Brasil deve retomar reformas, diz OCDE

Para organização, esse é o caminho para o País reconquistar os investidores, mantendo a estabilidade macroeconômica já alcançada

FERNANDO NAKAGAWA , CORRESPONDENTE / LONDRES, O Estado de S.Paulo

26 de novembro de 2014 | 02h03

O Brasil tem um longo caminho para reatar a relação com os investidores. A opinião é do diretor de estudos da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), Álvaro Pereira. "O Brasil tem muito trabalho a fazer para se tornar um país mais amigo do investimento", disse em teleconferência com jornalistas latino-americanos. O caminho para essa reconquista passa necessariamente pela execução de reformas estruturais, sugere.

Pereira argumentou que o Brasil precisa retomar o roteiro adotado há duas décadas. "Nos anos 1990, o País executou reformas muito importantes para obter a estabilidade macroeconômica. Nos últimos 15 ou 20 anos, isso foi muito importante para o Brasil atrair investimentos." O esforço reformista, porém, foi praticamente interrompido e o esforço do governo passou a ser direcionado às políticas sociais. Para a OCDE, é hora de voltar o foco para as reformas.

"Pensamos que nos últimos anos tivemos passos importantes para lutar contra a desigualdade. Agora, é muito importante que o governo pense que os próximos anos sejam dedicados às reformas estruturais", disse Pereira. "O Brasil deve executar reformas para aumentar o investimento. É muito importante que o País tenha mais recursos, especialmente em infraestrutura. Também é preciso ter um clima melhor de negócios e a melhora do sistema de impostos, principalmente os indiretos."

O diretor da OCDE disse que a agenda de reformas não é exclusividade do Brasil e que outros países da América Latina também têm igual necessidade.

Curto prazo. A necessidade de ação de Brasília, porém, não se limita às reformas que têm efeito no longo prazo. Também há problemas mais imediatos. "No curto prazo, creio que vai ser importante que a nova equipe econômica continue com a estabilidade macroeconômica que o Brasil alcançou nos últimos anos", disse o economista da OCDE para o Brasil, Jens Arnold. "O País fez muito esforço e obteve muitas conquistas. É importante que os agentes de mercado continuem com a percepção de que a estabilidade macroeconômica é inquestionável no Brasil."

Para o economista que analisa o Brasil na OCDE, a atual situação macro mostra que "as variáveis de política fiscal e inflação talvez sejam as que exigirão mais atenção" da nova equipe econômica nos próximos anos.

Petrobrás. O escândalo de corrupção na Petrobrás e nas principais empreiteiras do Brasil atravessa fronteiras e preocupa a OCDE. Para a entidade, o governo brasileiro reconhece sofrer com problemas de infraestrutura e tem atuado para tentar melhorar a situação. Mas escândalos como o da petroleira podem atrapalhar os planos de Brasília, diz a OCDE.

Durante a teleconferência com jornalistas latino-americanos, Jens Arnold reforçou o discurso de que o País precisa aumentar a taxa de investimento na economia.

"O Brasil reconhece que há falta de infraestrutura há muito tempo. Por isso, lançaram a versão 1 e 2 do Programa de Aceleração do Crescimento. Há boa vontade em aumentar investimentos, mas parece haver problemas na implementação e isso pode ter a ver com a capacidade local para implementar esses planos ambiciosos de investimento", disse Arnold.

Questionado especificamente sobre o caso de corrupção na Petrobrás e o efeito sobre a confiança do investidor interessado em infraestrutura no País, Arnold disse esperar que a situação seja resolvida para que ações como o PAC possam ser executadas. "É importante que esse tipo de problema se resolva para que o Brasil possa ter melhor infraestrutura."

Quanto às perspectivas de crescimento da economia brasileira, a OCDE manteve as principais previsões. De acordo com a atualização do cenário econômico divulgado ontem em Paris, após ligeiro período de recessão, o Brasil volta a crescer e deverá terminar o ano com expansão do Produto Interno Bruto (PIB) de 0,3%. A previsão é a mesma apresentada pela entidade na revisão preliminar divulgada em setembro. Em maio, a previsão era de 1,8%.

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