Shawn Thew/ EFE
Shawn Thew/ EFE

Brasil deve manter ritmo fraco de crescimento até 2024, diz economista-chefe do FMI

Segundo Gita Gopinath, projeções não consideram que o País fará a reforma tributária nem terá avanço nos investimentos em infraestrutura

Ricardo Leopoldo, correspondente e enviado especial, O Estado de S.Paulo

16 de outubro de 2019 | 15h26

Washington - O Fundo Monetário Internacional (FMI) não considera que nos próximos anos o Brasil fará a reforma tributária, não terá avanço de investimentos em infraestrutura nem tampouco será viabilizada a abertura comercial proposta pelo governo. Tais fatores não estão contemplados nas previsões macroeconômicas do Fundo para o País, que estima que o PIB subirá 2,0% no próximo ano e manterá este ritmo até 2024, quando o crescimento deverá atingir 2,3%.

Essa avaliação foi feita pela economista-chefe do Fundo, Gita Gopinath, em entrevista exclusiva ao Estadão/Broadcast, durante as conferências promovidas pela instituição em Washington nesta semana.

"De fato, esses fatores não estão incluídos nas nossas projeções", destacou Gita. "É como fazemos para todos os países, não é somente para o Brasil. Temos que basear nossas projeções em políticas críveis e anúncios feitos e ainda não estamos nesse estágio." Para ela, tais mudanças estruturais serão muito úteis para o Brasil elevar seu potencial de crescimento para uma marca superior a 3% ao ano.

Leia os principais trechos da entrevista.

O FMI estima que o Brasil crescerá 2% em 2020 e 2,3% em 2024. É justo avaliar que com esse patamar estável de expansão, o País não fará a reforma fiscal nem abrirá a economia ou avançará em investimentos de infraestrutura, pontos manifestados pelo Fundo como essenciais para o aumento do potencial do PIB?

O baixo crescimento do Brasil está relacionado a dois fatores: o aperto fiscal que o País precisa fazer para diminuir o alto nível da dívida e as incertezas de políticas relacionadas a reformas. Do lado positivo, a reforma da Previdência registrou muito progresso, o que é bom, mas há várias reformas necessárias.

Outra questão para o Brasil veio do setor externo, relacionada a seus parceiros comerciais. A Argentina está em recessão e o crescimento da China está desacelerando. A situação fiscal ainda requer muito trabalho e serão necessárias reformas, como a relacionada à legislação do reajuste do salário mínimo, para colocar as contas públicas em uma trajetória mais sustentável.

Não observamos atualmente muito investimento no País por causa das incertezas dos últimos anos e não está ocorrendo expansão suficiente do estoque de capital. Por isso avaliamos a importância da reforma tributária para ajudar o ambiente de negócios. Também são relevantes gastos em infraestrutura pelo governo, para encorajar a ampliação do capital pelo setor privado. A produtividade também está relativamente fraca e, para avançar, são necessários investimentos em educação e infraestrutura. Quando realizamos projeções macroeconômicas precisamos baseá-las em premissas sobre anúncios que os países fizeram, sobre o que vão realizar e que são críveis. É claro que se mais reformas ocorrerem nesse período poderão ter impacto positivo sobre tais previsões.

O FMI não considera que ocorrerá a reforma tributária, nem aumento substancial de investimentos em infraestrutura ou a abertura da economia até 2024?

De fato, estes fatores não estão incluídos nas nossas projeções.

Por que o FMI faz essa avaliação?

É como fazemos para todos os países, não somente para o Brasil. Temos que basear nossas projeções em políticas críveis e anúncios feitos e ainda não estamos nesse estágio. E dado que o Brasil precisa lidar com questões importantes, inclusive na área fiscal, têm que ser avaliadas reformas e políticas críveis.

Essas mudanças estruturais na área fiscal são essenciais para que o Brasil tenha um patamar mais elevado de crescimento, acima de 3% ao ano?

Sim, acredito que serão extremamente úteis para isso. E se a demanda global avançar também ajudará.

