Tiago Queiroz/Estadão
Pesquisa considera as contas a pagar em cartão de crédito, cheque especial, cheque pré-datado, crédito consignado, crédito pessoal, carnês, financiamento de carro e financiamento de casa Tiago Queiroz/Estadão

Brasil encerrou 2021 com um recorde de 76,3% das famílias endividadas

Segundo a CNC, dados revelam que as famílias recorreram mais ao crédito para sustentar o consumo

Daniela Amorim, O Estado de S.Paulo

18 de janeiro de 2022 | 14h27

RIO – A proporção de brasileiros endividados encerrou o ano de 2021 em patamar recorde, segundo a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). Em dezembro, 76,3% possuíam dívidas, maior patamar da série histórica iniciada em janeiro de 2010, de acordo com os dados da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), divulgada nesta terça-feira, 18.

Na média do ano, 70,9% das famílias estavam endividadas, um aumento de 4,4 pontos porcentuais em relação aos 66,5% registrados na média de 2020.

"A taxa de incremento de famílias com dívidas também foi a maior já observada, revelando que as famílias recorreram mais ao crédito para sustentar o consumo", apontou a CNC, em nota à imprensa.

A pesquisa da CNC considera como dívidas as contas a pagar em cartão de crédito, cheque especial, cheque pré-datado, crédito consignado, crédito pessoal, carnês, financiamento de carro e financiamento de casa, entre outras modalidades.

Embora o endividamento tenha aumentado, houve pequena redução na inadimplência em 2021. O porcentual de famílias com contas ou dívidas em atraso diminuiu 0,3 ponto porcentual, de uma média de 25,5% em 2020 para 25,2% no ano passado. No mês de dezembro, porém, o total de inadimplentes foi mais elevado: 26,2%.

"Após iniciar 2021 em patamar superior ao observado no fim de 2020, o indicador reduziu-se até maio, mas passou a apresentar tendência de alta desde então, encerrando o ano em 26,2% das famílias, acima da média anual. Apesar de a proporção de famílias com contas/dívidas atrasadas ter acirrado no último trimestre do ano, vale notar que o máximo já observado no percentual do indicador ocorreu em agosto de 2020, quando alcançou 26,7%", ponderou a CNC, no estudo.

A proporção de famílias que declararam não ter condições de pagar suas contas em atraso e que, portanto, permaneceriam inadimplentes, diminuiu de 11,0% na média de 2020 para 10,5% em 2021. No mês de dezembro, essa fatia de consumidores era de 10%.

Os números indicam que, ainda que em condições financeiras mais difíceis, os consumidores conseguiram quitar seus compromissos financeiros, mas a tendência é de alta na inadimplência neste início de 2022, avaliou a economista Izis Ferreira, responsável pela pesquisa da CNC.

"Os consumidores seguirão enfrentando os mesmos desafios financeiros da segunda metade de 2021, principalmente inflação, juros elevados e mercado de trabalho formal ainda frágil. Soma-se a isso o vencimento de despesas típicas do primeiro trimestre, que deverá apertar ainda mais os orçamentos domésticos neste período", justificou Izis Ferreira, em nota.

O cartão de crédito se manteve como o tipo de dívida mais citado pelas famílias brasileiras em 2021, mencionado por 82,6%  dos endividados na média do ano. As demais dívidas mais citadas foram carnê (18,1%) e financiamento de carro (11,6%).

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Dívidas das famílias devem consumir 26% do valor do Auxílio Brasil

Pesquisa da CNC, feita a pedido do 'Estadão/Broadcast', indica que 70% do benefício deve ser revertido para o consumo, mas o endividamento e a inflação tornam o efeito do programa social quase nulo para o PIB, dizem economistas

Daniela Amorim e Cícero Cotrim, O Estado de S.Paulo

18 de janeiro de 2022 | 15h00

RIO E SÃO PAULO - O aumento do endividamento da população brasileira a patamares recordes ao longo da pandemia de covid-19 deve subtrair do varejo e dos serviços mais de um quarto dos recursos que serão injetados na economia pelo Auxílio Brasil, segundo cálculos da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) feitos com exclusividade para o Estadão/Broadcast. O pagamento do benefício começa a ser liberado pelo governo nesta terça-feira, 18.

