Adriano Machado/Reuters
Trator carregado de fertilizantes perto de Brasília; Brasil é o quarto maior produtor dos principais grãos e responde por 7,8% da produção mundial.  Adriano Machado/Reuters

Brasil defende excluir fertilizantes de sanções para garantir a oferta de comida

Mundo depende, em grande escala, da produção de alimentos pelo Brasil, e a falta de insumos para cultivar os grãos pode fragilizar ainda mais a segurança alimentar mundial, já afetada pela alta de preços

André Borges  , O Estado de S.Paulo

22 de março de 2022 | 05h00

BRASÍLIA - O Brasil passou a defender que os fertilizantes sejam itens proibidos de entrar nas listas de sanções comerciais. Não se trata apenas de um interesse local para favorecer o agronegócio brasileiro. O mundo depende, sim, e em grande escala, da produção de alimentos pelo Brasil, e a falta de insumos para cultivar os grãos pode fragilizar ainda mais a segurança alimentar mundial, já afetada pela alta de preços.

Oficialmente, o governo brasileiro não vê risco de faltar alimentos no País. Em último caso, medidas extremas, como restrições à venda de alimentos para outros países, podem ser tomadas para garantir o abastecimento local. Por outro lado, o Brasil só produz 15% do total de fertilizantes necessários para o uso anual.  

A dependência dos outros países em relação aos alimentos do Brasil é alta. Dados de junho de 2021 compilados pela Embrapa mostram que o Brasil responde por 50% do mercado mundial de soja e que alcançou, em 2020, o posto de segundo maior exportador de milho

O Brasil é o quarto maior produtor dos principais grãos (arroz, cevada, soja, milho e trigo) e responde por 7,8% da produção mundial. Além disso, o País é o segundo maior exportador de grãos do mundo, com 19% do mercado internacional. Em 2020, o rebanho bovino brasileiro foi o maior do mundo, com 14,3% do total, ou 217 milhões de cabeças, seguido pela Índia, com 190 milhões. 

“Estamos falando de segurança alimentar. Já temos 800 milhões de pessoas no mundo que comem muito mal. Se a gente não produzir, teremos muito mais gente passando fome”, disse ao Estadão a ministra da Agricultura, Tereza Cristina. “Por isso, queremos que fertilizantes não sejam incluídos na lista de sanções. Não é possível produzir sem os fertilizantes, e sabemos que o potássio é um recurso finito.”

Alternativas

Por causa da crise entre Rússia e Ucrânia, o Brasil tem buscado alternativas aos insumos que compra daquela região. Negociações e contatos diplomáticos estão em andamento com países como Canadá, Chile e Jordânia, embora a efetivação desses acordos dependa, na prática, de investimentos e contratos entre empresas privadas. Hoje, o Brasil compra da Rússia cerca de 30% dos fertilizantes necessários para a produção.

O País possui estoque de fertilizantes para os próximos três meses, mas há preocupação com as safras que começarão a ser plantadas entre setembro e dezembro. “Estamos olhando para frente, nos antecipando aos fatos, para evitar um problema”, disse Tereza Cristina.

Na semana passada, durante reunião organizada pelo Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura (IICA), a preocupação com a falta de alimentos foi tema central do debate entre ministros da agricultura de 34 países americanos que compõem a organização. O encontro foi uma convocação de Tereza Cristina, que preside o Conselho Interamericano da Agricultura (IABA). O pedido é de que haja acesso aos principais insumos para a produção, de forma a evitar a escassez de alimentos e mitigar o aumento dos preços.

O secretário de Agricultura dos EUA, Tom Vilsack, disse que as cadeias de negócios do setor estão enfrentando um desafio sem precedentes e defendeu o trabalho em conjunto, entre os países, para facilitar o comércio e garantir a segurança alimentar. Agnes Kalibata, ex-ministra da Agricultura de Ruanda e presidente da Aliança para uma Revolução Verde na África (Agra), alertou que há grande preocupação com o avanço da fome no continente africano. “Dependemos do comércio global e mais de 50 milhões de pessoas podem ser afetadas no curto prazo”, disse. Houve consenso de que os fertilizantes devem ter o mesmo tratamento prioritário dado aos alimentos em sanções ligadas a conflitos como o atual. 

