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Brasil na era dos supercomputadores

Governo negocia com empresa francesa compra de equipamento e formação de uma joint venture para desenvolvimento tecnológico

ANDREI NETTO , CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

28 de abril de 2013 | 02h08

O Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) e o Itamaraty, por meio da Embaixada do Brasil em Paris, finalizam um acordo estratégico com o governo da França para a aquisição de um supercomputador de última geração, com transferência de tecnologia.

A decisão política para a compra da máquina, cujos cálculos podem servir do ensino em escolas públicas até a gestão de mísseis nucleares, foi selada há duas semanas pelo ministro Marco Antonio Raupp, que agora busca os recursos em diferentes pastas para financiar o contrato, avaliado em 30 milhões.

O objetivo do governo é, no futuro, colocar o Brasil no grupo de países fabricantes de supercalculadores, que inclui apenas empresas dos Estados Unidos, da França, do Japão, da China e da Rússia. O "acordo político" entre Brasília e o Palácio do Eliseu foi confirmado ao Estado pelo MCT e pelo embaixador em Paris, José Maurício Bustani, um dos entusiastas da negociação.

A máquina que interessa ao MCT é fabricada pelo Grupo Bull, um construtor francês especializado em engenharia informática profissional. Dois de seus equipamentos, os supercalculadores Tera 100 e Curie, são usados, por exemplo, pelo Comissariado de Energia Atômica (CEA), órgão especializado não só na gestão da energia nuclear para fins civis, mas também no arsenal atômico da França.

"O acordo está encaminhado", afirma Bustani, segundo quem o projeto prevê a compra do núcleo do supercalculador, seguido da criação de uma empresa franco-brasileira que "desenvolverá as próximas gerações de computadores, a serem feitas por brasileiros e franceses, associados". Se o acordo final for assinado nos próximos dois meses, como espera o embaixador, em outubro ou novembro o núcleo do equipamento poderá estar funcionando no Brasil. Depois disso, será necessário ampliar sua capacidade de acordo com as necessidades e usos do País. "Não é uma simples compra da França. É uma parceria estratégica, da mesma forma que o submarino ou como seriam os aviões Rafale. Eles ensinarão os brasileiros a fazer, e a partir desse momento, faremos juntos", diz Bustani.

Em Brasília, Raupp não quis conceder entrevista sobre o assunto. Por meio de sua assessoria de imprensa, o MCT reiterou que a aquisição do supercomputador "é uma necessidade da ciência e das empresas brasileiras" e confirmou que o acordo está encaminhado.

"Há uma decisão para a compra, pela necessidade que temos, mas a engenharia financeira dos 30 milhões ainda está sendo decidida", disse o ministério. "Não é um valor muito alto, mas o MCT não tem o dinheiro."

Receio. Do lado francês, o Grupo Bull, com sede na cidade de Issy-les-Moulineaux, na periferia de Paris, confirma a negociação, mas evita revelar os termos do acordo. Entre os diretores da empresa, o receio é de que a venda do computador repita a transação envolvendo os aviões de caça Rafale e sofra um revés pouco antes da assinatura.

"Neste momento não queremos entrar em detalhes, porque é um assunto que vem sendo discutido entre os dois governos", afirma um dos diretores da empresa, que pediu para não ser identificado enquanto o negócio não for sacramentado. "Mas haverá transferência de tecnologia, é claro, tanto de expertise quanto de know-how."

Para tanto, a empresa promete usar sua filial no Brasil, instalada há 50 anos e que conta com mais de 400 engenheiros. "Temos todas as condições de fazer com que esse know-how chegue ao brasileiro, até porque o país já tem muito know-how na área", afirma o executivo.

Modelo. Quanto ao modelo a ser vendido, existem pendências a serem definidas. Tera 100, o mais "antigo", foi lançado em junho de 2010, fruto de um investimento avaliado em 100 milhões, financiado em conjunto pela Bull e o governo francês, que o utiliza para fins militares. Na prática, tratava-se de um "cérebro" especialmente desenvolvido ligado a 4,3 mil servidores que administravam juntos 17,4 mil processadores Intel, que reunidos lhe davam uma potência de cálculo de 1,05 petaflops - um peta é igual a 250 gigabytes. Seis meses depois de pronto, o Tera 100 foi classificado como o sexto equipamento do gênero mais poderoso do mundo, segundo o ranking TOP500, especializado no tema. Em 2012, seu desempenho comparado ao dos rivais já estava em declínio: 17o.º lugar.

Essa máquina foi sucedida em fevereiro de 2012 pelo Curie, um supercomputador com o dobro da capacidade de processamento de Tera 100, criado para fins civis e militares. A expectativa da Bull é de que até 2014 a potência dos novos equipamentos seja 20 a 30 vezes maior. "Tera 100 é de 2010, Curie de 2012, são quase a pré-história", diz o executivo da Bull. "Qualquer que seja o momento do acordo será algo diferente, uma nova geração de supercomputador."

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