Pascal Rossignol/Reuters - 26/02/2022
Navio cargueiro russo em porto na França; as sanções à Rússia não atingem fertilizantes diretamente, mas dificultam os pagamentos e o transporte marítimo Pascal Rossignol/Reuters - 26/02/2022

Brasil recebe cargas de fertilizantes da Rússia, mas risco de escassez se mantém

Para especialistas, cargas recebidas até abril são de adubos que já tinham sido contratados e estavam em trânsito quando a guerra começou

Isadora Duarte, O Estado de S.Paulo

29 de abril de 2022 | 15h04

Em dois meses de guerra entre Rússia e Ucrânia, o Brasil continuou recebendo adubos russos. As remessas, porém, foram em menor volume e os prazos de entrega alongados. Trata-se de carga adquirida antes do conflito e que, em sua grande parte, já estava em trânsito no início da invasão, de acordo com analistas de mercado.

Em março, 685,8 mil toneladas de adubos russos chegaram ao Brasil, conforme dados do Comextat (serviço de estatísticas de comércio exterior do Brasil) da Secretaria de Comércio Exterior (Secex) do Ministério da Economia, 13,5% mais que o reportado no mesmo mês do ano passado. 

Os números de abril ainda não estão disponíveis, mas estimativas de mercado sinalizam para a entrada de 550 mil toneladas de fertilizantes russos no País. No primeiro trimestre do ano, o Brasil recebeu 1,788 milhão de toneladas de fertilizantes russos, de um total importado de 7,944 milhões de toneladas.

Cerca de 500 mil toneladas de fertilizantes da Rússia estavam a caminho do Brasil até a última segunda-feira, 25, segundo dados preliminares de embarques compilados pela consultoria StoneX. Desse montante, o maior volume é de cloreto de potássio (KCl), seguido por fosfato monoamônico e, em menor quantidade, de ureia

Em 14 de março, o volume de cargas russas em trânsito ao País era de 860 mil toneladas, o que mostra que cerca de 360 mil toneladas desembarcaram no Brasil neste período, sinaliza o diretor de Fertilizantes da StoneX, Marcelo Mello. "A maior parte dos embarques efetuados após o início da guerra já estava programada para exportação antes da invasão", diz.

O fornecimento, contudo, não seguiu normalmente ao longo do período. Mello pontua que logo após a eclosão da guerra, no início de março, houve um primeiro sobressalto no fluxo de exportações russas. 

"Assim que começou a guerra, o fluxo de novos embarques foi praticamente a zero. Mas as sanções deixaram espaço para que algum embarque fosse efetuado. Agora, aparentemente, os embarques começaram a fluir e estão tentando retomar a logística pelo Mar Negro", explica o analista, acrescentando que essas remessas são em volume ainda baixo na comparação com o anterior à guerra em virtude das rupturas na cadeia logística. "Há muitas indefinições. Possivelmente teremos uma visão mais clara do fluxo de fertilizantes efetivo da Rússia ao Brasil somente nas estatísticas de junho a setembro da Secex.".

Analista de Insumos do Rabobank Brasil, Bruno Fonseca reforça que a maior parte dos embarques foram feitos antes do conflito, já que o trânsito de cargas do Leste Europeu ao Brasil e desembarque nos portos leva de 45 a 60 dias. "Até o início de abril, continuou fluindo e não houve problemas na chegada. Os números de importação continuam normais porque as cargas saíram antes do conflito", aponta Fonseca. "Daqui para frente precisaremos observar, pois a situação logística continua complicada e há relatos de que algumas fábricas russas diminuíram a produção", pondera.

O fornecimento de fertilizantes russos ao País é uma das principais preocupações do agronegócio brasileiro, já que a Rússia representa cerca de 22% do volume consumido pelas indústrias brasileiras. 

As incertezas da indústria permanecem, segundo o diretor-executivo da Associação Nacional para Difusão de Adubos (Anda), entidade que representa as empresas do setor, Ricardo Tortorella. "Até onde sabemos, as compras iniciadas no início do ano fluíram, os embarques ocorreram e estão chegando dentro de certa normalidade. Até o momento, tudo o que foi comprado anteriormente tem sido entregue. A preocupação é com eventuais problemas com compras feitas no período após o início da guerra em virtude de entraves para pagamentos e logística. É um ponto de atenção", afirma Tortorella. "A grande preocupação é com as sanções que podem ser impostas pelo Ocidente sobre a Rússia", acrescenta.

Apesar da adversidade, a Anda não fala em risco de desabastecimento para o País neste ano. "O atual cenário exige cautela. O sinal amarelo está ligado e deve seguir assim. Mas, por ora, os embarques estão fluindo, mesmo com fluxo arrefecido", considera Tortorella. 

