''Brasil é dos países mais dinâmicos, mas corre risco político''

Coautor de best-seller sobre a história de crises financeiras, economista acredita que o Brasil poderá crescer até 7% ao ano se a carga tributária for mantida sob controle

Entrevista com

Fernando Dantas, RIO, O Estadao de S.Paulo

21 de março de 2010 | 00h00

A "ignorância e a arrogância" explicam por que, a cada nova bolha financeira e econômica, os beneficiários recusam-se a reconhecer que se trata de uma bolha - mesmo que centenas de casos parecidíssimos tenham se repetido regularmente ao longo da história.

A observação é do economista americano Kenneth Rogoff, reconhecido hoje como uma das maiores autoridades mundiais em crises financeiras. Ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI), ele escreveu com a economista Carmen Reinhart o livro (que está sendo lançado no Brasil pela Editora Campus/Elsevier) Oito Séculos de Delírios Financeiros/Desta Vez é Diferente - um trabalho hercúleo de levantamento de dados, interpretação e análise, cobrindo, como está no título, 800 anos de crises em 66 países.

O livro não só se tornou uma referência entre os mais prestigiados economistas do mundo, como caiu no gosto popular e virou best-seller, com tradução em 14 línguas, e caminhando para vender 100 mil cópias no primeiro ano.

Rogoff acha que o Brasil é hoje "uma das economias mais dinâmicas do mundo, e dos melhores lugares para se investir". Mas se preocupa com o "risco político", e nota que o País parou com as reformas econômicas e amplia cada vez mais as transferências sociais, o que considera prejudicial ao crescimento.

Rogoff passou rapidamente no Rio na semana passada, e conversou com o Estado.

Como o sr. sintetiza a mensagem do livro?

O que é muito impressionante no livro, um soco no estômago, é o quão universal é o fenômeno das crises financeiras, atingindo países pobres e ricos, incluindo Europa e Estados Unidos. E, ao mesmo tempo, o fato de que as pessoas esquecem que elas aconteceram com tamanha regularidade. Numa das nossas tabelas, por exemplo, mostramos que a Grécia, que agora está encrencada, esteve em default da sua dívida em metade dos anos desde a sua independência em 1829. No caso do Brasil, foi um quarto dos anos desde a independência. Mas mesmo a Áustria, que hoje é rica, tem um histórico muito ruim também.

Por que esse impressionante histórico global de crises era pouco percebido?

Bem, a gente nem chega perto de responder todas as perguntas, mas, em última instância, atribuímos esse comportamento em relação às crises à arrogância e à ignorância. Na maior parte dos países - e o Brasil é uma exceção, neste caso - as pessoas são absurdamente ignorantes do fato de que seus países tiveram problemas. E, mesmo quando conhecem um pouco, acham que não vai acontecer de novo. Essa é a razão do título "Desta vez é diferente", uma referência a essa arrogância que vimos se manifestar não só no que ouvimos, mas também no que lemos, repetidamente, na história das crises. As pessoas viam uma bolha e diziam "não é uma bolha, o nosso é um grande país".

O que a experiência histórica nos diz sobre a recuperação dos Estados Unidos e da Europa nesta crise?

Uma das lições do livro é que, se você olhar para as profundas crises do passado, raramente os países saem delas do jeito que saem de recessões normais. Em toda recessões americanas do pós-Guerra, depois de o PIB cair 4%, ele sobe 8% em alguns trimestres. Numa crise financeira, a recuperação é mais lenta, o desemprego demora a recuar, o mercado residencial demora a retomar. Até agora, esta recuperação tem seguido esse padrão.

Qual a sua visão sobre os mercados emergentes no pós-crise?

Acho que houve uma aceleração de uma tendência de longo prazo, pela qual mercados emergentes como Brasil e China estão ganhando importância. Como Europa e Estados Unidos estão indo devagar, aquele processo foi acelerado.

