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Laura Karpuska
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Brasil corre risco de desperdiçar a recuperação global; leia análise

O cenário parece ser novamente positivo para a economia brasileira, mas existem pedras no caminho, a começar pelo próprio governo

Laura Karpuska*, O Estado de S.Paulo

04 de junho de 2021 | 04h00

Foi uma boa semana para a economia brasileira. Os dados do PIB do primeiro trimestre surpreenderam positivamente. O Brasil pode chegar a crescer 5% este ano, basta ficar parado nos próximos trimestres. Com o aquecimento da atividade e aumento dos termos de troca, vimos os dados de arrecadação tributária melhorando. Isso diminui um pouco o risco fiscal que temos por carregar uma dívida de quase 87% do PIB, segundo metodologia do Banco Central do Brasil. Além disso, o saldo positivo da balança comercial caminha para novos recordes.

Para nos animar ainda mais, o governador do Estado de São Paulo, João Doria, anunciou que pretende vacinar com a primeira dose todos os adultos até dia 31 de outubro. A vacina, melhor solução para a pandemia e para os efeitos deletérios desta sobre a economia, está se tornando mais real para todos. 

O futuro, sempre incerto, não parece o mais cinza. Preços de commodities estão subindo, algo que favorece países exportadores como o Brasil. O setor de construção civil anda otimista com a manutenção relativa da renda, graças ao auxílio emergencial desenvolvido pelo poder Legislativo, à queda dos juros praticados no mercado e à melhora da atividade global.

Este parece ser um cenário positivo ao Brasil. Mas existem pedras no caminho. Uma delas é a inflação. Velha conhecida nossa, a inflação já está reduzindo o poder de compras dos brasileiros. Ela também aumenta o custo para empresas, algo que pode gerar restrição de oferta futura, caso o aumento de preços aos consumidores finais não seja mais possível. Até porque o desemprego e o endividamento têm subido na margem, indicando que, em algum momento, a demanda agregada pode sentir algum baque. 

Outro risco conhecido resolveu voltar: o de uma crise energética. Crises energéticas ou trazem aumento dos preços de energia - e redução da renda disponível das pessoas e aumento dos custos das empresas, que reduzem investimento, o que pode gerar mais inflação futura via repasses - ou significa contenção de oferta de energia - o que segura crescimento econômico no curto prazo. 

A perpetuação do otimismo (com o aproveitamento do cenário global que parece nos favorecer) vai depender das políticas públicas adotadas pelo governo. Pergunto-me se o Brasil vai, de novo, estragar uma de suas chances. A resposta do governo à pandemia, a crise energética, a não extensão do auxílio emergencial e a decisão de sediar a Copa América diminuem meu entusiasmo. Este governo faz escolhas ruins consistentemente. É difícil ficar otimista.

Logo, o principal risco que pode levar o Brasil a não desfrutar desse período de abundância global é o próprio governo. Quão melhor não estaria o país se os 690 milhões de doses ofertadas ao governo federal no último ano tivessem sido, ao menos parcialmente, aceitas? O Brasil, com toda nossa experiência em campanhas de vacinação, poderia ser exemplo internacional de país em desenvolvimento que conseguiu controlar a crise sanitária, manter o nível relativo de renda, evitar aumento da pobreza e vacinar todo o seu povo. 

Não foi isso que aconteceu. Longe disso. Mas, a despeito do governo federal, o Brasil conseguiu caminhar. Inclusive, esta semana, ouvimos o Ministro da Economia, Paulo Guedes, dizendo que “achávamos que a pandemia estava acabando não por má-fé, foi um engano.” Todos nós nos enganamos. Faz parte da vida daqueles que tem como ofício dar uma opinião. Eu entendo. É o meu caso. Mas é importante salientar as circunstâncias em que os erros foram cometidos. No caso da afirmação do ministro, faltou dizer que os erros se deram porque a ciência, os especialistas e comunidade internacional foram, solene e deliberadamente, ignorados. 

Nesta semana, tivemos também, pela primeira vez desde 2018, manifestações expressivas contra Bolsonaro. O 29 de maio escancarou que as ruas não são mais monopólio dos apoiadores do governo. Uma foto das manifestações me chamou atenção. Era uma jovem mulher segurando um cartaz escrito algo como “preparem-se para a revolução em 2022”. Sorri, ao reconhecer ali o espírito jovem ousado. Mas balancei a cabeça negativamente pois acredito que o que o Brasil menos precisa agora é uma revolução. O que a gente precisa é de vacina, estabilidade econômica, respeito institucional. E, quem sabe, um impeachment. 

* É ECONOMISTA

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