Gabriela Biló/Estadão
Gabriela Biló/Estadão

Brasil está fora da busca por uma solução viável para o meio ambiente, pois isso requer estadistas

Coibir a emissão de carbono hoje implica custos cuja contrapartida será percebida apenas daqui a algumas décadas

Luís Eduardo Assis*, O Estado de S.Paulo

22 de novembro de 2021 | 04h00

O síndico de um prédio bacanudo em São Paulo notou um súbito aumento no consumo de água do edifício. Não demorou para perceber que o novo morador era proprietário de uma lavanderia e resolveu instalar dezenas de máquinas de lavar roupa no apartamento, com o que dividia sua despesa de água com os outros moradores. O condomínio resolveu a malandrice apelando para a proteção da lei.

Algo parecido ocorre com o meio ambiente – mas a solução é muito mais difícil. A. Pigou (The Economics of Welfare, publicado em 1920) foi o primeiro economista a tratar de externalidades negativas. O conceito é que pode haver um conflito entre interesses públicos e privados quando a contrapartida dos lucros é a geração de malefícios difusos que oneram a comunidade. Esses danos podem ser atenuados pela imposição de impostos que corrijam essa imperfeição de mercado, de forma a fazer coincidir os interesses individuais e os da sociedade.

Mas o problema do aquecimento global afeta todos os habitantes do planeta e uma ação isolada de um governo nacional é incapaz de prover uma solução. Finlândia e Dinamarca, por exemplo, taxam a emissão de carbono desde os anos 90, sem nenhum efeito prático significativo para o mundo. Deixar que partes privadas negociem compensações, como sugeriu R. Coase, Nobel de Economia de 1991, seria ainda mais difícil, dada a desigual capacidade de negociação dos vários agentes.

A tentação é esperar que os outros cumpram sua parte e negligenciar suas próprias responsabilidades, ou seja, há um forte estímulo para a não cooperação. Sem falar no conflito entre gerações. Coibir a emissão de carbono hoje implica custos cuja contrapartida será percebida apenas daqui a algumas décadas. O próprio benefício futuro será pouco perceptível, já que estamos falando de um não evento (se tudo der certo, não teremos um colapso mundial). Os eleitores de hoje serão onerados em prol das futuras gerações, mas isso pode não estimular os políticos que querem votos agora, não em 2050.

A única solução viável é por meio da pressão da sociedade para estimular os presidentes dos países a buscarem um acordo que lhes garanta uma nota de louvor nos livros de História. Isso requer estadistas. O Brasil está fora desse jogo. Nosso presidente nem sequer reconhece o problema – e, provavelmente, admira a molecagem do dono da lavanderia. 

* ECONOMISTA, FOI DIRETOR DE POLÍTICA MONETÁRIA DO BANCO CENTRAL E PROFESSOR DE ECONOMIA DA PUC-SP E DA FGV-SP

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