Em fevereiro, as exportações do agronegócio alcançaram uma cifra recorde e chegaram a US$ 10,51 bilhões, 65,8% mais do que em fevereiro de 2021. O Ministério da Agricultura avalia que o crescimento é reflexo do aumento dos preços dos produtos, além da alta na quantidade exportada.  

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Guerra na Ucrânia ameaça causar uma crise global de alimentos e agravar a fome, já em alta

Uma parte essencial dos alimentos e fertilizantes do mundo está presa na Rússia e na Ucrânia, elevando os preços globais e prenunciando um aumento da fome no mundo

Jack Nicas, The New York Times

22 de março de 2022 | 05h00

A guerra na Ucrânia foi um choque para os mercados globais de energia. Agora o planeta está enfrentando uma crise mais profunda: a escassez de alimentos.

Uma parte essencial do trigo, milho e cevada do mundo está presa na Rússia e na Ucrânia por causa da guerra, enquanto uma parte ainda maior dos fertilizantes do mundo está presa na Rússia e em Belarus. O resultado é que os preços globais de alimentos e fertilizantes estão subindo. Desde a invasão no mês passado, os preços do trigo aumentaram 21%, a cevada 33% e alguns fertilizantes 40%.

O transtorno é agravado por grandes desafios que já estavam aumentando os preços e apertando os suprimentos, incluindo a pandemia, restrições de transporte, altos custos de energia e recentes secas, inundações e incêndios.

Agora economistas, organizações de ajuda e funcionários do governo estão alertando para as repercussões: um aumento da fome no mundo.

O desastre iminente está expondo as consequências de uma grande guerra na era moderna da globalização. Os preços de alimentos, fertilizantes, petróleo, gás e até metais como alumínio, níquel e paládio estão subindo rapidamente – e os especialistas esperam o pior à medida que os efeitos se propagam.

"A Ucrânia só agravou uma catástrofe em cima de uma catástrofe", disse David M. Beasley, diretor executivo do Programa Mundial de Alimentos, a agência das Nações Unidas que alimenta 125 milhões de pessoas por dia. “Não há precedente sequer próximo disso desde a Segunda Guerra Mundial.”

As fazendas ucranianas estão prestes a perder épocas essenciais de plantio e colheita. As fábricas de fertilizantes europeias estão reduzindo significativamente a produção devido aos altos preços da energia. Agricultores do Brasil ao Texas estão cortando fertilizantes, ameaçando o tamanho das próximas safras.

A China, que enfrenta sua pior safra de trigo em décadas após severas inundações, planeja comprar muito mais da oferta cada vez menor do mundo. E a Índia, que normalmente exporta uma pequena quantidade de trigo, já viu a demanda externa mais que triplicar em comparação com o ano passado.

Em todo o mundo, o resultado será contas de supermercado ainda mais altas. Em fevereiro, os preços dos supermercados nos EUA já haviam subido 8,6% em relação ao ano anterior, o maior aumento em 40 anos, segundo dados do governo. Economistas esperam que a guerra inflacione ainda mais esses preços.

Para aqueles que vivem à beira da insegurança alimentar, o último aumento nos preços pode levar muitos ao limite. Depois de permanecer praticamente estável por cinco anos, a fome aumentou cerca de 18% durante a pandemia para entre 720 milhões e 811 milhões de pessoas. No início deste mês, as Nações Unidas disseram que apenas o impacto da guerra no mercado global de alimentos poderia levar de 7,6 milhões a 13,1 milhões de pessoas a passar fome.

Os custos do Programa Mundial de Alimentos já aumentaram US$ 71 milhões por mês, o suficiente para cortar as rações diárias de 3,8 milhões de pessoas. "Vamos pegar comida dos famintos para dar aos esfomeados", disse Beasley.

O aumento dos preços e a fome também apresentam uma nova dimensão potencial para a visão mundial da guerra. Eles poderiam alimentar ainda mais a raiva contra a Rússia e os pedidos de intervenção? Ou a frustração seria direcionada às sanções ocidentais que estão ajudando a aprisionar alimentos e fertilizantes?

