Brasil e países emergentes assinam acordo comercial

Dados divulgados pela ONU estimam que parceria possa gerar comércio extra de US$ 8 bilhões

Jamil Chade, O Estado de S.Paulo

02 de dezembro de 2009 | 18h36

Em uma conferência sem resultados, o único acordo assinado ocorreu entre Brasil, Índia, Argentina, Irã e outros países emergentes e que poderia gerar um comércio extra de US$ 8 bilhões. Mas, por enquanto, ninguém sabe dizer quais serão exatamente as economias que farão parte e nem os produtos que serão liberalizados. Isso será decidido nos próximos dez meses.

 

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Nesta terça, 1.º, governos dos países emergentes ainda usaram a assinatura do acordo para mandar uma mensagem política aos Estados Unidos de que o mundo em desenvolvimento não está parado. "Como diria Galileu Galilei, tudo parece que está parado. Mas portanto se move", afirmou o chanceler Celso Amorim, em uma referência ao fato de que os países emergentes estão mostrando que querem acordos de liberalização comercial.

 

Dados da ONU estimaram que o novo acordo entre os países emergentes geraria um comércio extra de US$ 8 bilhões. Mas os cálculos foram feitos a partir de uma base mais ambiciosa que o texto real do acordo.

 

Para que o valor fosse atingido, todas as tarifas de importação de 40 países emergentes teriam de sofrer cortes de 20%. O problema é que, pelo acordo atingido, são apenas 22 países e um a cada três produtos será mantido sob total proteção.

 

O Itamaraty admite que não sabe quanto vai ganhar com o acordo. Mas Amorim estima que os números da ONU são "conservadores".

 

O projeto, que foi batizado de Rodada São Paulo, foi lançado na capital paulista em 2004. Mas sofria problemas sérios para ser aprovado. Países em desenvolvimento, ainda que mostrassem simpatia por um entendimento, também sofrem resistência em abrir seus mercados uns para os outros.

 

Na terça, ninguém conseguia sequer dizer quais eram exatamente os países que fariam parte do acordo. Na lista distribuída pelo Itamaraty estavam México, Chile e Tailândia, governos que avisaram que não entrariam por enquanto no processo. A esperança dos governos que apoiaram a ideia é de que novas adesões ocorram nos próximos meses.

 

África do Sul, Colômbia, Venezuela e vários outros países emergentes também rejeitaram por enquanto fazer parte da iniciativa. A China também está de fora.

 

Segundo dados da Organização Mundial do Comércio (OMC), o fluxo de bens entre países emergentes já chegou a US$ 2,7 trilhões. "Nosso bloco representa 13% do PIB mundial, 39% da população do planeta e 16% da produção industrial internacional", afirmou Amorim.

 

"Essa é uma decisão importante e uma demonstração que os países emergentes querem trabalhar para a liberalização compatível com desenvolvimento", afirmou o chanceler da Argentina, Jorge Taiana. "Isso mostra que os problemas nas negociações não são os emergentes. Nós podemos fechar acordos. Temos vontade política e capacidade. O problema não está do nosso lado", afirmou Taiana. Segundo ele, 18% do comércio mundial já ocorre entre os países do sul.

 

Anand Sharma, ministro do Comércio da Índia, também comemorou a iniciativa política. "É uma mudança importante que está ocorrendo no mundo. Isso mostra o compromisso dos países emergentes", disse.

 

No acordo, o Irã ganhou certas concessões para não abrir seu mercado no mesmo ritmo dos demais. Mas recebeu um sinal político do Brasil de que teria um tratamento diferenciado. "Esse acordo reforça a cooperação entre os países emergentes", afirmou o ministro do Comércio do Irã, Mehdi Ghazanfari. Teerã, diante de suas políticas nucleares, sofre um embargo imposto pela ONU e um isolamento cada vez maior.

 

Amorim explicou que o Brasil se absteve em uma votação que condenava o Irã na Agência Internacional de Energia Atômica para permitir que o diálogo fosse mantido. "Esse acordo é uma mensagem de esperança. Não estamos esperando as coisas caírem do céu e nem a Rodada Doha terminar", disse.

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