De acordo com o executivo, a chegada de fertilizantes da Rússia ao Brasil é considerada próxima do esperado. Para Tortorella, as perspectivas para a safra 2022/23 ainda são "muito positivas". "Continuamos prevendo uma safra recorde . Acreditamos nisso e não vemos razão de risco para esta safra, mesmo com a situação geopolítica não sendo resolvida", destaca.

Já os analistas ouvidos pela reportagem veem risco mais concreto de comprometimento ao abastecimento de adubos para a safra 2022/23 do País. "Com o prolongamento do conflito e das sanções econômicas, maior será o risco (de faltar produto). Por mais que haja casos de pagamento antecipado e fluxo de determinado volume, não será suficiente", avalia Fonseca, do Rabobank, acrescentando que somente um eventual fim das sanções permitirá a retomada de maior fluxo de exportações russas.

Na avaliação de Fonseca, o maior risco de desabastecimento é para o cloreto de potássio (KCl), com incertezas também no volume de nitrogenados e de fosfatados, considerando a conjuntura global de oferta dos nutrientes. "O KCl soma-se à impossibilidade de Belarus exportar. No caso dos fosfatados, ainda não há indicação da China em retomar as exportações", pontua. 

O Rabobank ainda não estima volume específico de falta para cada produto. "Ainda é cedo para mensurar. Precisamos de cautela para ver como foram embarques nas últimas semanas e como serão nas próximas, o que vai definir se haverá e como será o provável déficit de fertilizantes", afirma o analista.

Na mesma linha, Mello, da StoneX, avalia que o ativo mais crítico continua sendo o KCl, em virtude da oferta restrita também por parte de Belarus e pelo elevado volume aplicado nas lavouras brasileiras. Juntas, Rússia e Belarus respondem por 40% do KCl importado pelo Brasil. O nutriente representa um terço dos adubos aplicados anualmente na agricultura do País. 

A StoneX estima que haverá escassez de 25% a 30% do insumo no País para a safra 2022/23, plantada a partir de setembro. Para fosfatados, como o fosfato monoamônico (MAP), que 31% do consumido no País vem da Rússia, a consultoria vê "risco concreto de desabastecimento", em volume que ainda dependerá das remessas russas feitas para o Brasil nas próximas semanas. 

"Ainda não se sabe se faltará MAP ou não. Em cenário de falta, pode ser redução semelhante a do Kcl, na ordem de 30%", ressalta Mello. Em contrapartida, a StoneX não enxerga problema no abastecimento de ureia ao Brasil, enquanto vê "risco inevitável" de falta de nitrato de amônio (NAM) - este que pode ser substituído, em parte, por ureia e outros nitrogenados.

Esses riscos, segundo Mello, derivam de problemas que continuarão ocorrendo no escoamento dos adubos mesmo em cenário de eventual arrefecimento do conflito e das sanções. "Antes da guerra, tínhamos uma rodovia estruturada com cinco faixas, asfaltada, com telefone e internet. Agora, temos uma picada esburacada", compara o analista. 

Ele também avalia que alternativas estudadas pela Rússia, como exportar em rublo russo e utilizar navios de bandeira nacional para transporte, não serão suficientes para viabilizar o embarque de todas cargas. "Ainda irão chegar algumas cargas desses adubos, mas não no volume e no tempo necessário para a safra de verão 2022/23. Todo ano há um ou outro gargalo pontual de entregas. Neste ano, será um problema mais sério, de ordem internacional", aponta. Ele pondera, entretanto, que o eventual déficit dos insumos, se bem equalizados, tende a não prejudicar a produtividade da safra, já que há reservas dos insumos fixadas nos solos já cultivados.

Outro ponto que chama a atenção dos analistas é o baixo ritmo de comercialização antecipada dos fertilizantes para a safra de verão. Produtores seguraram as compras na expectativa de arrefecimento nas cotações a partir do segundo trimestre deste ano – movimento que foi revertido pela guerra. Isso significa que há volume expressivo para ainda ser travado para a safra de verão. 

"Ainda temos uma pequena margem de segurança porque o pico das importações começa em maio. Mas é difícil pensar na regularização dos embarques, com a resolução do conflito e o fim das sanções, antes do fim de maio para ter retomada dos embarques e importação", diz Fonseca, do Rabobank. 

Já Mello, da StoneX, acredita que os adubos deveriam estar saindo neste momento da Rússia para chegar em tempo para a safra de verão, considerando transporte marítimo, desembaraço de descarregamento, mistura pelas fabricantes e entrega dos produtos finais aos produtores.

