'Brasil está passando por semiestagnação'

Para economista, pode ser precipitado falar em recessão, mas dados apontam crescimento 'engasgado'

Entrevista com

LUIZ GUILHERME GERBELLI, O Estado de S.Paulo

16 de fevereiro de 2014 | 02h08

Os últimos números de 2013 da economia brasileira vieram pior do que o esperado. A indústria e o varejo tiveram fortes quedas, e, na sexta-feira, o Banco Central divulgou um recuo de 1,35% no IBC-Br de dezembro. O índice, que mede a atividade econômica, também acumulou dois trimestres seguidos de queda. Para a economista Silvia Matos, coordenadora técnica do Boletim Macro Ibre (Instituto Brasileiro de Economia), da Fundação Getúlio Vargas (FGV), apesar dos números, ainda é precipitado dizer que o Brasil entrou em recessão. "Mas os dados mostram que estamos meio engasgados no crescimento", diz. A seguir, os principais trechos da entrevista:

Que sinalização trouxe o último resultado do IBC-Br?

Eu diria que o Brasil está passando mais por uma semiestagnação. A economia tem trimestres com resultados positivos, e outros com resultados negativos. Recessão ainda é um pouco forte para se dizer, até porque os números podem sofrer revisões no futuro e o PIB (Produto Interno Bruto) é mais complexo (do que o IBC-Br). Mas os dados mostram que estamos meio engasgados no crescimento, e o risco de entrar num período de baixo crescimento está mais elevado.

O que pode evitar uma recessão na economia brasileira?

Uma parte desse PIB mais baixo registrado no ano passado foi causado pela indústria extrativa, que foi um desastre total. Esperamos que, depois de alguns anos, a Petrobrás deslanche este ano. A agropecuária também, na nossa avaliação, pode ter um ano bom. O setor de serviços deve crescer muito pouco, mas, para haver uma recessão no País, seria preciso que esse setor tivesse uma desaceleração mais profunda. É óbvio que estamos numa região de baixo crescimento, então a gente sabe que, em termos de probabilidade, aumenta o risco: com qualquer choquezinho, o crescimento pode ir para terreno negativo.

Qual é a expectativa de crescimento para 2013?

Esperamos um crescimento de 2,1%. O resultado veio mais fraco e uma parte importante disso foi a agropecuária, que teve um desempenho pior do que a gente imaginava. A indústria extrativa também foi muito mal e a de transformação perdeu fôlego no último trimestre.

E para 2014?

Estamos prevendo um crescimento de 1,8% para o PIB este ano. É um cenário que contempla uma estagnação da indústria de transformação nas contas nacionais e uma recuperação da extrativa. Estamos com esse número há algum tempo, e é um cenário que a gente sabe que tem um certo otimismo. Mas o risco de ser um PIB menor aumentou substancialmente. Para fazer revisão, precisaríamos esperar mais os dados, mas, se houver uma mudança, a tendência é que seja para baixo. Os indicadores estão levando o PIB mais para 1,5% do que para 2%. O cenário está piorando um pouquinho, infelizmente.

Quais são esses fatores que podem levar a uma redução na previsão do PIB deste ano?

As condições financeiras pioraram, há um certo pessimismo com relação à economia. Nesse cenário, o investimento acaba piorando bastante, tem também a questão da Argentina. Tudo isso pode levar a uma revisão desse cenário. No geral, o setor que está indo mal, tende a piorar, e o que está indo bem não tende a melhorar. Os nossos indicadores corroboram um cenário mais fraco nesse comecinho de ano. Mas depende muito do cenário da indústria de transformação. Se ela tiver uma contração, afeta também outros setores, como serviços. A gente só não pode esquecer que em 2012 a indústria de transformação recuou, mas o setor de serviços ainda cresceu.

Está nas mãos do governo recuperar o crescimento?

Parte do que a economia brasileira vem sofrendo nos últimos meses ocorre pela desvalorização do câmbio, o que prejudica o cenário e cria uma volatilidade para os investimentos. Essa volatilidade acaba criando uma incerteza maior nos negócios. Em um cenário de baixo crescimento, qualquer aumento de nuvens prejudica. E também estamos sendo mais castigados neste momento porque há um acúmulo de indicadores ruins: piora no déficit das contas correntes, o fiscal também está ruim.

O que o governo pode fazer para reverter o atual cenário?

Eu acho que o governo poderia sinalizar um fiscal melhor. E uma das coisas que também estão prejudicando é o nosso déficit em conta corrente, sobretudo com a questão da gasolina. Num certo sentido, os combustíveis estão prejudicando a nossa transação corrente de uma maneira muito expressiva (em 2013, o déficit causado pela conta petróleo foi de 0,5% do PIB). A inflação também tem de ser corrigida, porque os preços estão meio desalinhados. Então, será preciso elevar mais os juros. Seria melhor não se preocupar tanto com o crescimento, mas se preocupar mais com os fundamentos.

Por quê?

Mesmo que o Brasil possa sinalizar (uma melhora) do ponto de vista de crescimento, a preocupação tem de ser em tentar mostrar que indicadores que estão um pouquinho piores do que deveriam estar podem mudar de dinâmica. Se o governo corrigir as distorções, trabalhar por um déficit menor e melhorar o superávit, num certo sentido, seria o mais relevante para ser feito no momento. E aí eu acho que isso vale mais a pena. É um benefício que muda a perspectiva do Brasil no médio e longo prazos, e, consequentemente, o interesse de investir na economia brasileira.

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