Brasil e Índia criticam novas propostas da Rodada de Doha

A Índia e o Brasil criticaram naterça-feira dois novos conjuntos de propostas discutidas naRodada de Doha de negociações comerciais globais, sinalizandoque ainda existem divisões entre países ricos e pobres, apesardos recentes progressos. Os dois grandes países em desenvolvimento disseram que aspropostas da União Européia e dos Estados Unidos para aliberalização do comércio de bens ambientais são uma tentativadisfarçada de melhorar o mercado para produtos de países ricos. Afirmaram também que o texto-base a respeito de "regras"--sobre antidumping, subsídios e pesca-- foi um passo atrás,por fazer concessões demais aos EUA. A Índia, em particular, manifestou preocupação com aexcessiva ênfase da negociação agrícola às necessidades dospaíses ricos, ignorando a agricultura de subsistência, queocupa milhões de indianos. O embaixador indiano na Organização Mundial do Comércio(OMC), Ujal Singh Bhatia, disse que seu país continuacomprometido com a Rodada de Doha, iniciada há seis meses. "Mas, que Deus nos livre, se chegar a hora em que o preçoda participação seja impagável da nossa parte, então teremos denos levantar e dizer isso", afirmou ele à Reuters. Na sexta-feira, Estados Unidos e União Européia propuseram,em nome do combate às mudanças climáticas, a eliminação detarifas no comércio de 43 bens "ambientalmente corretos", alémda criação de um acordo geral sobre bens e serviços ambientaispara países desenvolvidos ou de médio desenvolvimento. "Não achamos que isso seja uma base para a negociação deprodutos ambientais", disse o negociador brasileiro, RobertoAzevedo. "O Brasil está profundamente desapontado com aproposta. Nós a consideramos modesta, distorcida eprotecionista", disse ele a jornalistas. Azevedo lembrou que a proposta euro-americana não fazmenção aos biocombustíveis ou às tecnologias para produzi-las--o que seria positivo para o setor brasileiro do etanol. "Qualquer coisa que eles não produzam não está na lista",afirmou. Segundo Bhatia, a Índia estaria disposta a apoiar aliberalização comercial de produtos cujo fim exclusivo seja ocombate ao aquecimento global, como painéis solares e moinhosde vento, mas que seria inaceitável que ao longo do tempo alista fosse ampliada para incluir modelos de carros ougeladeiras de maior eficiência energética. "A lista é um esforço disfarçado para obter acesso amercados por meio de outros meios, e não satisfaz o mandatopara o meio ambiente", afirmou. Brasil e Índia também criticaram as propostas queautorizariam um polêmico método de cálculo de impostosantidumping, atendendo a pedidos dos EUA. Para os dois países,poderia haver abuso de benefícios comerciais para estimular oprotecionismo. Os EUA também se disseram frustrados com as propostas desexta-feira, mas afirmaram que elas serviriam de base para umanegociação. Bhatia disse que o fim dos subsídios pesqueiros, algoelogiado por ambientalistas, criaria dificuldades para que aÍndia conseguisse melhorar as condições de vida de seuspescadores, que estão entre as categorias mais pobres do país. As propostas mantêm algumas brechas para o estimulo aospescadores de países pobres, mas o diplomata afirmou que asopções são onerosas demais. ADOLESCENTES NO VOLANTE Em Washington, a representante comercial dos EstadosUnidos, Susan Schwab, afirmou nesta terça-feira que Brasil eÍndia deveriam ter mais responsabilidade e contribuir comofertas nas negociações. Ao comentar a posição do Brasil e de Índia, que liderampaíses em desenvolvimento nas negociações de Doha, Schwabafirmou que os dois se comportam como motoristas adolescentesque acabaram de tirar a sua carteira de motorista. "Eles estão descobrindo que, com isso, vem aresponsabilidade e vem obrigações. E às vezes é duro estar nagrande mesa em uma pequena sala, onde você também esperacontribuições em vez de apenas solicitações." Brasil e Índia querem que os EUA e a União Européia reduzamseus subsídios e tarifas agrícolas, o que tornaria seusprodutos mais competitivos. Mas os dois países emdesenvolvimento resistem às exigências dos ricos para abrirseus próprios mercados, especialmente o de manufaturados

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