretos ou pardos foi de R$ 934 em 2018, metade do que era recebido pelos brancos, de R$ 1.846

Daniela Amorim e Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

06 de novembro de 2019 | 10h00

RIO - Trabalhadores negros enfrentam mais dificuldade de encontrar um emprego se comparados a trabalhadores brancos, mesmo quando possuem a mesma qualificação. Quando trabalham, recebem até 31% menos que seus pares. Os dados são da Síntese de Indicadores Sociais (SIS), divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)

As desigualdades raciais no País se refletem em menos oportunidades e também menos renda disponível. A renda média domiciliar per capita dos pretos ou pardos foi de R$ 934 em 2018, metade do que era recebido pelos brancos, de R$ 1.846.

Em todos os níveis de instrução, a taxa de desemprego é significativamente mais elevada entre a população preta ou parda do que entre a população que se autodeclara branca. Entre os que têm ensino superior completo, a taxa de desemprego é de 5,5% para os brancos, mas sobe a 7,1% entre pretos e pardos. Na faixa com ensino médio completo ou superior incompleto, os brancos têm taxa de desemprego de 11,3%, contra 15,4% dos pretos e pardos.

Quando conseguem emprego, o salário permanece desigual. Em 2018, os trabalhadores ocupados de cor branca tinham rendimento por hora trabalhada superior ao da população preta ou parda em todos os níveis de instrução. A maior diferença foi no nível de instrução mais elevado, com ensino superior completo: os brancos recebiam R$ 32,80, 45% a mais que os R$ 22,70 recebidos por pretos e pardos.

“O nível de instrução é parte da desigualdade, mas não é todo o problema. A efetiva discriminação no mercado de trabalho também acontece”, disse Luanda Botelho, analista da Coordenação de População e Indicadores Sociais do IBGE.

Os brasileiros mais ricos são majoritariamente brancos. Entre os 10% com maiores rendimentos domiciliares per capita, 70,6% eram de cor branca e apenas 27,7% de preta ou parda. A situação se inverte no outro extremo, na faixa de 10% mais pobres: 75,2% deles são pretos ou pardos, enquanto somente 23,7% são brancos.

Na população em geral, os pretos e pardos são maioria, 55,8% dos brasileiros, contra uma fatia de 43,1% de brancos.

Os negros eram maioria na força de trabalho de atividades como Agropecuária (60,8% dos trabalhadores nesse setor), Construção (62,6%) e Serviços domésticos (65,1%), todos eles segmentos com remuneração inferior à média em 2018. Por outro lado, os brancos estavam em maior número nas atividades mais bem remuneradas, como Informação, financeiras e outras atividades profissionais e Administração pública, educação, saúde e serviços sociais. 

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IBGE: 11,8% da população entre 15 e 17 anos está fora da escola

49% da população de 25 a 64 anos não completou o ensino médio; entre membros da OCDE, resultado só não é pior do que no México, Turquia, Costa Rica e Portugal

Daniela Amorim e Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

06 de novembro de 2019 | 10h00

RIO – A evasão escolar na adolescência segue como um problema em todo o País. Em 2018, 88,2% da população entre 15 e 17 anos de idade estavam na escola, longe da meta de universalização do próprio Plano Nacional de Educação (PNE), mostra a Síntese de Indicadores Sociais (SIS), divulgada nesta quarta-feira pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Isso quer dizer que 11,8% dessa faixa etária, ou 1,2 milhão de adolescentes, estão fora da escola. 

O problema está localizado no ensino médio. A taxa de frequência escolar bruta (proporção das pessoas que frequentam a escola, em qualquer série ou nível, em relação à população total de determinada faixa etária) das pessoas de 6 a 14 anos de idade está próxima da universalização pelo menos desde 2016. Na faixa etária de 15 a 17 anos, a taxa passou de 87,2% em 2016 para os 88,2% atuais – a meta do PNE é atingir a universalização até 2024.

O quadro é parecido na comparação entre as regiões do País, mas as desigualdades entre as faixas de renda chamam a atenção. Entre os adolescentes de 15 a 17 anos que estão no grupo dos 20% mais pobres, 11,8% abandonaram a escola sem concluir sequer o ensino básico. Entre os 20% mais ricos dessa faixa etária, apenas 1,4% havia abandonado os estudos nessas condições.

Para o IBGE, a evasão está relacionada ao atraso escolar, que atinge os maiores níveis na faixa de 15 a 17 anos. Nessa faixa etária, 23,1% do total da população estão fora da etapa adequada para a idade. “Quanto maior a repetência, maior a evasão”, disse Betina Fresneda, pesquisadora da Coordenação de População e Indicadores Sociais do IBGE.

Com isso, 49% da população de 25 a 64 anos não completou o ensino médio. O indicador é o dobro da média dos países membros ou associados à Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), que ficou em 21,8%, nos dados de 2017.

Apenas México (62,3% da população de 25 a 64 anos sem ensino médio completo), Turquia (60,7%), Costa Rica (60,5%) e Portugal (52%) têm indicadores piores do que o Brasil nesse quesito, conforme ranking elaborado pelo IBGE. Japão (zero), Canadá (8,9%), Estados Unidos (9,4%), Finlândia (11,9%) e Suíça (12,2%) estão entre os países ricos com os melhores indicadores da lista.

“Em comparação com países mais ricos a gente fica muito aquém do nível de instrução, vários indicadores mostram isso”, disse Betina.

Os dados do IBGE também mostram a persistência da mazela do analfabetismo. A taxa de analfabetismo ficou em 6,8% em 2018, para a população de 15 anos ou mais. Em 2016, a taxa estava em 7,2%. 