Embora praticamente todos os países enfrentem preços mais altos, alguns lugares podem ter dificuldades para encontrar comida suficiente.

Armênia, Mongólia, Cazaquistão e Eritreia importaram praticamente todo o seu trigo da Rússia e da Ucrânia e precisam encontrar novas fontes. Mas eles estão competindo com compradores muito maiores, incluindo Turquia, Egito, Bangladesh e Irã, que obtiveram mais de 60% de seu trigo dos dois países em conflito.

E todos eles irão competir por uma oferta ainda menor porque a China, o maior produtor e consumidor mundial de trigo, deve comprar muito mais do que o normal nos mercados mundiais este ano. Em 5 de março, a China revelou que as graves inundações do ano passado atrasaram o plantio de um terço da safra de trigo do país, e agora a próxima colheita parece desoladora.

“A situação das mudas deste ano pode ser considerada a pior da história”, disse o ministro da Agricultura da China, Tang Renjian.

O aumento dos preços dos alimentos tem sido um catalisador para convulsões sociais e políticas em países pobres africanos e árabes, e muitos subsidiam produtos básicos como pão nos esforços para evitar esses problemas. Mas suas economias e orçamentos – já sobrecarregados pela pandemia e pelos altos custos de energia – agora correm o risco de ruir sob o custo dos alimentos, disseram economistas.

A Tunísia lutou para pagar algumas importações de alimentos antes da guerra e agora está tentando evitar um colapso econômico. A inflação já desencadeou protestos no Marrocos e está ajudando a estimular novos distúrbios e repressões violentas no Sudão.

“Muitas pessoas pensam que isso só significa que seus bagels ficarão mais caros. E isso é absolutamente verdade, mas não é disso que se trata”, disse Ben Isaacson, analista de agricultura de longa data do Scotiabank. Desde a década de 1970, o norte da África e o Oriente Médio têm enfrentado repetidos levantes. “O que realmente levou as pessoas a irem às ruas e protestarem?” ele disse. “Começa com a escassez de alimentos e com a inflação dos preços dos alimentos.”

Países afetados por conflitos prolongados, incluindo Iêmen, Síria, Sudão do Sul e Etiópia, já estão enfrentando graves emergências de fome que os especialistas temem que possam piorar rapidamente.

No Afeganistão, trabalhadores humanitários alertam que a crise humanitária já foi exacerbada pela guerra na Ucrânia, tornando mais difícil alimentar os cerca de 23 milhões de afegãos – mais da metade da população – que não têm o suficiente para comer.

Nooruddin Zaker Ahmadi, diretor da Bashir Navid Complex, uma empresa de importação afegã, disse que os preços estão subindo em todos os setores. Ele levou cinco dias na Rússia este mês para encontrar óleo de cozinha. Ele comprou caixas de 15 litros por US$ 30 cada e as venderá no mercado afegão por US$ 35. Antes da guerra, ele os vendeu por US$ 23.

"Os Estados Unidos pensam que apenas sancionaram a Rússia e seus bancos", ele disse. “Mas os Estados Unidos sancionaram o mundo inteiro.”

Para o mercado global de alimentos, há poucos países piores para entrarem em conflito do que a Rússia e a Ucrânia. Nos últimos cinco anos, eles juntos representaram quase 30% das exportações mundiais de trigo, 17% do milho, 32% da cevada, uma fonte crucial de ração animal, e 75% do óleo de semente de girassol, um importante ingrediente culinário em algumas partes do mundo.

A Rússia tem sido amplamente incapaz de exportar alimentos por causa de sanções que efetivamente a cortaram financeiramente. A Ucrânia, por sua vez, foi isolada fisicamente. A Rússia bloqueou o Mar Negro para exportações, e a Ucrânia não tem vagões suficientes para transportar alimentos por terra.

O que agora está se tornando mais preocupante é a próxima safra, principalmente na Ucrânia. Em 11 de março, o ministro da Agricultura da Ucrânia implorou aos aliados por 1.900 vagões de combustível, dizendo que as fazendas do país estavam sem depois que os suprimentos foram desviados para os militares. Sem esse combustível, ele disse, os agricultores ucranianos não conseguiriam plantar ou colher.

