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''Brasil é o mais irresistível dos Brics''

James Quigley: presidente do Bank of America Merrill Lynch na América Latina; em visita ao País, ele diz que oportunidades estão espalhadas em vários setores, não apenas na área de commodities

Entrevista com

Leandro Modé, O Estadao de S.Paulo

17 de agosto de 2009 | 00h00

Quando o Lehman Brothers quebrou, provocando o maior terremoto do sistema financeiro mundial desde os anos 30, muitos analistas decretaram o fim dos bancos de investimento. Essas instituições, em vez de atenderem ao cidadão comum, são especialistas em intermediar grandes operações, como fusões e aquisições, ou cuidar da fortuna de investidores endinheirados. Para os críticos, havia duas saídas para esses bancos: ou iriam à falência, como o próprio Lehman Brothers, ou seriam absorvidos pelos gigantes do varejo. Foi o que aconteceu com o Merrill Lynch, vendido para o Bank of America (maior banco dos EUA hoje) no mesmo dia em que o Lehman sucumbiu. Na América Latina, a empresa comprada assumiu o comando da instituição resultante da fusão. "O Bank of America não tinha uma estratégia bem definida para a América Latina. Em compensação, o Merrill Lynch tinha um negócio amplo, diversificado", explica o presidente do Bank of America Merrill Lynch na região, James Quigley. Com 27 anos de experiência, ele não tem dúvidas: "O Brasil é hoje o mais irresistível entre todos os mercados emergentes do mundo", disse ao Estado.Quigley tem feito uma série de visitas rápidas ao País, com objetivo de entrevistar candidatos para vagas que o banco está abrindo aqui. "Temos de ser disciplinados. Contratar muita gente rapidamente pode fazer com que não consigamos trazer os melhores." Por que o mundo tem essa visão hoje sobre o Brasil?Sempre é conveniente para homens de negócio como eu virem ao Brasil, encontrarmos jornalistas brasileiros e dizer apenas boas coisas sobre o País. Mas o fato é que o Brasil não é apenas o principal responsável pelo nosso crescimento na América Latina e nossa maior oportunidade na região. Eu diria que o Brasil é hoje o mais irresistível entre todos os mercados emergentes do mundo, considerando os outros Brics (Índia, Rússia e China) e países como Turquia e África do Sul. As razões são várias. O Brasil tem uma grande população jovem e diversificada, sistema bancário que funciona bem, instituições críveis (que gerenciaram a crise de forma hábil) e é um exportador diversificado - não é visto só como vendedor de commodities. Os negócios em que temos trabalhado não são só na área de commodities. O segmento de consumo é mais atrativo do que o de commodities. Há vários eventos que trouxeram excitação sobre o País. Em qualquer lugar que vou, uma conversa sobre a América Latina se volta para o Brasil. O Brasil está se transformando em destino preferencial do capital. Em que áreas de negócio vocês veem as maiores oportunidades?Em todas. Um dos pontos altos é o fato de ser um país diversificado. Nossas áreas ligadas a commodities, câmbio e ações são muito fortes, bem como o banco de investimentos, o corporate banking e o segmento de empréstimos comerciais. Para se tornar um competidor ainda mais forte, precisamos ser capazes de oferecer um portfólio de produtos mais amplo: financiamento de comércio exterior, gestão de caixa, financiamento da cadeia de suprimentos, etc. Em todas essas áreas, o Bank of America tem conhecimento global. Então, na América Latina, as sinergias possíveis entre as duas companhias pode provar que um mais um é igual a três. Quando se olha o Brasil, é impossível não pensar no crescimento do mercado imobiliário e na consequente necessidade de hipotecas. As perspectivas de consumo são grandes, portanto, o negócio de cartão de crédito é promissor não só no Brasil, mas na América Latina. Todas essas são oportunidades de longo prazo. Devemos ser disciplinados. Se quisermos fazer tudo muito rapidamente, pode dar errado. Contratar muita gente rapidamente pode fazer com que não consigamos trazer os melhores profissionais. As eleições do ano que vem preocupam o investidor?Eleições sempre preocupam. Neste caso, tudo o que se deve fazer é voltar duas eleições atrás, quando Lula foi eleito pela primeira vez. O dólar disparou, os títulos da dívida despencaram, mas, no fim, o que prevaleceu foi a democracia, foi o fato de que as instituições funcionam muito bem no Brasil. Lula acabou demonstrando ser capaz de fazer o País mover-se para frente. O medo se converteu em aplauso. Não acho que haja grandes temores sobre a eleição de 2010. Hoje a percepção dos investidores é positiva sobre a América Latina. Mas, no auge da crise, moedas da região, como o real, estiveram entre as que mais se desvalorizaram. O que houve?Se voltarmos 20, 30, 40 anos no tempo, em todas as crises os mercados emergentes tiveram má performance. Desta vez, a crise atingiu todos os países. Foi aos poucos que as pessoas se deram conta de que muitos tinham feito sua lição de casa e, portanto, o Brasil não estava sujeito aos problemas do passado. Isso não significa que não seria atingido. Mas, se pensássemos em sete anos atrás, o efeito seria muito pior. As pessoas reconhecem que, se o País tiver uma crise, será por fatores exógenos. Essa retomada dos mercados é