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Brasil está perto de ser um "global player", diz pesquisa

O Brasil ainda não é agente expressivo do mercado global, mas está muito perto disso. Entre as maiores companhias nacionais, 15% podem ser consideradas multinacionais - emergentes (12,7%) ou consolidadas (3,2%) -, enquanto 31,7% têm intenção de ampliar suas fronteiras geográficas.A questão é que, para os especialistas, ser multinacional não significa ser global. Este é um dos destaques da pesquisa realizada recentemente pela Fundação Dom Cabral sobre os processos de internacionalização de empresas no Brasil, divulgada em primeira mão pela Agência Estado."As empresas brasileiras estão internamente preparadas para a internacionalização. Mas ainda não têm conhecimento suficiente sobre o canal e o próprio cliente de seus produtos, pois delegam essa tarefa a intermediários", afirma um dos coordenadores da pesquisa, o professor Álvaro Cyrino.Para avançar nesse terreno, os caminhos são variados: parcerias, fusões e aquisições estão entre as possibilidades para dispensar esses intermediários e garantir presença efetiva junto aos clientes. Tanto que os pesquisadores diferenciam as empresas globais como aquelas que têm unidades de produção em outros países - uma fase à frente das companhias que se contentam em fincar lá fora apenas escritórios de representação.A Pesquisa Sobre a Internacionalização da Empresa Brasileira, também chamada de Global Players, foi realizada ao longo de 2001, com mil empresas de diversos setores. Das empresas consideradas no resultado final, constatou-se que 68% chegam ao mercado internacional via exportação direta e 61% por meio de terceiros.Por outro lado, quase metade das empresas (47,7%) tem intenção de partir para alianças estratégicas como forma de entrada em mercados internacionais nos próximos cinco anos. Atualmente, esse método é utilizado por um quarto delas. Já subsidiárias ou unidades de produção própria são a forma de internacionalização com o segundo maior potencial de crescimento, com previsão de saltar dos 10,7% atuais para 17,4% no futuro.Em terceiro vem a instalação de escritórios comerciais, atualmente utilizada por 27,4% das empresas e que poderá passar de 33%.Apesar da predileção por métodos com menor grau de investimento e envolvimento, como exportações e instalação de escritórios, a visão de futuro sobre o comércio internacional indica algo muito positivo, segundo os especialistas. Trata-se da mudança de mentalidade do empresário brasileiro, até agora acomodado ao tamanho e ao potencial do mercado interno. "O brasileiro fica feliz quando recebe uma proposta de fusão e nem pensa que ele próprio poderia ser o agente da globalização, salvo raras exceções", critica Cyrino. Curiosamente, o mesmo mercado que "acomoda" a empresa nacional tem atraído competidores internacionais. O Brasil foi o segundo país em desenvolvimento a receber maior volume de investimentos externos, atrás apenas da China, segundo levantamento feito pelo instituto europeu IMD. No sentido inverso, o Brasil desempenha um papel tímido: ocupa o 30º lugar em alocação de recursos em outros países, atrás da Malásia e Rússia, por exemplo.Segundo os especialistas, o modelo de desenvolvimento econômico brasileiro, fundamentado na substituição das importações e em medidas protecionistas à indústria, fez com o mercado exterior mal fosse cogitado até o início dos anos 90. A um passo da globalizaçãoA pesquisa da universidade Dom Cabral demonstra que grande parte das empresas brasileiras encontra-se nos estágios iniciais de internacionalização. Os coordenadores reconhecem iniciativas concretas, porém muito recentes de empresas brasileiras "quase" globais, como AmBev, Gerdau e Petrobras. "Mas a consolidação no mercado global leva algum tempo", diz o professor Cyrino. Os especialistas observam que, quanto mais tempo uma empresa atua no exterior, mais se dispõe a assumir riscos e comprometer recursos em seu processo de internacionalização. Todas essas empresas brasileiras concluíram recentemente processos de aquisição no exterior e agora só precisam de tempo. A AmBev é um caso típico de associação de gigantes nacionais, Brahma e Antarctica, com vistas a competir no mercado internacional. A estratégia inclui parcerias, como com a rede McDonald´s e a PepsiCo, para a venda do Guaraná Antarctica em todo o mundo. A meta da AmBev é conquistar o 10º lugar entre os refrigerantes preferidos mundialmente em cinco anos.O produto já está sendo comercializado em Portugal, Espanha, Porto Rico e Japão, sendo que a companhia exporta o extrato de guaraná da Amazônia para a produção e distribuição pela Pepsi-Cola. Em cerveja, a tática foi partir para aquisições além das fronteiras, embora a negociação com a argentina Quilmes ainda enfrente oposição da Isenbeck, filial da alemã Warsteiner, que tenta judicialmente impedir a fusão alegando monopólio, já que a AmBev deteria assim 80% do mercado. Na área petroquímica, a Petrobras assumiu o controle do grupo argentino Perez Companc (Pecom), mas ainda não decidiu o que fazer com os ativos. Por sua vez, o grupo Gerdau e a canadense Co-Steel concluíram em 23 de outubro a fusão de seus