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IBGE: 35,7% dos brasileiros vive sem esgoto, mas 79,9% da população já tem acesso à internet

Região Norte possui piores indicadores de acesso a esgoto, com apenas 20,7% da população atendida

Daniela Amorim e Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

06 de novembro de 2019 | 10h00

RIO - Pouco mais de um terço dos brasileiros vivem em domicílios sem coleta de esgoto sanitário. O quadro, que se mantém praticamente inalterado nos últimos anos, é pior nas regiões Norte e Nordeste. São 74,156 milhões de brasileiros, ou 35,7% da população total, vivendo nessas condições, mostra a Síntese de Indicadores Sociais (SIS), com dados de 2018, divulgada nesta quarta-feira, 06, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Apesar da mazela, o acesso à internet, disponível para 166 milhões de brasileiros, segue crescendo rapidamente. 

 

Do total de pessoas vivendo em casas sem esgoto, 63%, ou 46,526 milhões de pessoas moram no Norte ou no Nordeste. No Norte, 79,3% dos habitantes moram em domicílios sem esgoto sanitário. No Nordeste, a proporção da população local vivendo nessas condições é de 57,1%, também acima da média nacional.

“Não é só o fato de ser população mais rural. Os próprios domicílios urbanos do Norte e Nordeste têm menos acesso a saneamento que os outros domicílios urbanos de outras regiões”, afirmou Bruno Perez, técnico da Coordenação de População e Indicadores Sociais do IBGE.

O quadro mudou pouco nos últimos anos porque a proporção de pessoas em casa sem coleta de esgoto em 2016 era de 36,3%. No Norte, a mazela diminuiu entre 2016 e 2018, mas muito pouco, de 82,3% da população total da região para os 79,3% atuais.

Mesmo sem coleta de esgoto em casa, as famílias brasileiras possuem bens como geladeira e telefones. Em 2018, 96,0% da população residia em domicílios com pelo menos um aparelho telefônico de linha fixa ou ao menos um morador com aparelho celular. A geladeira estava presente no domicílio de 98,3% dos brasileiros.

Com a tecnologia móvel, a disseminação dos celulares leva a internet para a maioria da população: 79,9% dos brasileiros vivem em lares com internet, fixa ou móvel. Isso que dizer que 166 milhões de brasileiros já têm algum acesso à rede. Mesmo na população vivendo abaixo da linha de pobreza, 65,9% têm internet em casa, seja móvel ou fixa.

“O acesso (à internet) é principalmente por celular”, disse Perez, do IBGE.

O acesso cresce rapidamente, pois, em 2016, 68% dos brasileiros viviam em lares com internet. Na prática, entre 2016 e 2018, 26,934 milhões de pessoas passaram a ter algum acesso à rede em casa.

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'Ninguém faz nada pela gente aqui', diz vendedor de sucata em Recife

A maior queixa de Silva é a falta de saneamento básico: 'este ano, a gente sofreu duas cheias, perdemos quase tudo'

Vinicius Brito e Israel Gomes, especiais para o Estado, O Estado de S.Paulo

06 de novembro de 2019 | 22h17

RECIFE/FORTALEZA - Edilson Silva, de 44 anos, mora há mais de três décadas em uma casa sob a Ponte da Volta ao Mundo, em Caxangá, na zona oeste do Recife. Ele não tem emprego formal e ganha a vida vendendo sucata. “Eu saio toda noite com um carrinho de mão velho para arrumar uma reciclagem e ajudar em alguma coisa. O que eu arrumar é lucro.” Na família dele, formada pela mãe, dois irmãos e uma sobrinha, a renda mensal gira em torno de R$ 120 por pessoa. 

A maior queixa de Silva é a falta de saneamento básico. “É péssimo, não tem ninguém que faça nada pela gente aqui. É muita água e, com a chuva, chega a 1,5 metro dentro de casa. Este ano, a gente sofreu duas cheias, perdemos quase tudo, geladeira, móveis, sofá, cama e fogão.”

Silva faz parte dos 13,537 milhões de pessoas que vivem na miséria no País, segundo a pesquisa Síntese de Indicadores Sociais (SIS), divulgada ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)

Apesar de viver em condições precárias, numa área sem coleta de esgoto, Silva tem acesso à internet. Mas ele diz que não usa celular nem computador com frequência.

Mesma realidade de Patrícia Alves, de 44 anos, “nascida e criada” na Vila Felicidade, uma das Zonas Especiais de Interesse Social da capital pernambucana. A comunidade, banhada por um rio, não tem sistema de esgoto. “A gente não tem saneamento e cada dia que passa é pior, com as cheias. Antigamente, (a água da chuva) só cobria o pé aqui em casa. Agora, chega na cintura. Perdi guarda-roupa, cama, colchão e até roupas, só fiquei com a máquina e a TV.”

Patrícia está desempregada há dois anos e a renda mensal da família não chega a R$ 170 por pessoa. “Estamos com um salário mínimo, porque só meu marido trabalha, para dividir comigo, três filhos e uma neta.” Ela também tem acesso à internet e paga R$ 55 por mês, conta. 

Formado em Gestão de Recursos Humanos na Faculdade Lourenço Filho, há quase cinco anos, João Paulo Brito, de 27 anos, ainda não conseguiu uma vaga em sua área. Nesse período, trabalhou onde deu, mas há cerca de seis meses está desempregado. Brito mora com os pais, o irmão e a cunhada em Pacatuba, município da região metropolitana de Fortaleza, distante 32,5 km da capital cearense. Na residência, apenas duas pessoas trabalham com carteira assinada.

João não fez estágio enquanto cursava o ensino superior e acredita que a dificuldade para arrumar emprego se deve à falta de experiência, à crise, mas também ao racismo. “O favorecimento a pessoas brancas é visível.”

Segundo o IBGE, desigualdades raciais no País se refletem em menos oportunidades e desigualdade salarial.

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