sustentável?Eu preferiria, nos próximos anos, ter na carteira ações de grandes companhias do que bônus governamentais de longo prazo. A política dos governos - de despejar trilhões de dólares na economia e a atuação dos bancos centrais para evitar uma crise pior - é inflacionária no longo prazo. Provavelmente, esses riscos não vão se concretizar em 2010, mas em 2011. Inflação é bom para ativos reais, como ações e commodities. Nesse aspecto, o Brasil está numa ótima posição. Qual a visão de vocês sobre a crise? O pior ficou mesmo para trás?Não falo sobre o Bank of America Merrill Lynch, mas por mim mesmo. Acho que o pior está atrás de nós. O Bank of America alterou há algumas semanas a projeção de crescimento em 2010 dos Estados Unidos de 1,8% para 2,6%. Os estoques nos EUA já estão em nível relativamente baixo, a taxa de poupança subiu. Uma coisa que as pessoas sempre subestimaram é a flexibilidade e a agilidade de a economia americana se ajustar mais rapidamente do que a maioria das economias do mundo. Não é uma economia rígida. Não sou preparado o suficiente para dizer que o mercado acionário continuará na tendência de alta. Pode ser até que vejamos alguma correção. Mas, olhando a longo prazo, não acho que os EUA sejam um problema. Alguns críticos dizem que há excesso de liquidez nos mercados e isso pode provocar novas bolhas. No início de 2007, não encontrávamos um único cliente que não achasse que o mundo continuaria a ser bem sucedido. A maioria dizia: "Jim, há um excesso de liquidez no mundo. É preciso continuar investindo." Em um curtíssimo prazo, fomos de uma enorme liquidez para zero. Hoje, há liquidez. Mas sempre há. Eu acho que a questão a se perguntar não é quanta liquidez há, mas como mobilizá-la de forma eficiente. Durante a crise, a liquidez não foi alocada. Todos colocaram o dinheiro em títulos americanos, praticamente sem remuneração. A mobilização eficiente da liquidez é função da confiança. A confiança está voltando e, à medida que aumente, a alocação da liquidez será cada vez mais bem feita. Há muito capital entrando no Brasil, o que valoriza o real. Como lidar com o risco desse movimento?Ter uma moeda forte será bom para o Brasil, porque forçará as empresas a ter disciplina, a gerir seus negócios de forma consistente com o aumento da produtividade. Se um país tem moeda fraca, dá à indústria uma desculpa conveniente para não ter foco no aumento da produtividade. Ter uma moeda forte no longo prazo vai ajudar o País. É claro que, no curto prazo, há toda a questão política, os editoriais que tratarão do enfraquecimento da indústria, etc. Mas será só no curto prazo. O real forte deixará a indústria brasileira muito mais produtiva. Isso ajudou os EUA nos anos 90. Alguns governantes de países latino-americanos são considerados populistas. Como isso influencia a visão geral sobre a região?Eu acho que a América Latina vai seguir o exemplo bem sucedido do Brasil. A Merrill Lynch liderou a entrada da Petrobrás no mercado de capitais. Naquela época, gastamos o mesmo tempo para preparar a operação e para reuniões com os sindicatos, para deixar claro que era algo de interesse do País. No México, não houve isso com a Pemex. São Paulo emergiu como a capital financeira da América Latina. Na Argentina, nós encontramos um caminho para sermos bem sucedidos. Hoje, não temos gente na Bolívia nem na Venezuela. Temos parceria com uma empresa de Caracas que tem sido muito boa. Há um potencial tremendo na Venezuela, mas não nas circunstâncias atuais. O Chile tem um sistema financeiro sofisticado, com margens muito difíceis. Então, não é fácil fazer dinheiro lá. É preciso ser inovador. Ainda que não estejamos fisicamente lá, o Peru é um lugar onde vemos muitas oportunidades. O juro está no menor nível da história do Brasil. Que tipo de oportunidade esse cenário abre? O sr. espera, por exemplo, muitas aberturas de capital (IPOs)?Eu não acho que os investidores institucionais estão convencidos da melhora do mercado. Há ainda dúvidas sobre a sustentabilidade da recuperação e medo de que haja uma recuperação em W, que incluiria outra recessão no ano que vem. Não vejo muitas oportunidades para IPOs, apesar do interesse dos investidores pela América Latina. Vejo, sim, oportunidades para empresas que abriram recentemente o capital fazerem ofertas secundárias e aumentarem o free float (quantidade de ações em circulação no mercado). No início da crise, muitos diziam que o modelo de banco de investimentos ia acabar. Como o sr. analisa essa previsão hoje?Bancos de investimento nunca morrem, eles só voltam de maneiras diferentes. Há um foco crescente em transparência e controle de risco. Todos reduziram seus níveis de alavancagem. Os ciclos mudam. Uma das coisas notáveis que percebi nos meus 27 anos de carreira é o ?curto prazismo? das pessoas. Depois da crise Tequila, do México, em 1994, e da crise russa, em 1998, muitos investidores me disseram: ?Nunca mais tente me vender produto relacionado a países emergentes." Nos próximos 18 meses, as pessoas vão se lembrar da dor provocada pela crise. Mas os ciclos mudam. Não me preocupo por hoje, mas pelos próximos três ou quatro anos. É preciso ser disciplinado em todos os negócios, não só nos bancos de investimento.

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