Paulo Liebert/Estadão
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Brasil é líder no mundo em casos de assédio telefônico

De acordo com o serviço de bloqueio de chamadas Truecaller, no País a média mensal dessas ligações mais do que dobrou nos últimos dois anos, de 21 para quase 46

Terrence McCoy, The Washington Post

05 de dezembro de 2019 | 09h00

RIO DE JANEIRO - O telefone não para de tocar. Começa às 10 da manhã e vai até as 8 da noite pelo menos dez vezes durante o dia, sempre com alguém procurando uma pessoa, chamada “Dona Najir”. “O problema é que “não sou Dona Najir”, disse Leticia Pusti, 27 anos. “Não é o meu nome.”

Ela já implorou para os bancos deixarem de telefonar. Gritou. Fez queixas. Mencionou o fato na mídia social e chegou até a mudar seu nome no Twitter  para “Dona Najir, para os bancos”. Mas as ligações para uma pessoa que Leticia não conhece continuam chegando.

Dona Najir se tornou sua baleia branca. Está em algum lugar, sem ser vista, mas sempre presente, acumulando contas e aparentemente precisando de um empréstimo rápido a juros razoáveis. “Ajudem-me”, disse Leticia. “Parem de me ligar!”.

O aspecto mais extraordinário dessa história é que não é um caso extremo, mas muito comum. Enquanto outros países aprovam leis para limitar spans e scans, e ligações automáticas, o Brasil se tornou a nação mais telefonicamente assediada do mundo. De acordo com o serviço de bloqueio de chamadas Truecaller, que analisa 60 bilhões de chamadas telefônicas feitas mensalmente, no Brasil a média mensal dessas ligações mais do que dobrou nos últimos dois anos, de 21 para quase 46.

A título de comparação, a Itália, que foi tão perturbada por spams via telefone a ponto de muitos call-centers os proibirem aos domingos e feriados nacionais, recebe um quarto desse número de ligações. E nos Estados Unidos, onde chamadas indesejadas são uma fonte constante de irritação, tendo provocado mesmo investigações pelo Congresso e novas leis, recebe metade das chamadas contabilizadas no Brasil.

“É um absurdo”, lamenta Patrícia Cardoso, que dirige um grupo de defesa do consumidor ligado à defensoria pública do Rio de Janeiro. “Nem todos os países enfrentam isto”.

No início, os especialistas achavam que o problema era provocado pelas empresas de telefonia oferecendo planos de dados concorrentes. Mas então veio a eleição presidencial de 2018 e a teoria de que as ligações eram políticas. Agora o problema parece ter se alastrado, englobando artistas, funcionários de bancos, serviços de telemarketing, aparelhos, e até detentos nas prisões com celulares contrabandeados, qualquer pessoa. E quem tem um celular é molestado.

Outras vezes fica até mais difícil para as pessoas decifrarem o enigma. Não há ninguém do outro lado da linha. Apenas silêncio. E depois um clique.

Juliana Lopes, de São Paulo, diz que recebe mais de uma dezena dessas ligações diariamente. “Não entendo o que vem acontecendo. Por que telefonam e depois desligam?”

Como a situação chegou a esse ponto é um caso objeto de estudo sobre os efeitos globais da coleta e compartilhamento de dados. Numa sociedade perenemente burocrática, os brasileiros se defrontam com uma “infinidade de registros”. Mesmo na compra de produtos do dia a dia, como pasta de dente na farmácia, o atendente pede dados fiscais, o CPF, das pessoas. Todos esses dados são vendidos e revendidos, vazados ou roubados, e o telefone começa a tocar.

Isso se verifica em muitos países. Mas o que torna o Brasil diferente é que o telemarketing continua basicamente sem regulamentação. “É difícil saber de onde vem a ligação. A situação está totalmente fora de controle”, disse Patrícia Leonel.

Num país tão diverso como o Brasil, onde a política é uma guerra ideológica, as pessoas quase nunca concordam em alguma coisa. Mas todos estão de acordo com relação a esse problema.

Lista 'Não Pertutbe'

O governo este ano lançou a lista “Não Perturbe e 1,5 milhão de pessoas se inscreveram na primeira semana. Pesquisas mostram que as pessoas no geral não fazem queixas oficiais de telefonemas considerados spam. Muitos sofrem em silêncio - mas 90.000 pessoas registraram queixa nos primeiros seis meses deste ano.

“Os serviços de telemarketing continuam a me molestar, procurando por Lélio, meu pai, que faleceu há mais de três meses”, disse uma pessoa. “São 30 vezes por dia em média”, disse uma outra.

Um número cada vez maior de pessoas está entrando na Justiça. Uma processou uma empresa telefônica por estar sendo chamado 20 vezes por dia e ganhou uma indenização de quase US$ 10 mil

Outra impetrou ação judicial quando uma companhia telefônica continuou a telefonar depois de um acordo escrito de que pararia. Em um tribunal no Espírito Santo, mais de 500 pessoas entraram com processos contra essas chamadas telefônicas incessantes e ganharam.

O que sucedeu com Fernando Lopes foi ainda pior do que a série de ligações molestas. “Era um sábado, eu estava na cozinha e me ligaram; a voz era parecida com a da minha filha dizendo que ‘algo terrível aconteceu’”, disse ele. "Falou que havia sido sequestrada e estava chorando. Então outra voz veio ao telefone e exigiu um resgate de US$ 12.500”.

Ele prometeu pagar o resgate e tentou falar de novo com a filha. Não houve resposta. Ao sair de casa para ir ao banco, viu a filha: ela estava o tempo todo no quarto. A ligação faz parte de ligações falsas de sequestros. “Eu teria transferido o dinheiro”, disse Lopes. “Você diria que a voz ao telefone era da minha filha.” Nesse intervalo ele recebeu mais duas ligações similares.

O que pode ser feito. Como parar com essas chamadas?

São perguntas que Leticia tem feito com frequência. Mas também, quem é Dona Najir? O que ela diria se tivesse a chance de falar com seu alter ego? Ela diria: “Por favor, liquide suas dívidas, pague suas contas”.

Seu pai sobreviveu a um ataque cardíaco em 2013. Agora, toda vez que recebe um telefonem em sua casa no Rio Grande do Sul, Leticia acha que pode ser uma ligação importante. Seu telefone tocou. Era do Rio Grande do Sul. Ela olhou na tela, havia 506 mensagens de texto não abertas. “90% são spam”, disse.

Mas respondeu à chamada: “Alô”, disse. Desta vez, somente silêncio. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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