Brasil first!

A simples transferência de decisões tomadas nos EUA para o Brasil resultará em graves equívocos

Pedro De Camargo Neto*, O Estado de S.Paulo

18 Dezembro 2018 | 04h00

A no novo. Governo novo. Mudanças prometidas, assim como mudanças necessárias, passarão a ocorrer. É importante avaliar, debater, refletir sobre a direção que estaremos tomando.

A questão geopolítica de inserção do Brasil no mundo globalizado hoje em profunda transformação tem gerado importante polêmica. Saímos de uma proposta conhecida como Sul-Sul, em que se pretendia alinhar o País com nações em desenvolvimento e que, mesmo com dedicação e esforço diplomático, pouco ou nenhum resultado gerou para o Brasil. Caminhamos, agora, para algo novo ainda não perfeitamente compreendido.

Declarações esparsas de membros do novo governo merecem destaque e reflexão. Uma aparente má vontade do novo superministro da Economia com o Mercosul parece querer jogar a culpa nos parceiros do Brasil pela dificuldade de negociar essenciais acordos bilaterais. Vejo a ausência de resultados muito mais como fruto da incapacidade do Brasil em liderar o processo resolvendo internamente suas divergências e aplacando setores reticentes. Um Brasil decidido puxa a fila. Os parceiros certamente se acomodarão neste novo Mercosul. Alterar o mercado comum, revisar acordos internacionais, isso despende mais energia do que enfrentar o protecionismo de diversos setores internos, o que terá de ser feito de qualquer maneira.

A também má vontade com a China, desta vez de outros membros do governo, é de difícil compreensão. O país é importantíssimo investidor em infraestrutura no Brasil e, mais do que isso, grande importador de produtos agrícolas, no que se destacam a cadeia da soja há mais de duas décadas e, recentemente, as carnes. Comércio externo é, antes de tudo, desenvolvimento, geração de emprego e riqueza interna. Um parceiro que gera tanta riqueza no País exige uma especial atenção e compreensão. Nunca a má vontade que aparentemente existe.

O debate sobre a transferência da embaixada de Israel para Jerusalém me parece ainda mais confuso e complexo. Exatamente o que se deseja com isso conquistar? Posso concordar ou não com a decisão dos EUA, porém a lógica geopolítica de um país com interesses militares e econômicos na região é certamente diferente da nossa.

Os interesses econômicos do Brasil estão em inúmeros países de religião muçulmana da região que se tornaram destino de parcela significativa da carne de aves e bovina produzida aqui. O argumento que tenho escutado sobre a existência de divergências internas entre estes países árabes e de que a mudança da embaixada não incomodaria a todos não se sustenta. Incomodará muito ou pouco todos. O prejuízo com o comércio de carnes poderá ser grande ou pequeno, mas existirá. Outro argumento, de que os países árabes precisam comprar as carnes de qualquer maneira, é muito fraco. Mais do que isso, o Brasil precisa também vender, e pequenas reduções na demanda geram grandes embaraços na formação de preços, prejuízo para nossa produção, perda de renda e de emprego.

Certamente, perderemos algo importante no comércio com a polêmica mudança da embaixada. E o somatório, para ser positivo, precisaria ter um ganho claro e concreto que não consigo vislumbrar. É essencial que o novo governo explique os motivos da mudança, justificando-se perante a sociedade. Caso realmente decida pela lamentável transferência, prepare-se para o que pode ocorrer. Argumentos religiosos, num país laico, para questões de renda, emprego e comércio não se sustentam mais do que os ideológicos do passado.

Parece existir uma atração pelo presidente Donald Trump. Semelhanças entre Brasil e EUA sempre existiram. Semelhanças entre o processo eleitoral dos presidentes Trump e Bolsonaro também podem ser identificadas. A simples transferência de decisões tomadas em Washington para Brasília resultará em graves equívocos. Existem, também, enormes diferenças entre os países, em especial no poderio militar e econômico. É preciso compreender os motivos que levaram o presidente do EUA a tomar determinadas atitudes e elaborar as propostas que têm sentido para o nosso país, o que parece não estar ocorrendo. O boné do candidato Bolsonaro sempre foi verde e amarelo.

*DR. ENG., FOI PRESIDENTE DE ASSOCIAÇÕES DE CLASSE E SECRETÁRIO DO MINISTÉRIO DA AGRICULTURA

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