A senhora acredita que a expansão global poderá ter uma colaboração das negociações entre EUA e China para resolver disputas comerciais?

Em nossas projeções para a economia mundial assumimos que serão implementadas as tarifas anunciadas pelos EUA em relação à China que passariam a valer em outubro e dezembro. Então, há uma possibilidade de melhora das perspectivas globais para 2020, dependendo do que ocorrer nesta área.

A senhora está otimista com essa possibilidade à luz do acordo "fase 1" firmado pelos EUA e China que foi anunciado na última sexta-feira?

É importante esperar os detalhes dessa "fase 1". Uma escalada das tensões comerciais ainda é um risco real para a perspectiva econômica mundial e não vou retirá-lo da mesa neste momento por múltiplas razões. Uma delas é que há uma possibilidade de que as tensões comerciais poderiam se estender à União Europeia, com tarifas sobre carros. Também há a possibilidade de que as disputas contemplem questões de tecnologia, não somente mercadorias.

Quais são os fatores que poderão levar o crescimento global para uma expansão acima dos 3,4% previstos para 2020 pelo FMI?

Penso que se conseguirmos a alta de 3,4% no próximo ano ficaremos muito felizes, pois hoje o crescimento global é precário. Essa previsão considera que não serão impostas mais tarifas nas disputas entre EUA e China, não ocorrerá escalada da tensão comercial e haverá recuperação de mercados emergentes, como Brasil, Índia e México.

Se os governos da Europa, especialmente o da Alemanha, não empregarem gastos públicos para expandir a economia de seus países, o que poderá ser feito pelo Banco Central Europeu, dado que a instituição tem limitados instrumentos monetários, pois os juros já estão bem baixos na região?

Temos a esperança de que esses governos farão mais para ajudar a economia mundial, mas nossas projeções são baseadas nas políticas anunciadas, inclusive na área fiscal. Por exemplo, para a Alemanha avaliamos que ocorrerá alguma expansão fiscal neste ano. Em 2020 a política fiscal será neutra e em 2021 e 2022 retomará novamente alguma expansão. É nosso papel dizer para os países que têm espaço fiscal, como a Alemanha e Holanda, que devem realizar gastos agora pela simples razão que precisam investir em projetos de infraestrutura, pois os financiamentos serão adotados com taxa de juro negativa e precisam elevar o potencial de crescimento.

O que ocorrerá com a Europa se estes países não ampliarem os gastos públicos?

Se os países não avançarem nos gastos, então o desempenho da Europa estará em harmonia com nossas previsões, que apontam que o crescimento continuará a desacelerar. A política monetária na zona do euro tem um espaço limitado atualmente. Se não houver o apoio do lado fiscal, há uma terceira vertente que poderia avançar, formada por reformas estruturais, entre elas viabilizar um mercado único de serviços e não apenas de mercadorias que podem ajudar a elevar a produtividade. A minha percepção é de que os países adotarão as medidas certas quando forem necessárias.

Quais fatores poderiam deflagrar uma recessão nos EUA em 2020?

A economia dos EUA está numa posição saudável, com projeção de crescimento de 2,4% neste ano e de 2,1% em 2020. A taxa de desemprego está em nível recorde de baixa, o consumo e o sentimento dos consumidores continuam bem. O setor de serviços mantém o bom desempenho. Para ocorrer uma recessão nos EUA, que não está em nosso cenário, seria preciso ocorrer um fator extremado, algo que levaria a economia global a uma forte desaceleração. Vamos avaliar o seguinte cenário: suponha que ocorreria uma escalada das tensões comerciais, que superaria as relações EUA-China e chegaria à Europa, que atingiria questões de tecnologia, os mercados de capitais. Então poderíamos ver as condições financeiras mundiais mudar muito rapidamente e poderiam afetar várias partes do mundo, inclusive países emergentes. Poderia haver correções nos mercados, com aperto de condições financeiras a empresas e poderiam surgir mais defaults corporativos. Esse seria o tipo de fenômeno que poderia levar a uma grave retração nos EUA.

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