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A Huawei tem mais de um terço da infraestrutura de redes de telefonia móvel no País Hannibal Hanschke/File Photo

Brasil deve manter Huawei no 5G

Polarização entre EUA e China não deve levar a Anatel a impedir participação da gigante chinesa na disputa pelo 5G no Brasil

Eduardo Rodrigues e Anne Warth, O Estado de S.Paulo

23 de setembro de 2019 | 05h00
Atualizado 24 de setembro de 2019 | 19h24

Um dos principais eventos econômicos previstos para 2020, o leilão do 5G no Brasil já é palco de disputa tecnológica entre Estados Unidos e China. Sob alegação de espionagem, roubo de dados e risco real de ataques a estruturas críticas por meio dos equipamentos chineses, o presidente Donald Trump tem feito pessoalmente lobby para que a chinesa Huawei seja excluída das principais disputas pelo 5G no mundo. Mas apesar dessa pressão, não deve haver nenhum tipo de barreira ao uso de equipamentos da gigante chinesa pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), órgão regulador do setor, apurou o ‘Estadão/Broadcast’.

A Huawei já tem mais de um terço da infraestrutura de redes de telefonia móvel no País, além de contratos com vários órgãos do governo federal. A companhia chinesa foi escolhida pela Anatel para realizar todos os testes do 5G no Brasil junto com as principais teles – Oi, Tim, Claro, Vivo e Algar – que devem disputar o leilão do próximo ano. Nesta terça-feira, 24, a Anatel divulgou nota para informar que outras empresas também participaram dos testes, além da chinesa. 

Trump levantou a questão na visita de Jair Bolsonaro à Casa Branca, em março deste ano. No fim de julho, foi o secretário de Comércio dos Estados Unidos, Wilbur Ross, que desembarcou no Brasil com supostas informações sobre a vunerabilidade dos equipamentos chineses. Recentemente demitido por Trump, o ex-conselheiro de Segurança Nacional dos EUA John Bolton se encontrou com autoridades brasileiras no começo de agosto.

A reportagem mapeou nove encontros entre representantes do governo americano com pares no Brasil desde junho. Foi quando o vice-presidente Hamilton Mourão disse que o governo brasileiro não tem intenção de restringir a presença da chinesa no leilão de 5G, logo depois de desembarcar da China, onde se encontrou com o presidente executivo da Huawei, Ren Zhengfei.

Os chineses, por sua vez, também se movimentam nos gabinetes de Brasília. Foram seis encontros com representantes brasileiros, segundo as agendas públicas de ministros e secretários dos ministérios de Ciência e Tecnologia, Economia, Itamaraty e Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República (GSI).

Preocupação com perda de liderança no 5G 

Por trás do discurso em defesa da segurança de dados, os EUA não escondem uma preocupação: a perda da liderança mundial no 5G. Um dos principais executivos da norte-americana Sprint, Marcelo Claure disse, ao defender a fusão da tele com a T-Mobile, que a companhia seria a única forma de os EUA vencerem a China na corrida tecnológica – a operação entre as teles acabou por não se concretizar.

A liderança norte-americana na tecnologia 4G é apontada como essencial para a criação e o desenvolvimento de um ecossistema de aplicativos, como Facebook, Netflix e Alphabet, por exemplo, que hoje estão entre as companhias mais valiosas do mundo. Nas tecnologias anteriores, 2G e 3G, o desenvolvimento foi realizado na Europa.

Japão, Nova Zelândia, Austrália, Reino Unido e os EUA baniram a Huawei da implantação da nova geração de redes de celulares nos seus territórios. Na França, a empresa foi proibida de instalar torres perto de prédios estratégicos do governo.

O edital brasileiro do 5G deve ser posto em consulta pública em outubro e, após as contribuições, a versão final precisa passar pelo crivo do TCU. O leilão deve ocorrer no início do segundo semestre de 2020. Procurado, o relator do leilão na Anatel, Vicente Aquino, disse que o edital ainda está em fase de estudos e informou que somente se pronunciará quando o documento for submetido à análise do Conselho Diretor da agência, em sessão pública.

