Dida Sampaio/Estadão
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Laura Karpuska
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Brasil está armado intelectualmente contra Bolsonaro

Não é à toa que governos ruins são abertamente críticos às liberdades da imprensa e perseguem, direta ou indiretamente, intelectuais

Laura Karpuska*, O Estado de S.Paulo

01 de setembro de 2021 | 04h00

Em 2018, fui pela primeira vez para Israel. Passei três semanas no país a convite de um dos membros da minha banca de doutorado. Yair Tauman passava metade do ano em Stony Brook, onde estudei, e a outra metade, na faculdade IDC, em Herzliya. 

Yair é um excelente anfitrião. Orgulhoso de Israel, levou-me a todos os cantos, sempre contando a história de seu país. Em todos os pontos, turísticos ou não, que visitávamos, era clara a emoção de Yair em Massada. No meio do deserto, o ponto marca o local onde, contam, em 70 d.C. quase 1.000 judeus tentaram resistir a milhares de soldados romanos. Quando a derrota parecia inevitável, encurralados e temendo serem escravizados, eles optaram por acabar com a própria vida, pulando de cima de um morro no meio do deserto. 

Para chegar a Massada, passamos por lugares controlados pelo Exército de Israel. Meu marido (e também colega de PhD) dirigia o carro, Yair estava no banco do passageiro, e eu e mais dois colegas estávamos no banco de trás. Uma soldado nos parou e pediu para o motorista abaixar o vidro. Ela, em hebraico, falou brevemente algo que apenas Yair entendeu e prontamente respondeu, coisa que nenhum de nós conseguiria com nossas duas semanas intensivas do idioma. 

Lembro de Yair rindo, com um jeito leve, e batendo duas vezes os dedos na sua testa. A soldado, indiferente a qualquer piada aparentemente feita, mandou-nos seguir. Curiosos, perguntamos o que ela queria. Yair nos disse que ela queria saber se estávamos armados, e que ele havia respondido que sim. Meu coração quase parou naquele momento. Questionava-me se havia algo que eu não havia notado no porta-malas ou no porta-luvas. Yair, então, disse com a voz mais séria do que seu jeito usualmente descontraído: ‘Falei a ela que carregávamos nossos cérebros’. Então, ele caiu na sua gargalhada habitual. 

No último sábado, Jair Bolsonaro disse a apoiadores em frente ao Palácio do Planalto que todos deveríamos comprar fuzis, pois “povo armado jamais será escravizado”. Essa afirmativa explicita a simplicidade intelectual de nosso presidente, bem como sua obsessão por armas. Deixo uma análise disso para colegas psicólogos. Em termos de economia política, este comentário não faz sentido. Em nosso atual ambiente institucional, as liberdades individuais não são garantidas por armas. Na coluna de 27 de agosto, discuto brevemente a importância do Estado como monopolista da violência. Estados que não conseguem atuar com este monopólio são atrasados e possuem um processo de desenvolvimento incompleto. Isso se manifesta com alta criminalidade, desigualdades, baixa efetividade do “rule of law” e desconfiança em relação ao próprio Estado. 

Não há arma mais poderosa do que nossa habilidade cognitiva, nossa honestidade intelectual. Dentre tudo que Yair, matemático brilhante, ensinou-me durante meus cinco anos de doutorado, esta foi uma das maiores lições. 

Não é à toa que governos ruins são abertamente críticos às liberdades da imprensa e perseguem, direta ou indiretamente, intelectuais. A crítica é uma arma importante na construção da coesão social que determina a governabilidade. 

O desespero recente do presidente revela sua preocupação com uma derrota nas urnas, por meios democráticos legítimos. Ele ataca o sistema que o elegeu, já antecipando que perderá em 2022. Agora, ele começa a incitar o mau comportamento civil. Mas o Brasil já está armado. Intelectualmente. Contra Bolsonaro.

*PROFESSORA DO INSPER, PH.D. EM ECONOMIA PELA UNIVERSIDADE DE NOVA YORK EM STONY BROOK. A COLUNISTA ESCREVE EXCEPCIONALMENTE HOJE

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