Helvio Romero/Estadão
Helvio Romero/Estadão

Brasil deixa de repor depreciação de bens de capital e perde capacidade de gerar PIB

Ativos que geram riquezas, como máquinas, estradas e portos, têm sido deixados em segundo plano; segundo Ipea, capacidade do País de produzir, transportar e fornecer produtos e serviços caiu 1,1% em cinco anos

Eduardo Laguna, O Estado de S.Paulo

30 de março de 2021 | 15h00

Uma recessão doméstica prolongada e uma crise sanitária, intercaladas por um período de modesta recuperação, reduziram a capacidade de produção da economia brasileira. O País tem deixado de repor completamente o desgaste de ativos que geram riqueza, como máquinas, estradas e portos, o que afeta, como consequência, o seu potencial de crescimento nos próximos anos.

Conforme estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) obtido com exclusividade pelo Estadão/Broadcast, o estoque de capital fixo no Brasil - ou seja, a soma de todos os bens necessários para produzir, transportar e fornecer produtos e serviços - caiu 1,1% nos últimos cinco anos. É algo inédito na série estatística, iniciada em 1947, na qual o saldo mostrava, até então, ininterrupto crescimento.

Na abertura do dado, o destaque negativo vem do parque de máquinas e equipamentos. Mais sensível às oscilações econômicas, foi reduzido em 9% se comparado ao tamanho de cinco anos atrás.

O Brasil, de forma igualmente inédita, parou de repor a depreciação de ativos, o mínimo para manter a capacidade produtiva e gerar PIB. Na primeira metade da década passada, os investimentos já vinham reduzindo a parcela destinada à ampliação de capacidade, mas nos anos seguintes o País, em geral, desistiu de investir não só em expansão, mas também na substituição de ativos desgastados.

Entre 2016 e 2020, sendo 2019 a única exceção, os investimentos ficaram entre 2,6% e 5,9% abaixo do necessário para cobrir a depreciação dos ativos produtivos (veja os últimos dez anos da série na tabela abaixo). Quando se olha apenas para a situação das máquinas e equipamentos do País, o déficit de investimento variou entre 3,7% e 25,6% nesse período.

"Já estava bem claro que os investimentos estavam caindo, mas agora também sabemos que a capacidade produtiva diminuiu", comenta José Ronaldo de Souza Júnior, diretor da área de estudos de políticas macroeconômicas do Ipea.

Com a atividade prejudicada por restrições do combate à pandemia, o Brasil ainda tem margem para crescer mais do que o seu potencial pelos próximos dois anos apenas ao preencher a ociosidade da economia. Um ciclo de crescimento mais duradouro ou de retomada mais forte do que o esperado encontraria, no entanto, um limitador no enxugamento de capacidades.

Ao mesmo tempo em que diminuiu a capacidade de investimento público, o desequilíbrio fiscal minou, junto com a instabilidade política, a confiança do setor privado em realizar até mesmo os investimentos na substituição de ativos produtivos que perderam eficiência. O quadro difícil na economia também tornou menos interessante fazer a renovação de equipamentos adquiridos numa época em que os investimentos contavam com programas de juros subsidiados e partiam de uma perspectiva econômica melhor do que a atual.

"A instabilidade macroeconômica não permitiu que o setor privado ocupasse o vazio deixado pela retração dos investimentos públicos em infraestrutura", afirma Souza Júnior.

"O investimento privado depende de estabilidade macro e bom ambiente regulatório. Por mais que o obstáculo regulatório venha sendo tratado com a atualização de marcos em áreas como saneamento e gás, a pandemia gera instabilidade macroeconômica, incluindo o risco fiscal", acrescenta.

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