ativos, criando a siderúrgica Gerdau AmeriSteel Corporation, dona de 11 usinas nos Estados Unidos e Canadá. A Gerdau controla 74% da nova companhia, e os acionistas da Co-Steel os outros 26%. Agregar valorPolíticas de incentivo à exportação são necessárias e muito bem-vindas, mas não suficientes, alerta o professor Moacir de Miranda Oliveira Junior, outro coordenador da pesquisa realizada pela Fundação Dom Cabral. "Reforçar as exportações e agregar valor aos produtos são estratégias distintas. A segunda pressupõe maior compreensão sobre o cliente e, portanto, ajuste de processos para atender demandas específicas", explica.A Gerdau, novamente, é citada como exemplo de empresa capaz de gerar valor agregado aos produtos, ainda que o aço seja uma commodity. Por meio da divisão Armafer, a Gerdau entrega aço cortado e dobrado para a construção civil. "É preciso entender a cadeia de valor do cliente e embutir inteligência ao processo", justifica Oliveira, que conclui: "Aqui, a estratégia é descommoditizar". Das empresas entrevistadas, 20% são produtoras de bens intermediários, 33,9% de produtos finais e 21% de serviços. Motivações e barreirasEconomia de escala é o principal motivador para a busca de oportunidades no mercado externo, segundo o levantamento, notadamente entre os produtores intermediários e de bens finais. Por sua vez, empresas de menor porte vêem como principal motivação a possibilidade de desenvolver competências para atuar no mercado globalizado.Explorar as vantagens competitivas do Brasil (como recursos naturais, mão-de-obra, localização) aparece com o terceiro fator para a internacionalização. Acompanhar os clientes em seus planos de expansão pouco pesa sobre as decisões. O apoio do governo é o último item da lista, embora tenha maior impacto sobre empresas de pequeno porte. "Não vale esperar por decisões políticas. As empresas brasileiras são competitivas e internamente capacitadas para buscar a internacionalização por si próprias", afirma Cyrino. "Já não se consideram tecnologicamente defasadas, mais um mito derrubado pelo estudo. O Brasil vem perdendo o complexo de Terceiro Mundo", completa.Porém, as barreiras existem, e são principalmente conjunturais. Na opinião dos principais executivos das maiores empresas entrevistadas, os mais citados obstáculos à internacionalização são a excessiva carga tributária, o custo Brasil e a política cambial. Há também entraves de natureza organizacional, como dificuldade de acesso a canais de distribuição e escala insuficiente para competir no mercado externo."Empresas com mais experiência nos mercados internacionais enfrentam menos barreiras e desfrutam de resultados superiores. Quanto mais experiência têm e maiores investimentos diretos efetuam, melhor é o retorno obtido", avaliam os coordenadores da pesquisa.AlcaEm relação à Associação de Livre Comércio das Américas (Alca), mais de 70% das empresas pesquisadas abordam o bloco como uma oportunidade, e 77% delas se consideram preparadas para competir nesse cenário ? ou 100% das que têm faturamento superior a R$ 1 bilhão.Interessante é que as empresas sabem do poder de seus oponentes, e nem por isso esmorecem: 75% delas entendem que seus concorrentes diretos também estão preparados para a Alca. O caminho a seguirOs professores da Fundação Dom Cabral apontam alguns caminhos para as empresas brasileiras com intenção de ganhar o mercado internacional com maior valor agregado e visão global. "É necessário o desenvolvimento de uma estratégia de globalização; de competências em negócios internacionais; e monitoramento do ambiente competitivo internacional", explica o professor de Estratégia, Moacir Oliveira.Na prática, isso significa formação de cadeias produtivas (clusters), centrais de compras, associações com criação de marcas comuns, fusões... tudo o que leve um grupo de empresas a ter maior participação de mercado e nas decisões do comércio global. "O mercado globalizado se faz de cooperação, não apenas competição", diz Álvaro Cyrino. O reconhecimento do potencial de internacionalização de empresas brasileiras motivou a Fundação Dom cabral a criar um programa de parceria com empresas brasileiras interessadas em se internacionalizar. Rever abordagem"As empresas brasileiras precisam rever sua abordagem gradualista, buscando acelerar a curva de aprendizado por meio da experiência de outras empresas, de forma a queimar etapas e desfrutar mais rapidamente das vantagens decorrentes de operações internacionais", explica o coordenador.O foco do programa são estudos de caso de empresas de países emergentes avançadas em internacionalização, entre eles Cingapura, Índia e Coréia, bem como benchmarks de multinacionais tradicionais. A iniciativa tem apoio do Insead, um dos maiores centros de gestão executiva do mundo, com sede nas cercanias de Paris e filial em Cingapura. "A pesquisa nos deu subsídios para fortalecer a parceria". Os seminários e workshops do programa de intercâmbio deverão ser realizados ainda este ano, mas até o momento não há data definida. Mais informações no site da Fundação Dom Cabral (www.fdc.org.br).

Agencia Estado,

15 de novembro de 2002 | 23h23

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