Brasil defende solução global para o câmbio

Para especialistas, porém, ação internacional só poderá ter resultado se forem implantados controles de capital

Fabio Graner e Fernando Nakagawa, O Estado de S.Paulo

19 de setembro de 2010 | 00h00

 Apesar das medidas já adotadas e do arsenal de remédios ainda em estudo para enfrentar o "drama cambial", o governo brasileiro avalia que é preciso adotar uma ação mais ampla, com a participação integrada das principais economias. Porém, os especialistas ouvidos pelo Estado revelam ceticismo quanto a um enfrentamento internacional do problema do câmbio, "a não ser que se promovam controles de capital".

Diante da valorização de suas moedas, Japão e Colômbia começaram a agir. O Brasil já reforçou sua ação para defender o real nos leilões de compra da moeda e o governo até mapeou, por exemplo, a presença de cerca de US$ 40 bilhões que vieram do Japão para operações no mercado.

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, subiu fortemente o tom e deixou claro que a valorização do real preocupa e que o governo não pretende aceitar passivamente especulações com a moeda via "carry trade" - quando o investidor se aproveita da diferença de taxas de juros.

Além de operar no câmbio, Mantega deve levar o assunto para a reunião do fórum que reúne os 20 países mais ricos do mundo, em novembro, em Seul. Embora o governo ainda esteja costurando o que vai dizer no encontro, a iniciativa revela a crença da equipe econômica de que, por mais que atue aqui dentro, a solução do problema depende de uma discussão global, enfrentando temas como a política de moeda depreciada na China.

Para a Fazenda, a política cambial chinesa e alguns outros asiáticos, como a Coreia do Sul, é uma das questões-chave. Com suas divisas subvalorizadas artificialmente, os produtos daquela região têm maior competitividade no mundo e, de outro lado, esse câmbio representa uma barreira para a entrada dos produtos importados naqueles países. A estratégia americana de desvalorizar o dólar, fomentando as exportações daquele país, reforça o contexto adverso, especialmente porque, sem a contrapartida de uma valorização do iuan chinês, o desequilíbrio cambial no mundo aumenta.

Foco de especulação. O professor de economia da PUC-SP Antônio Corrêa de Lacerda avalia que essa terceira fase pós-crise, chamada por ele de "drama cambial", tem a posição chinesa como elemento central e o Brasil está em grande desvantagem. "O iuan está 40% desvalorizado, enquanto o real está 20% valorizado", disse. "O problema cambial se tornou fundamental para a competitividade dos países. É um protecionismo combinado com um estímulo à exportação."

No Brasil, Lacerda destacou que os investidores tentam fazer "arbitragem" com o real, quando se aproveitam da diferença de juros do Brasil com outros países. Além de uma política mais agressiva no mercado de câmbio, Lacerda diz que precisa haver uma concertação mundial para tornar mais equilibrado o jogo no mercado de moedas.

Para o ex-diretor do BC Carlos Thadeu de Freitas, porém, a ideia de um acerto internacional é irrealizável, a não ser que se promovam controles de capital - cujo efeito colateral seria uma queda no comércio internacional. Ele entende que o que vai trazer de volta um pouco de equilíbrio ao mercado de moedas é a alta do juro dos EUA. Embora não aposte nisso no curto prazo, Freitas entende que, quando os investidores começarem a cobrar mais para rolar a dívida dos EUA, o dólar vai reverter sua trajetória de desvalorização que tem causado tanta polêmica.

 

 

 

 

 

 

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