Brasil continua exposto, afirma BIS

O Brasil continua exposto ao ambiente de volatilidade internacional devido às suas amplas necessidades de financiamento externo que, no entanto, indicam uma tendência de queda. É o que diz o Banco para Compensações Internacionais (BIS, na sigla em inglês), o banco central dos bancos centrais, em seu relatório anual divulgado hoje na Suíça. O documento tem 202 páginas, e nele o BIS faz uma detalhada análise da economia mundial desde o ano passado. Segundo o documento, há sinais que indicam que a atividade econômica em muitos mercados emergentes começou a se fortalecer. Entretanto, em vários países da América Latina "a incerteza política tem desestabilizado os mercados financeiros".Segundo o banco, o maior risco para os países latino-americanos está ligado ao cenário externo. "Caso os fluxos financeiros se tornem escassos, refletindo uma maior aversão ao risco ou política doméstica instável, os déficits de conta corrente teriam que ser reduzidos através de cortes correspondentes nos gastos domésticos", disse o banco. "Isso poderia ser doloroso, como já vimos na Argentina e antes na Turquia".Economia global em recuperaçãoO banco salientou que a economia e o sistema financeiro mundiais mostraram, desde o ano passado, uma enorme resistência diante de choques sucessivos, como os ataques terroristas de 11 de setembro, o escândalo contábil na Enron, o conflito no Oriente Médio e o colapso argentino. Segundo o banco, a economia mundial parece estar se expandindo novamente. "E são os Estados Unidos que estão mais uma vez liderando o caminho, apesar de seus vários desequilíbrios".O BIS salientou, no entanto, que "ainda é prematuro se concluir que tudo agora ficará bem". Alguns dos temores dos mercados poderão se concretizar e alguns dos choques do ano passado poderão ter implicações de longo prazo. "Um efeito que já está muito evidente tem sido a profunda erosão, tanto no mercado como na população, da confiança, que é um alicerce fundamental numa economia em pelo funcionamento".Argentina: "caso especial"Segundo o BIS, o distanciamento de outros mercados latino-americanos da crise argentina, bem como a ausência de qualquer sinal de "contágio de depósitos" em outros países emergentes, parecem sustentar a tese de que os investidores, até o momento, consideram a Argentina como um caso especial.O BIS alertou, no entanto, que com o passar do tempo os bancos internacionais poderão ficar mais cautelosos no estabelecimento de novas operações nas economias emergentes onde os sistemas político e jurídico não sejam considerados confiáveis. "De maneira mais geral, os bancos internacionais poderão tornar mais rigorosos os seus critérios para conceder empréstimos aos governos de países emergentes e às instituições do setor público através de suas subsidiárias".A crise argentina, segundo o BIS, poderá também fazer com que os bancos que obtêm uma alta proporção de seus lucros das operações de um determinado mercado emergente (ou região) a diversificarem os seus investimentos. O relatório não cita o nome de nenhuma instituição, mas essa possibilidade se encaixa na atual situação dos bancos espanhóis, que concentraram os seus investimentos na América Latina, estratégia que vem gerando críticas na Espanha.Segundo BIS, outra fator de preocupação para os mercados emergentes criado pela crise argentina é que os fluxos de Investimentos Diretos Estrangeiros poderão ser afetados pelas volumosas perdas registradas pelas empresas estrangeiras naquele país. Além disso, diante do pesado prejuízo dos investidores europeus, que possuíam cerca de US$ 20 bilhões em bônus do governo argentino, "as economias emergentes poderão ter maiores dificuldades para realizar emissões de duas dívidas junto aos investidores no futuro".Menor impacto cambial nos preçosO BIS obervou que há indicações de um declínio do impacto do câmbio nos preços tanto nos países ricos como nas economias emergentes nos últimos anos. Um exemplo óbvio é o modesto aumento da inflação brasileira após a desvalorizaçào do real no início de 1999. "As possíveis razões para isso incluem as expectativas moderadas de salários e preços resultante de políticas de estabilidade críveis, melhores condições de competitividade doméstica após reformas estruturais e a maior integração dos mercados emergentes na economia global", disse o BIS."Entretanto, um generalizado declínio do impacto cambial (pass-through) não deveria ser motivo para complacência, pois os movimentos cambiais continuam sendo um fator importantes sobre os preços". O banco observou que as fortes quedas do real e do rand sul-africano em 2001 foram acompanhadas por um considerável aumento da inflação. Além disso, na Turquia e Argentina a inflação disparou após o colapso da moeda local.O BIS afirmou que a estrutura operacional da política monetária tem implicações para o espaço de manobra dos bancos centrais diante de movimentos adversos no mercado cambial. Se uma taxa de juros de longo prazo é usada como a referência chave da economia (como, por exemplo, na República Checa, Polônia e Tailândia) há uma relativa maior liberdade para permitir que a taxa overnight flutue em resposta a pressões cambais de curto prazo. Entretanto, se taxa referencial é a de overnight (como no Brasil, Chile e Coréia do Sul), poderá ser difícil permitir que a taxa de juros praticada pelo mercado se desvie persistentemente da meta oficial sem que isso seja visto como uma alteração da condução política.Intervenções cambiais: ferramenta alternativa, mas nem sempre eficazO BIS considera que intervenções das autoridades no câmbio podem ser úteis e representam uma ferramenta alternativa em momentos específicos. Mas observou que elas precisam ser equilibradas diantes de suas possíveis limitações e custos. "A Intervenção pode não ser sempre eficaz para influênciar o câmbio", disse o banco. Um dos custos potencial da intervenção cambial é que como ela revela os objetivos e as preferências das autoridades, poderá ser interpretada de maneira equivocada. Isso, por sua vez, poderia prejudicar a eficácia das medidas. "Um esforço para comunicar ao público a atitude oficial e estratégia da intervenção poder ser benéfica nesse caso".O BIS observou que já é quase opinião consensual que o Fundo Monetário Internacional está correto "em gerar expectativas de que o tamanho de seus emprestimos de emergência aos países em crise será mais limitado". Isso, segundo o banco, irá remover as expectivas de que sucessivos apoios financeiros estão disponíveis. "Casos específicos que requerem maior financiamento discricionário vão ocorrer, mas a decisão para tornar essas somas disponíveis irá provavelmente envolver mais exigências e critérios mais transparentes".

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