Brasil está aberto para novas negociações bilaterais

Sem um acordo na Organização Mundial do Comércio (OMC), o chanceler Celso Amorim admite que está agora "aberto" a voltar a negociar acordos bilaterais e regionais. O ministro, porém, insiste que esses acordos não são substitutos à Organização Mundial do Comércio (OMC). Para diplomatas, o fracasso em Genebra obrigará vários países a repensar suas estratégias comerciais. No caso do Brasil, Amorim admite que estaria na hora de pensar em uma retomada das negociações para a criação de um bloco comercial entre o Mercosul e a União Européia (UE). Mariann Fischer Boel, comissária agrícola da Europa, é da mesma opinião e acha que o processo deve ser relançado antes do final do ano. O Itamaraty é criticado por alguns setores produtivos por não conseguido fechar acordos com as maiores economias nos últimos anos. As negociações entre o Mercosul e a UE estão virtualmente paralisadas desde 2004 e, desde então, as várias tentativas de reativar o processo esbarraram nas diferenças entre os dois blocos."Quando estávamos a ponto de concluir a rodada da OMC, não fazia muito sentido continuar a negociação com a Europa. Agora, me sinto aberto para esse tipo de acordo", afirmou Amorim. Segundo ele, não existem problemas "conceituais" entre o Mercosul e a União Européia, mas apenas dificuldade em termos do grau de abertura de cada setor. "Podemos e até devemos retomar essas negociações", disse.Repensar estratégias Alberto Dumont, embaixador da Argentina na OMC, admite que o Mercosul terá de repensar suas estratégias. Já Peter Mandelson, comissário de Comércio da Europa, é mais cauteloso e afirma que ainda "é muito cedo para dizer" se o processo bilateral deve ser relançado. "Vamos digerir antes o que ocorreu aqui na OMC, pois será uma digestão difícil", afirmou. Amorim ainda aponta que poderia repensar a possibilidade de voltar a negociação com os Estados Unidos. Sua preferência, porém, não seria a Área de Livre Comércio das Américas (Alca), mas um acordo 5 + 1, ou seja, um entendimento entre o Mercosul (Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai e Venezuela) e os Estados Unidos. "Nunca tivemos a estratégia de negar outras negociações. Mas Alca é um pouco mais complicado pois conta com países com interesses muito diferentes. Alguns deles já concluíram negociações com os Estados Unidos, não tem nada a perder e estão prontos a fazer toda as concessões possíveis. Isso nos deixa numa posição difíceis", explicou o chanceler, que acredita que o processo deve ser retomado "no momento oportuno".No ultimo domingo, a representante de Comércio da Casa Branca, Susan Schwab, admitiu que os americanos buscariam acordo de todas as formas. "Queremos ser ambiciosos no âmbito multilateral, regionais e bilaterais", afirmou. Aprofundar acordos Outra opção é a de aprofundar os acordos com a Índia e África do Sul. Em setembro, os três países se reúnem em Brasília e a diplomacia de Nova Déli acredita que está na hora de um acordo de livre comércio. Um embaixador indiano, porém, ironiza as opções do Brasil diante do fracasso da OMC. "Vocês têm Hugo Chavez (presidente da Venezuela)", disse o diplomata, gargalhando. Questionado sobre um possível acordo com a China, Amorim é mais cauteloso. "Vamos devagar", disse. O chanceler deixa claro que, apesar da busca por acordo, a prioridade do Brasil sempre será a OMC. "Não há substituto para a OMC. Nenhuma dessas outras negociações pode obter aquilo que temos de obter aqui, que são regras equilibradas de comércio e corte de subsídios", afirmou. O México é da mesma opinião e alerta que, apesar de ter 42 acordos bilaterais assinados, não pode ficar sem OMC. "Os acordos que temos amortece o impacto do fracasso da OMC para nós. Mas os acordos bilaterais não são a solução", explicou um diplomata mexicano.

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