Marcos de Paula/Estadão
Marcos de Paula/Estadão

Brasil deve abandonar metas de inflação e adotar banda cambial flutuante, diz analista

Segundo a pesquisadora do Instituto Peterson de Economia Internacional, Monica Baumgarten de Bolle, com as grandes reservas internacionais do Brasil, essa estratégia pode comprar ao governo o tempo suficiente para formular um plano fiscal adequado

Álvaro Campos, O Estado de S. Paulo

01 de outubro de 2015 | 17h34

O Brasil deveria abandonar temporariamente o sistema de metas de inflação e adotar um regime de banda cambial flutuante (crawling band), segundo a pesquisadora do Instituto Peterson de Economia Internacional Monica Baumgarten de Bolle.

Em artigo divulgado no blog do instituto, ela afirma que o País vive uma situação de dominância fiscal e que nesse contexto é preciso abandonar temporariamente o sistema de metas de inflação e reinstituir um regime cambial de bandas flutuantes, que serviria por um período como uma âncora nominal, já que a política monetária se tornou ineficaz para combater a inflação.

"Com as grandes reservas internacionais do Brasil, essa estratégia pode comprar ao governo o tempo suficiente para formular um plano fiscal adequado, que aborde e elimine a dominância fiscal nos próximos dois anos", afirma Monica.

Segundo a economista, se o Brasil mantiver as políticas atuais, os modelos econômicos sugerem que o Banco Central precisaria elevar a Selic, já que as expectativas de inflação não se estabilizaram e estão longe do centro da meta, de 4,5%. "Entretanto, se o BC elevar os juros em 200 ou 300 pontos-base, a conta de juros e o déficit nominal sairiam de controle". Para ela, isso destruiria a sustentabilidade fiscal, produzindo novas turbulências nos mercados de câmbio.

Essa fragilidade do câmbio, por sua vez, mais do que ofuscaria os efeitos deflacionários da recessão, deixando o País na pior situação possível: uma forte contração da atividade com alta inflação. "O PIB brasileiro encolheu 3% no segundo trimestre de 2015, enquanto a inflação está rodando a 9,5%. Por todos os parâmetros, o País já está nessa situação", alega.

Ao mesmo tempo, tentar reduzir os juros no contexto atual só aumentaria a turbulência entre os investidores, levando a um retorno da estrutura macroeconômica disfuncional da década de 1980 e início dos anos 1990. "Um governo que criou a dominância fiscal não pode ser encarregado de resolvê-la com a adoção de políticas que prejudicariam ainda mais a reputação do BC", diz Monica.

Em último caso, se o abandono do sistema de metas de inflação e a adoção do regime cambial de bandas flutuantes falhar, a pesquisadora afirma que o Brasil poderia ser obrigado a recorrer a controles de capital. Para ela, o País ainda tem condições de evitar se transformar em uma Argentina, com uma combinação perversa de dominância fiscal, inflação elevada, fuga de investidores e controles de capital. "Esta janela, no entanto, está se fechando rapidamente".

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