Brasil-Argentina após a era Kirchner

As incertezas sobre os rumos que tomará a Argentina com a ausência de Néstor Kirchner têm importância indiscutível para o Brasil. Essa percepção não é derivada apenas dos aspectos relacionados à contiguidade geográfica, mas é também fruto da análise da evolução recente das relações econômicas do Brasil com seu vizinho. Uma das mudanças fundamentais da economia brasileira na década de 1990 foi haver rompido o isolamento comercial em relação aos países vizinhos, que havia sido mantido ao longo de várias décadas de políticas econômicas baseadas na substituição de importações. O evento que marcou o início dessa nova fase foi o lançamento, em março de 1991, do Mercosul.

SANDRA POLÓNIA RIOS E JOSÉ TAVARES DE A. JR., O Estado de S.Paulo

30 de outubro de 2010 | 00h00

Apesar da falta de sincronia no cenário macroeconômico e das falhas institucionais do bloco, o intercâmbio comercial entre Argentina e Brasil saltou de US$ 2 bilhões para US$ 31 bilhões entre 1990 e 2008. Essa mudança de patamar resultou de dois ciclos de expansão (1990-1998 e 2002-2008), intercalados por uma breve recessão durante a crise do regime cambial argentino.

Um dos traços notáveis do padrão de comércio gerado pelo Mercosul é o alto grau de sofisticação tecnológica dos bens transacionados. Durante o período 2001-2009, mais de 90% das exportações brasileiras para a Argentina foram de produtos industrializados. Do lado das importações, a participação desses bens na pauta também foi crescente: subiu de 70% para 84%. Como seria previsível, a pauta brasileira é mais diversificada. Além de material de transporte, outras indústrias, como bens de capital, química, siderurgia, combustíveis e plásticos têm alcançado parcelas significativas no mercado do país vizinho.

Ao promover um padrão de comércio típico de economias avançadas, o Mercosul tornou-se uma fonte importante de desenvolvimento industrial nos dois países, abrindo novas oportunidades para a ampliação das escalas de produção, investimentos diretos bilaterais, parcerias empresariais, diferenciação de produtos e inovação tecnológica.

Mais além do crescimento do comércio bilateral, os investimentos diretos de empresas brasileiras na Argentina geraram nos últimos anos uma complexa rede de relacionamentos e interesses que ultrapassam o plano comercial. Segundo o IndexInvest, elaborado pelo Centro de Estudos de Integração e Desenvolvimento (Cindes), entre 2007 e o terceiro trimestre de 2010, foram realizadas 34 iniciativas de investimento direto brasileiro na Argentina, o que corresponde a 38% do total realizado nos países da América do Sul e no México. Mas esse movimento teve seu auge em 2007. Desde então o número de novas operações na Argentina vem caindo a cada ano, assim como a participação desse país como destino dos investimentos brasileiros na região.

Os governos do casal Kirchner caracterizaram-se por forte intervenção no funcionamento dos mercados e alterações nas regras do jogo que afetam os interesses das empresas brasileiras com negócios com a Argentina. Esse fator pode explicar em parte o arrefecimento recente dos investimentos brasileiros naquele país, enquanto outros da região ganham maior participação.

A agenda Brasil-Argentina esteve tomada nos últimos anos pelo contencioso comercial resultante de medidas protecionistas adotadas pela Argentina como parte do projeto de industrialização dos Kirchners. Mas questões relacionadas ao ambiente regulatório econômico são crescentemente importantes para determinar a trajetória futura das relações bilaterais.

Provavelmente, o comércio Brasil-Argentina continuará crescendo, com altos e baixos, ao sabor dos cenários macroeconômicos nos dois países. Mas as novas fontes de dinamismo nas relações econômicas bilaterais estão principalmente associadas à dinâmica dos investimentos diretos. Iniciativas voluntaristas dos dois governos em busca de integração das cadeias produtivas terão resultado desprezível na ausência de ambientes macroeconômico e regulatório favoráveis ao desenvolvimento dos negócios. Resta torcer para que a Argentina pós-Kirchner e o Brasil pós-Lula rumem nessa direção.

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