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Preços dos adubos no Brasil sobem até 53% desde o início da guerra na Ucrânia

Sem sinal do fim do conflito, especialistas acreditam que os preços devem continuar elevados pelo menos até o meio do ano, quando os produtores rurais começam a comprar insumos para a próxima safra

Isadora Duarte, O Estado de S.Paulo

29 de abril de 2022 | 15h00

Os preços dos adubos importados acumulam alta de até 53% no Brasil desde o início da guerra entre Rússia e Ucrânia, há cerca de dois meses. O impacto varia a depender do nutriente, mas o ponto comum é o fato de que nenhum dos principais produtos aplicados nas lavouras passou ileso da volatilidade do mercado global de fertilizantes. A perspectiva é de que as cotações permaneçam elevadas, próximas ao patamar atual, pelo menos no médio prazo, segundo analistas de mercado.

De 24 de fevereiro, início da invasão russa ao território ucraniano, até a última quinta-feira, 21, o preço do cloreto de potássio (KCl) importado aumentou 53%, de acordo com levantamento divulgado pela consultoria StoneX. Na data, o KCl atingiu US$ 1.208,30 por tonelada no Brasil. 

Já o valor praticado da ureia, referência para nitrogenados, avançou 46% na mesma base comparativa, para US$ 856,70 por tonelada. O fosfato monoâmonico (MAP) subiu 39% na mesma base comparativa, para US$ 1.253,30 por tonelada. 

Os dados são os mais recentes do mercado e atualizados semanalmente. "O impacto nos preços é inevitável porque a Rússia representa 16% do mercado global de fertilizantes, o que significa tirar uma fatia relevante de oferta", avalia o diretor de Fertilizantes da StoneX, Marcelo Mello.

O reflexo nos preços deve-se à elevada participação da Rússia no mercado global de adubos e das consequentes incertezas sobre a capacidade do país de manter suas exportações em meio à guerra. A Rússia é o segundo maior exportador de nitrogenados do mundo e terceiro maior exportador global de fosfatados e potássicos, com participação de 16% no mercado global de adubos. 

Para o Brasil, a Rússia fornece aproximadamente 22% do volume de fertilizantes consumidos e é a principal origem das importações.

Analista de Insumos do Rabobank Brasil, Bruno Fonseca aponta que o dólar contribuiu para amenizar a alta das cotações nas últimas semanas. De acordo com ele, houve uma desaceleração após os preços dispararem no início do conflito e baterem recordes sucessivos. "As cotações estão subindo menos porque tendem a atingir certo patamar que derruba a demanda. Há um limite na demanda para aumento dos preços", disse.

Preços elevados

Entretanto, sem sinais de um cessar-fogo entre os países do Leste Europeu, a perspectiva é de que as cotações internacionais dos adubos continuem próximas ao patamar atual. "Há uma boa parcela de oferta 'fora' do mercado, o que vai sustentar o preço até meados de junho e julho ou enquanto as sanções estiverem vigentes. Para o potássio, ainda há fôlego para subir mais em virtude da ausência também de Belarus do mercado", avalia Fonseca. 

Essa estimativa de médio prazo coincide com o período de aquisição de fertilizantes para a safra de grãos de verão do Brasil, o que corrobora a perspectiva de encarecimento do custo destes insumos para a temporada 2022/23.

Outro fator que pode interferir nos preços no curto e médio prazo é a volatilidade do mercado. Mello, da StoneX, observa que as incertezas continuam presentes e o mercado ainda busca entender os efeitos da guerra no setor. 

"O mercado continua estressado, sem saber o que realmente está ocorrendo e tentando digerir os impactos do conflito sobre as exportações russas de fertilizantes. É muito mais que uma questão de preço. É uma questão de conseguir trazer o produto", afirma Mello.

De acordo com o analista, apesar de os fertilizantes não estarem inclusos diretamente nas sanções europeias e norte-americanas à Rússia, os embargos comprometeram os pagamentos em dólar, inviabilizou a ação de alguns bancos russos e prejudicou o transporte dos insumos tanto pelo Mar Negro como, em menor proporção, pelo Mar Báltico. "Além disso, os custos de frete marítimo para cargas russas subiram expressivamente. Nenhum armador e companhia marítima quer ir para lá", diz o analista.

Nesse cenário nebuloso, produtores que têm recursos tentam até mesmo antecipar  pagamentos a fim de garantir o insumo, enquanto as empresas misturadoras limitam as vendas por lotes determinados à medida que garantem o volume com fornecedores externos, relata Fonseca, do Rabobank. "Por enquanto, o mercado doméstico enfrentou forte aumento de preços, mas a incerteza se haverá ou não produto ainda é muito grande, com maior risco de falta", ressalta.

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