Dida Sampaio/Estadão - 14/6/2020
Esplanada dos ministérios: Segundo dados do Tesouro, a proporção de gastos com o funcionalismo no Brasil supera a de outras nações emergentes e também a de países avançados. Dida Sampaio/Estadão - 14/6/2020

Brasil é o sétimo país do mundo que mais gasta com salários de servidores públicos

Segundo dados do Tesouro Nacional, considerando as despesas com pessoal ativo de União, Estados e municípios, gastos chegaram a 12,9% do PIB em 2019

Idiana Tomazelli, O Estado de S.Paulo

17 de maio de 2021 | 16h10

BRASÍLIA - O Brasil tem uma das maiores despesas com remuneração de servidores no mundo, segundo dados reunidos pelo Tesouro Nacional em um painel interativo que será lançado pelo órgão. De uma relação de 74 países, o Brasil tem o sétimo maior gasto: 12,9% do PIB. Os dados são de 2019 e consideram despesas com pessoal ativo de União, Estados e municípios.

Penduricalhos para contornar o teto salarial de R$ 39,2 mil mensais, salários maiores do que na iniciativa privada e brechas para o acúmulo de remunerações são fatores apontados por especialistas para explicar a permanência do Brasil no topo do ranking. Um histórico de aumentos acima da inflação nos salários também contribui para o quadro. 

O mais recente “privilégio” incorporado ao conjunto de regras para servidores foi uma portaria do Ministério da Economia que permite a militares da reserva e servidores civis aposentados que continuam trabalhando em determinados cargos receberem as duas remunerações, mesmo que ultrapassem o teto de R$ 39,2 mil. A medida agraciou o presidente Jair Bolsonaro com um “aumento” de R$ 2,3 mil por mês e o vice-presidente Hamilton Mourão, com R$ 24 mil mensais. Ministros também serão beneficiados.

A medida despertou críticas, sobretudo no momento em que o time do ministro da Economia, Paulo Guedes, tenta fazer avançar no Congresso Nacional sua proposta de reforma administrativa, que mexe nas regras do “RH” do serviço público para flexibilizar a estabilidade, extinguir penduricalhos que turbinam salários e deixar o terreno pronto para uma revisão futura de carreiras e salários. A Proposta de Emenda à Constituição (PEC) aguarda votação na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara para avançar à próxima etapa, que é a análise de mérito na comissão especial. 

“Fico me perguntando onde estavam com a cabeça. Não faz o menor sentido, até pelo momento do País”, critica o deputado Tiago Mitraud (Novo-MG). Ele preside a Frente Parlamentar Mista da Reforma Administrativa e apresentou um requerimento de informações para cobrar explicações do governo. “Além de ser imoral, é uma incoerência muito grande”, afirma. Além de ter enviado a proposta de reforma administrativa, o governo também reduziu o valor da ajuda a vulneráveis durante a pandemia em 2021, sob a justificativa de controle de gastos.

Por dentro do gasto

O raio X traçado pelos dados do Tesouro permite observar que a proporção de gastos com o funcionalismo no Brasil supera a observada em outras nações emergentes, como Rússia, Chile, Peru e Colômbia, e também em países avançados, como Estados Unidos, Alemanha e Espanha. O dado considera as despesas não só com salários, mas também com a contribuição patronal para a Previdência desses servidores.

O economista José Luiz Rossi, professor do Instituto Brasiliense de Direito Público (IDP), ressalta que o gasto com servidores no Brasil é heterogêneo, tanto do ponto de vista de esfera administrativa quanto do ponto de vista dos poderes. No primeiro caso, a União tende a pagar maiores salários do que Estados e municípios. Ele lembra um estudo do Banco Mundial que aponta um elevado prêmio salarial dos funcionários federais, de 96% em relação ao que ganha um trabalhador com as mesmas qualificações no setor privado. Esse prêmio era de 36% nos Estados e praticamente zero nos municípios.

Sob o ponto de vista dos poderes, Judiciário e Ministério Público costumam destoar mais dos outros poderes em termos de manobras para driblar o teto remuneratório. No fim de 2019, por exemplo, o Estadão/Broadcast mostrou que o vale-refeição de juízes superava o salário mínimo em 24 dos 27 Estados brasileiros.