Dos R$ 84 bilhões que serão liberados pelo programa a aproximadamente 17,5 milhões de pessoas ao longo de 2022 (considerando o benefício mensal de R$ 400), 70,43% serão revertidos em consumo imediato, o equivalente a R$ 59,16 bilhões: R$ 28,04 bilhões gastos no varejo e outros R$ 31,12 bilhões no setor de serviços.

Outros R$ 21,62 bilhões serão destinados ao pagamento de dívidas, 25,74% do total de recursos liberados pelo programa, enquanto R$ 3,21 bilhões irão para a poupança, apenas 3,83% de todo o montante a ser transferido aos beneficiários. "Apenas uma parcela muito pequena da população tem condições de poupar", lembrou o economista Fabio Bentes, responsável pelo estudo da CNC.

O economista explica que o consumo imediato depende de fatores como massa de rendimentos, nível de preços e grau de endividamento da população. Quanto maior o grau de endividamento das famílias, maior tende a ser a parcela do orçamento doméstico destinada ao pagamento de dívidas, ressalta Bentes.

"A cada 1 ponto porcentual de comprometimento da renda, o estímulo ao consumo é reduzido em 0,71%. O último dado divulgado pelo Banco Central, referente a setembro de 2021, mostrava 30,33% da renda das famílias comprometidos com dívidas. No pré-covid, na média do ano de 2019, esse porcentual era de 24,7%. Em quase dois anos, avançou mais de 5 pontos porcentuais", apontou Bentes.

A CNC projeta que 35,9% da renda das famílias brasileiras estarão comprometidos com dívidas na média do ano de 2022. O levantamento considera todas as contas a pagar, tanto as que estão ainda por vencer como as que já estão em atraso. A perspectiva de piora é explicada pelas condições ainda difíceis do mercado de trabalho, pela inflação elevada e pela alta na taxa básica de juros, que encareceu o crédito para pessoas físicas.

Se o patamar de endividamento recuasse ao nível pré-covid (24,7%), o total de recursos do Auxílio Brasil destinados ao consumo de bens e serviços seria maior, de R$ 65,91 bilhões, calcula o economista da CNC. "Teríamos uma injeção de recursos no comércio bem maior. O consumo deixará de receber um aporte da ordem de R$ 6 bilhões por conta desse aumento do endividamento", apontou Bentes.

Impacto quase nulo na economia

Para o economista-chefe da Wealth High Governance (WHG), Fernando Fenolio, o Auxílio Brasil deve ter impacto restrito na economia em 2022. O analista estima que o programa deve contribuir com 1,3% para a variação real da massa salarial ampliada, que reúne os rendimentos do trabalho e benefícios sociais e previdenciários, este ano. Mas esse número é insuficiente para compensar o impacto negativo de 2,7% do fim dos pagamentos do auxílio emergencial.

"Não vai fazer grande diferença no resultado final, primeiro por causa da inflação alta, que acaba comendo parte dos rendimentos, e não é nada parecido em termos de escopo com o que foram as medidas de meados de 2020", diz Fenolio, que estima queda de 0,3% do PIB (Produto Interno Bruto) de 2022. "Em termos reais, a massa salarial ampliada deve subir 0,5% este ano, o que não é uma injeção de dinheiro a ponto de levar a uma expansão do consumo."

Da mesma forma, o economista da LCA Consultores Bruno Imaizumi observa que o impacto do Auxílio Brasil sobre a economia deve ser limitado este ano. Segundo as contas da consultoria, a participação do novo programa na massa total de renda da população deve atingir um pico de 2,6% em junho de 2022 e se manter em uma média de 2,0% ao longo do ano.

"Considerando que o PIB deve crescer 0,7% em 2022, segundo as nossas projeções, não é um impulso significativo. Estamos em um cenário difícil e de pouco impacto. Por mais que tenha dobrado o valor do Bolsa Família, é um programa mais político do que econômico, do ponto de vista de como isso deve afetar o PIB", diz Imaizumi.

Com o efeito restrito do Auxílio Brasil na massa salarial ampliada, Fenolio, da WHG, enxerga um baixo impacto do novo programa sobre a aprovação do presidente Jair Bolsonaro (PL) no ano das eleições. "Quando você pensa em traduzir esse efeito para a popularidade presidencial, obviamente não é grande o suficiente para compensar outros fatores", diz o economista.

O levantamento da CNC considera dados das Contas Nacionais, da inflação pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) e da Pesquisa de Orçamentos Familiares, todos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), além da série histórica do nível de endividamento de pessoas físicas iniciada em 2005 pelo Banco Central.

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