Brasil começa a ganhar espaço na exportação de serviços de TI

Apesar do crescimento, País ainda está longe da meta traçada pelo governo

Renato Cruz, O Estadao de S.Paulo

10 de novembro de 2007 | 00h00

Há três anos, a revista americana Wired publicou em sua capa a foto de uma indiana, com a chamada "Dê adeus a seu cubículo", um alerta ao trabalhador dos Estados Unidos. A reportagem sobre offshoring (transferência de serviços para o exterior) tinha como destaque a Índia e trazia uma lista dos dez principais países que vendiam serviços de tecnologia da informação. O Brasil nem aparecia nela. A situação, no entanto, começou a mudar. A consultoria AT Kearney publicou um relatório este ano com os dez países com melhores condições para a exportação de serviços de tecnologia e o Brasil ficou em quinto lugar. No relatório anterior, de 2005, o País era décimo."O Brasil tem competência em software há 45 anos", diz Antonio Carlos do Rego Gil, presidente da Associação Brasileira das Empresas de Software e Serviços para Exportação (Brasscom). "Temos as condições adequadas, mas ainda falta um elemento: a gente precisa mobilizar a vontade política do Brasil." Ele propõe que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva abrace a causa da exportação de software e serviços de TI da mesma forma que fez com os biocombustíveis.O software foi definido como uma das quatro prioridades da política industrial no começo do governo Lula, quando foi traçada uma meta de US$ 2 bilhões em exportação para este ano. Mas, apesar de o mercado ter crescido bastante, ainda está longe do objetivo. Gil prevê que as vendas de software e serviços de tecnologia para o exterior vão alcançar US$ 800 milhões este ano, menos da metade da meta.Um estudo do BNDES, divulgado também no início do governo Lula, mostrava que um dos problemas do setor era a falta de porte das empresas brasileiras frente às multinacionais. Depois disso, empresas como Totvs, Datasul e CPM Braxis partiram para um movimento de consolidação. A Stefanini planeja abrir o capital em março e usar os recursos para comprar companhias no Brasil e no exterior. A empresa espera faturar R$ 390 milhões este ano, um crescimento de 25% sobre 2006. Com presença em 13 países, além do Brasil, 20% das receitas da Stefanini vêm do exterior. "Estamos estabelecidos nos principais mercados globais", afirmou Marco Stefanini, presidente e fundador da companhia. "Em cinco anos, metade da receita virá das exportações."Multinacionais como as americanas IBM, Accenture e EDS e a indiana Tata exportam serviços de TI a partir do Brasil. Fabricantes como a HP e a Dell desenvolvem aqui software adotado nas suas linhas mundiais de produtos. Mesmo grupos de outros setores, como a Rhodia, decidiram instalar no País centros de tecnologia para atender o mundo todo. As empresas brasileiras de software investiram em certificação, uma exigência do mercado internacional, e em qualificação de mão-de-obra. Mas o esforço não foi suficiente para atingir a meta."O principal problema hoje são os encargos fiscais e trabalhistas", diz Gil. "Em salário, o trabalhador brasileiro é competitivo. Com os encargos, ele deixa de ser." O segundo maior obstáculo é a formação de mão-de-obra. "Principalmente na língua inglesa", diz. Para cada US$ 1 milhão adicionais de exportação, são precisos cerca de 20 novos profissionais.O Brasil tinha como meta chegar a US$ 5 bilhões em vendas externas em 2010, mas o setor já reconhece que vai demorar pelo menos um ano a mais para chegar a essa marca.

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