Brasil e Bolívia fecham acordo para subir preço do gás

Em uma guinada na posição assumida pelo governo brasileiro desde maio do ano passado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deverá anunciar na manhã de quinta-feira, 15, ao lado do presidente Evo Morales, da Bolívia, o aumento do preço do gás natural boliviano exportado para a Petrobras. O recuo brasileiro foi resultado de uma negociação que se estendeu das 11 horas até as 21h45 da noite desta quarta e foi encabeçada pelo próprio Evo. O líder boliviano conseguiu converter sua visita de Estado ao Brasil numa plataforma para pressionar o governo Lula a aceitar uma solução política para o problema. Fontes do governo informaram o Estado sobre essa decisão nesta quarta à noite, minutos antes do adiamento da cerimônia de assinatura dos acordos entre os dois governos e do pronunciamento de Lula e Evo, transferidos para as 9 horas de quinta-feira. Evo Morales, que pretendia voltar nesta quarta mesmo para La Paz, teve de dormir em um hotel de Brasília. Inicialmente, essa cerimônia estava prevista para as 13 horas deesta quarta. As mesmas fontes destacaram que o governo brasileiro aceitou elevar o nível atual do preço do gás natural importado da Bolívia pela Petrobras, hoje em US$ 4,3 por milhão de BTUs (unidade britânica usada para medir o volume de gás). Mas se esquivaram de informar qual será o novo valor aplicado. A Bolívia vinha insistindo para que chegasse a US$ 5, à semelhança do contrato com a Argentina, de outubro de 2006. A Petrobras e o Ministério de Minas e Energia, entretanto, acentuaram que não haverá mudança na fórmula de reajuste dos preços, que prevê variações trimestrais, com base na evolução dos valores de uma cesta de óleos e lubrificantes no mercado internacional. ?Conseguimos encontrar uma fórmula técnica que respeita os acordos. O contrato não será alterado?, disse o assessor da Presidência para Assuntos Internacionais, Marco Aurélio Garcia, no fim da noite. ?Os acordos atendem perfeitamente os interesses dos dois lados. Ambos estão satisfeitos. Fizemos um acordo com substância política econômica e que tem de se traduzir em acordo jurídico. O assunto está encerrado.? A quebra da resistência do governo brasileiro, mantida nos últimos nove meses, foi uma vitória de Evo Morales. Com o aumento do preço dos 26 milhões de BTUs diários importados pela Petrobrás da Bolívia, o Brasil vai se manter em desalinho com o movimento do mercado mundial de gás, que tem assinalado quedas nesses preços.Além disso, dará a Evo a ferramenta política que necessita para consolidar sua popularidade, uma vez que essa briga se tornou a sua principal meta nas relações com o Brasil. Por fim, selará a política de generosidade do presidente Lula com a vizinhança sul-americana. Segundo Garcia, os acordos que serão assinados hoje não devem ser vistos como ?prêmios de consolação? e serão um passo importante nas relações bilaterais.Até as 17 horas desta quarta, o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, indicava que a negociação sobre o preço do gás importado pela Petrobras continuaria na órbita ?técnica e empresarial?. Informava ainda que o próprio presidente Lula preferira tratar com Morales uma agenda mais ampla. A perspectiva era de que Evo deixaria o Brasil apenas com o reajuste do preço do gás fornecido pela Andina para a TermoCuiabá, resultado do contrato entre as duas companhias privadas.

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