Existem outros obstáculos. As Nações Unidas estimaram que até 30% das terras agrícolas ucranianas podem se tornar uma zona de guerra. E com milhões de ucranianos fugindo do país ou se juntando às linhas de frente, poucos podem trabalhar nos campos.

O trigo russo e ucraniano não é facilmente substituído. Os estoques já estão apertados nos Estados Unidos e Canadá, de acordo com as Nações Unidas, enquanto a Argentina está limitando as exportações e a Austrália já está com capacidade total de envio. No ano passado, os preços do trigo subiram 69%. Entre outras grandes exportações de alimentos da Rússia e da Ucrânia, os preços do milho subiram 36% e os da cevada 82%.

A guerra também ameaça outro choque de longo prazo para os mercados de alimentos: a escassez de fertilizantes.

Matt Huie, um fazendeiro das proximidades de Corpus Christi, Texas, disse que os preços em alta já o forçaram a parar de aplicar fertilizantes nos campos de pastagem que nutrem suas centenas de vacas, assumindo que elas estarão mais magras no abate. Agora ele está preocupado em ter que reduzir também o fertilizante para sua próxima safra de milho, o que reduziria seu rendimento. “Entramos em território desconhecido”, ele disse.

A Rússia é o maior exportador de fertilizantes do mundo, fornecendo cerca de 15% da oferta mundial. Este mês, enquanto agricultores de todo o mundo se preparavam para o plantio, a Rússia disse a seus produtores de fertilizantes para interromper as exportações. As sanções já estavam dificultando essas transações.

As sanções também atingiram o aliado mais próximo da Rússia, Belarus, um dos principais produtores de fertilizantes à base de potássio, fundamental para muitas das principais culturas, incluindo soja e milho. Mas mesmo antes da guerra na Ucrânia, as exportações de fertilizantes de Belarus foram bloqueadas por causa de sanções sobre a apreensão de um dissidente expatriado que havia sido passageiro de um avião da Ryanair forçado a pousar no país.

Em outro sinal ameaçador para os clientes de fertilizantes, no início deste mês os produtores de fertilizantes europeus disseram que estavam desacelerando ou interrompendo a produção por causa da alta nos preços da energia. Muitos fertilizantes são feitos com gás natural.

Os principais fertilizantes do mundo mais que dobraram ou triplicaram de preço durante o ano passado.

O Brasil, maior produtor mundial de soja, compra quase metade de seu fertilizante à base de potássio da Rússia e de Belarus. Ele agora tem apenas três meses de estoques restantes. A associação nacional de produtores de soja instruiu os membros a usar menos fertilizante, se houver algum, nesta temporada. A safra de soja do Brasil, já diminuída por uma seca severa, agora provavelmente será ainda menor.

“Estão impedindo que os fertilizantes cheguem aos países produtores”, disse Antonio Galvan, presidente da associação de soja, criticando as sanções internacionais. “Quantos milhões vão morrer de fome por causa da falta desses fertilizantes?”

O Brasil vende a maior parte de sua soja para a China, que usa grande parte da safra para alimentar o gado. Menos soja, e mais cara, poderia forçar os pecuaristas a reduzir essa ração animal, o que significaria vacas, porcos e galinhas menores – e preços mais altos para a carne.

John Bakehouse, um agricultor de milho e soja em Hastings, Iowa, disse que pagou antecipadamente pelo fertilizante no final do ano passado porque estava preocupado com uma escassez iminente.

Seu fertilizante ainda não chegou e agora ele tem menos de um mês para aplicá-lo em sua safra de milho. Sem isso, ele disse, seus rendimentos seriam reduzidos pela metade.

“Sabe quando eles mostram os carros pulando em câmera lenta e os passageiros lá dentro suspensos  no ar? É assim que a gente se sente”, disse. “Estamos todos meio que suspensos no ar, esperando o carro pousar. Ninguém sabe se vai ser um pouso agradável e suave, ou se vai ser um mergulho na vala.”

A reportagem teve a contribuição de Keith Bradsher, de Pequim; André Spigariol de Brasília; Najim Rahim de Houston; e Safiullah Padshah de Cabul, Afeganistão. /TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES

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