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Oi desperta interesse de China Mobile e da AT&T

Tele em recuperação judicial se tornou mais atrativa com aprovação de marco das teles pelo Congresso Nacional

Eduardo Rodrigues e Anne Warth, O Estado de S.Paulo

23 de setembro de 2019 | 05h00

A disputa mundial entre EUA e China no 5G ganha um capítulo especial no Brasil. O Estado apurou que as gigantes China Mobile e a AT&T estariam monitorando de perto a situação da Oi, quarta maior tele brasileira, que está em recuperação judicial. As duas empresas negam publicamente o interesse.

A Oi ficou mais atrativa a potenciais compradores com a aprovação do novo marco das teles pelo Congresso. O texto, que ainda precisa ser sancionado pelo Planalto e regulamentado pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), livra a tele de uma série de custos e obrigações que eram vinculados às antigas concessões de telefonia fixa da empresa.

A AT&T vem se aproximando do governo brasileiro também por outra razão. A empresa, que comprou a Warner Media, dona de canais como HBO e CNN, e precisa da autorização de órgãos reguladores para que possa atuar no Brasil – uma lei impede que uma tele detenha mais de 30% de uma produtora de conteúdo. O deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) é o principal defensor da mudança legal. No fim de agosto, Bolsonaro recebeu o presidente da AT&T, Randall Stephenson, que teria prometido aumentar os investimentos da gigante americana no Brasil – sem, no entanto, detalhar seus planos.

As teles americanas e chinesas estão hoje fora do mercado brasileiro – liderado pela espanhola Telefônica Vivo, pela mexicana Claro e pela italiana TIM. Sob o ponto de vista empresarial, uma forma menos arriscada de entrar no mercado brasileiro seria justamente pela compra de uma empresa que já atua no País, como a Oi.

Mesmo fora do mercado de telecomunicações, a Huawei já atua há 20 anos como uma das principais fornecedoras das operadoras. Segundo dados da Anatel, a Huawei está presente em 35% da infraestrutura das redes de telefonia móvel de 2G, 3G e 4G do País, ficando atrás apenas da sueca Ericsson. Ou seja, toda conversa ou troca de dados por redes móveis do País hoje já passa por um equipamento da gigante chinesa.

A Huawei tem ampla atuação junto ao governo, que cresceu durante as gestões petistas. Equipamentos da companhia compõem as redes e datacenters do Banco Central, Receita Federal, Ministério da Economia, além de Câmara dos Deputados e até da Justiça Federal do Panará, onde estão armazenadas as investigações da Operação Lava Jato. O “supercomputador” do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) também foi uma doação da empresa.

O pesquisador associado ao think tank americano Center for Secure Free Society (SFC) Leonardo Coutinho elaborou um extenso estudo sobre a presença da Huawei no Brasil e considera ser um equívoco achar que a polarização entre Estados Unidos e China deva se refletir nos negócios brasileiros com as duas potências. "Não se trata de barrar um parceiro para negociar apenas com outro. Nesses meses que faltam até o leilão, o melhor para o Brasil seria adotar o caminho da maturidade institucional".

Ainda assim, Coutinho aponta que a capilaridade de companhias chinesas em setores estratégicos pode minar a capacidade do Brasil de se manter como um ator competitivo no cenário mundial. "É preciso saber tirar o melhor proveito das relações comerciais com a China, mas também é importante saber se resguardar e se proteger de possíveis problemas no longo prazo", avalia o pesquisador.

Investimento em São Paulo

Indiferente à polêmica em outras partes do mundo, o grupo chinês também anunciou recentemente – ao lado do governador de São Paulo, João Doria – investimentos de US$ 800 milhões em três anos para a construção de uma fábrica no Estado. O País seria a base da companhia para a fabricação dos equipamentos de 5G para outros países latino-americanos.

A reportagem procurou a Huawei, mas todos os porta-vozes da empresa no País estariam participando de um evento global, em Xangai. “A empresa já tem mais de 50 contratos fechados de 5G e já comercializou mais de 150 mil estações base ao redor do mundo. No Brasil, a Huawei coopera com as operadoras no sentido de preparar suas redes para, quando o leilão do 5G acontecer, seja possível implementar essa tecnologia de forma rápida, simples e eficiente”, disse a companhia em nota. 

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