“É um Estado grande, que tem uma demanda grande”, diz Rossi, em uma justificativa para parte do gasto com um quadro significativo de servidores. No Brasil, segundo dados da Pnad Contínua, 11,9 milhões se declaravam empregados do setor público no trimestre até fevereiro de 2021. Por outro lado, ele reconhece que há distorções. “A questão é a política de incentivos. Não se tem na carreira muitos degraus, o funcionário passa a maior parte da carreira ganhando o salário máximo”, afirma. 

O governo enviou em setembro do ano passado a reforma que pretende corrigir uma parte das distorções, após mais de um ano de proposta engavetada devido às fortes resistências políticas. Para o professor do IDP, a PEC ainda é tímida porque não incluiu membros de outros poderes, como juízes e procuradores, e o governo não explicitou seus planos para rever a estrutura de níveis de carreira e salários. 

“A reforma original é bem tímida, Ela tem que tratar de todos os poderes e trabalhar mais a questão dos incentivos da carreira. O funcionário passa muito tempo ganhando o salário máximo”, afirma Rossi. 

Mitraud também afirma que há necessidade de rever as remunerações do funcionalismo, embora a PEC atualmente só trate de limitar benefícios, os chamados “penduricalhos” que contribuem para turbinar a remuneração extra teto. 

O economista Bráulio Cerqueira, presidente da Unacon Sindical, entidade que representa auditores de finanças e é ligada ao Fórum Nacional de Carreiras Típicas de Estado (Fonacate), critica os dados que colocam o Brasil no topo do ranking de gastos com funcionalismo. Segundo ele, a contabilidade dos gastos com a Previdência dos servidores varia entre países. 

“Nos três níveis federativos, é importante esclarecer isso, os salários de servidores civis estão congelados até o fim deste ano, na verdade estão sendo reduzidos em termos reais. No governo federal, a última recomposição salarial para 80% dos servidores ocorreu em janeiro de 2017”, diz Cerqueira. “Não há descontrole com a folha hoje, o que há é o contrário, arrocho salarial e quedas sucessivas do gasto com salários”, acrescenta. 

Crítico da proposta da reforma administrativa, o presidente da Unacon afirma que achatar salários dos trabalhadores, da iniciativa privada e do serviço público, “só piora a situação do mercado interno, dificultando a retomada que nunca se realiza”.

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Investimento público do País não é suficiente para manter estrutura que existe

Em 2020, segundo dados do Tesouro Nacional, os investimentos no País foram equivalentes a -0,20% do PIB, no quinto resultado negativo consecutivo

Idiana Tomazelli, O Estado de S.Paulo

17 de maio de 2021 | 16h10

BRASÍLIA - Enquanto a despesa do governo com salários do funcionalismo no Brasil é uma das mais elevadas no mundo, o investimento líquido no Brasil é um dos poucos no terreno negativo. Isso significa que o gasto do governo nessa frente nem sequer é suficiente para manter a estrutura que já existe. 

Segundo dados do Tesouro Nacional, o investimento líquido no Brasil foi equivalente a -0,20% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2020. Foi o quinto resultado negativo consecutivo. 

Em 2019, ano com maior disponibilidade de informações de outros países, o resultado do País foi pior, com investimento líquido de -0,39% do PIB. De uma lista de 72 economias nesse quesito, o desempenho brasileiro foi o quinto pior.

O gerente de Estatísticas de Finanças Públicas do Tesouro Nacional, Artur Henrique da Silva Santos, explica que o investimento público brasileiro não está sendo suficiente para compensar o desgaste natural dos investimentos antigos já realizados. 

Nos últimos anos, os investimentos públicos têm sido cada vez mais comprimidos pelas dificuldades fiscais da União e dos Estados. No ano passado, o governo federal investiu apenas R$ 48,1 bilhões, o menor valor real desde 2007. 

A abertura dos dados traz maiores evidências disso. A União está desde 2015 com o investimento líquido no terreno negativo. E os Estados, desde 2016, justamente o ano em que mergulharam mais fundo em uma crise financeira que levou o governo federal a traçar diferentes planos de socorro, com renegociação de dívidas e depois um regime de recuperação fiscal para casos mais agudos de descontrole nas contas. 

Os municípios também registraram investimentos em baixa entre 2017 e 2018, mas retomaram os resultados positivos em 2019 e 2020. Santos afirma que os dados têm certa relação com o ciclo eleitoral, que costuma impulsionar obras, mas a melhora também pode estar relacionada a outros fatores locais.

Para saber a consequência do investimento líquido negativo para o País, segundo Santos, seria necessário analisar de forma conjunta a tendência dos investimentos privados. O governo tem apostado em concessões e privatizações para alavancar os investimentos.

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