Brasil deve participar de encontro do FMI com expectativa de avanço na Europa

País também espera progresso na reforma do sistema de cotas dos países membros do FMI e ratificação de sua posição ante políticas de afrouxamento quantitativo 

Ricardo Leopoldo, da Agência Estado,

28 de setembro de 2012 | 16h14

SÃO PAULO - O governo brasileiro vai para a próxima reunião do Fundo Monetário Internacional (FMI), que ocorrerá em Tóquio, de 9 a 14 de outubro, com algumas expectativas, das quais se destacam três, como relatou uma fonte oficial à Agência Estado:

1. Avanço do debate entre autoridades de países e organismos internacionais, como o próprio FMI, de que as nações com graves problemas econômicos na Europa precisam implementar ajustes estruturais das contas públicas. Por outro lado, deve ser mantida a pressão sobre a Alemanha para que flexibilize um pouco sua posição fiscalista em relação a seus vizinhos, entre eles a Espanha. Cresce a avaliação global de que o crescimento da economia é vital para reduzir tensões políticas e sociais internas das nações, e inclusive é fundamental para reduzir o tamanho da dívida pública ante o PIB. E uma redução desse passivo oficial ajuda a diminuir as dúvidas sobre a solvência soberana, o que tende a reduzir os juros de títulos públicos desses países e abre mais espaço para aumento de investimentos públicos, inclusive em infraestrutura.

2. Progresso na reforma do sistema de cotas dos países membros do FMI. Em função das eleições dos EUA, não se acredita que haverá uma decisão definitiva para a questão, que está sendo discutida há alguns anos. Mas a avaliação do Poder Executivo é que a questão deve realmente ter grandes progressos, que poderá viabilizar uma alteração da fórmula de participação dos países no começo do próximo ano, quando estiver funcionando o novo Congresso em Washington.

3. Ratificação da posição do Brasil ante a política de afrouxamento quantitativo (QE, na sigla em inglês) adotada por bancos centrais de economias avançadas, com destaque para o Federal Reserve (Fed) dos Estados Unidos. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, deve confirmar às autoridades de outros países a posição do governo de condenar a maior injeção de recursos no sistema financeiro internacional, o que eleva as chances de apreciação do real ante o dólar, na medida em que investidores globais terão mais recursos baratos à disposição para tentar realizar operações de arbitragem de juros. Essa posição já foi manifestada pela presidente Dilma Rousseff no discurso de abertura da Assembleia Geral da ONU, nesta semana. De Mantega, é possível esperar que deverá enfatizar que o governo não vai permitir a apreciação do real ante o dólar e vai tomar medidas para deixar o câmbio pelo menos no atual patamar ao redor de R$ 2,00, o que já ocorre há quatro meses.

De acordo com a fonte do governo, o debate macroeconômico internacional na reunião do FMI terá como um dos principais focos a busca de caminhos para a Europa sair da atual crise no médio prazo, que leva alguns dos países da região a enfrentar profunda recessão, como Espanha, Portugal e Grécia. "Há uma avaliação de que os países precisam agir para gerar mudanças estruturais em suas economias, com busca de melhor eficiência da gestão das contas públicas", comentou. Contudo, essa fonte destaca que o foro de discussões deve aumentar pressões sobre a Alemanha para que colabore mais para que esses países da zona do euro possam "respirar", com o emprego de medidas fiscais. E isso é imprescindível, dado que não os países da zona do euro não dispõe de instrumentos monetários, pois ela está centralizada no Banco Central Europeu. A taxa de juros básica da zona do euro está muito baixa, em 0,75% ao ano. Ou seja, a região na prática já está sendo vítima da armadilha da liquidez, quando o uso dos instrumentos monetários se tornam inócuos e o estímulo à economia deve vir basicamente de investimentos públicos.

No caso da renovação do sistema de cálculo de cotas, o Brasil pleiteia a tempos mudanças na fórmula de avaliação, com o apoio de outros países emergentes e dos EUA, que é o membro mais poderoso do Fundo Monetário Internacional. "Hoje, a representação dos países europeus está sobreavaliada de acordo com estes elementos e as mudanças econômicas do mundo nos últimos anos acentuaram a necessidade de maior equilíbrio da participação dos países dentro do FMI", comentou a fonte.

Entre os fatores que determinam hoje as cotas dos países no Fundo Monetário Internacional está o tamanho do PIB, medido a preços de mercado, e abertura comercial e financeira. "Seria mais justo que o PIB seja medido por Paridade de Poder de Compra, que elimina distorções contábeis provocadas por variações da taxa de câmbio", destacou a autoridade do governo brasileiro. Há também um outro indicador, conhecido como "variabilidade", que, em linhas gerais, analisa a flutuação dos fluxos de capitais externos dos países, o que ajudaria a sinalizar quais precisariam mais da ajuda do FMI. O Fundo surgiu do encontro de Bretton Woods em 1944 com o objetivo de apoiar financeiramente nações com problemas nos seus balanços de pagamentos. "No entanto, muitos estudos tem mostrado que este critério não é determinante para apurar a real necessidade dos países de recorrer à ajuda do Fundo Monetário Internacional", destacou a fonte.

Em relação às queixas do governo sobre a política de afrouxamento quantitativo dos EUA, há uma expectativa de que a compra de US$ 40 bilhões por mês pelo Fed de títulos lastreados em hipotecas, que só acabariam quando o desemprego baixar de forma expressiva, podem ter efeitos menos vigorosos sobre a liquidez global do que as duas edições anteriores da política de QE, que injetou na economia dos EUA um total de US$ 2,3 trilhões. Atualmente, há a expectativa de que a maior parte dos recursos liberados pelo Federal Reserve ficarão no mercado doméstico daquele país e ajudarão a demanda agregada a consolidar sua expansão, inclusive do setor imobiliário. "Mas uma parte desses recursos pode ser destinada aos mercados emergentes, inclusive para fins especulativos no mercado financeiro. E como o Brasil é um dos maiores deles, precisamos nos cuidar. Há o perigo real de um aumento mais substancial do ingresso de capitais no País pressionar o câmbio novamente para um patamar de valorização indesejado", apontou.

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