O sr. parece bastante otimista em relação ao Brasil.

O Brasil está com muita bala na agulha neste momento, e é uma das economias mais dinâmicas do mundo. O baixo crescimento americano e europeu vai segurar o crescimento de outros países um pouco, mas há muito dinamismo positivo vindo dos mercados emergentes, da transferência de tecnologia, da liberalização que aconteceu no passado, do crescimento do comércio internacional. O Brasil passou por uma prova de fogo com a crise e se saiu melhor do que o esperado. Além disso, os preços das commodities estão bons. E tem a questão sobre quais são os melhores lugares do mundo para investir, e você chega ao Brasil bem rapidamente quando sai procurando. É claro que o capital estrangeiro quer vir para aqui.

Quanto o Brasil pode crescer?

Acho que o Brasil vai crescer de 6% a 7% este ano, e pode manter esse ritmo por uma década, se a carga tributária for mantida sob controle, se as transferências sociais forem mantidas sob controle, e se houver qualquer tipo de momento positivo para as reformas. Nesse caso, o potencial de crescimento do Brasil é enorme.

Mas o sr. acha que o Brasil fará isso?

O maior risco para o Brasil, como de costume, é o político. É o risco de que, em vez de continuar a melhorar a governança, o sistema político foque em transferências e outras medidas de curto prazo para impulsionar a popularidade do governo. Aí o crescimento poderia murchar um pouco. Ainda seria um crescimento decente, mas preocupa que a dinâmica política dos últimos anos tenha sido na direção de maiores transferências e muito pouca reforma. Porque o Brasil precisa de um ritmo de crescimento, sem alta inflação, que proporcione velocidade de decolagem para resolver, de uma vez por todas, o problema de excesso de pobreza e desigualdade.

Como o sr. avalia o gerenciamento da crise pelo presidente Obama?

Dou altas notas ao que o Fed (Federal Reserve, banco central americano) fez. E considero a política fiscal ok, mas acho também que o estímulo deveria ser reduzido gradualmente, e não penso que ajudou tanto assim. Onde realmente tenho uma discordância - e é um ponto que muitos comentaristas acham maravilhoso - é no saneamento dos bancos. Essencialmente, eles garantiram tudo, nacionalizaram os passivos de todo o sistema bancário. Acho que isso será visto como um erro histórico. Eles exageraram.

Por quê?

Foi melhor do que não fazer nada, mas deveriam ter encontrado alguma maneira de fazer com que os detentores de títulos (emitidos pelos bancos) perdessem dinheiro, e achado uma maneira de essencialmente se apropriar de uma grande parte das ações dos bancos. Nós nacionalizamos os passivos, mas não os ativos. O Goldman Sachs está se pagando bônus recordes, um ano depois de, para efeitos práticos, ter se tornado uma empresa governamental. Ele recebeu dinheiro com juros zero e teve permissão para especular com isso, e está lucrando.

E quais as consequências?

Em primeiro lugar, nos coloca numa posição terrível em termos de regulação, porque o problema do dano moral ("moral hazard") saiu completamente fora de controle. Não sei como vamos resolver. Acho que, em cinco a dez anos, a história vai olhar de forma nada benévola para o que foi feito.

Há outros problemas do sistema bancário americano hoje?

Minha grande preocupação é a enorme dívida de curto prazo no sistema financeiro. A maioria das crises financeiras ao longo da história deriva do fato de o endividamento ser alto, mas também de que seja de curto prazo. Pode ser do governo, dos bancos, de empresas hipotecárias, se há uma grande dívida que tem de ser rolada constantemente, está armado o cenário da crise.

E a remuneração dos executivos?

Acho insano que não tenhamos, nos Estados Unidos, feito uma taxação de 50% dos bônus no ano passado, como fizeram a França e a Grã-Bretanha. No ano passado, eles eram todos empregados do governo, seja lá o que digam. E você tem que ter alguma coisa de volta.

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