Helvio Romero/Estadão
Helvio Romero/Estadão

Brasil já colheu 90% dos efeitos do bônus demográfico, diz Samuel Pessoa

Pesquisador da FGV avalia que não há razão para otimismo quanto ao fato de grande proporção da população brasileira estar em idade para trabalhar; para ele, tempo de colher bons resultados passou

Álvaro Campos, Ricardo Leopoldo, O Estado de S. Paulo

08 Maio 2015 | 14h57

Quase 90% dos efeitos do bônus demográfico brasileiro já foram colhidos, segundo o pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV) Samuel Pessoa. O economista afirmou, durante debate sobre política fiscal no Insper nesta sexta-feira, 8, que não há razão para ser muito otimista em relação a esse assunto nos próximos anos.

Pessoa explicou que, do ponto de vista econômico, o que importa é diferença entre a taxa de crescimento da população economicamente ativa e a população total. Sob esse critério, o Brasil teria apenas mais "uns quatro, cinco anos" de bônus demográfico. "Nos próximos anos teremos um restinho do bônus demográfico, que vai despencar. Então, 90% dos efeitos já foram colhidos", comentou. 

Um efeito que pode ser considerado como um segundo bônus demográfico está associado ao impacto da estrutura etária da população no incentivo a poupar. Ou seja, com o envelhecimento da população, a poupança tenderia a aumentar, já que pessoas entre os 40 e 65 anos tendem a economizar mais. O problema é que isso já deveria estar ocorrendo desde a década de 1970, mas na verdade a taxa de poupança brasileira tem caído.

"A taxa de poupança despencou porque, junto com a colheita do segundo bônus demográfico, ocorreu a redemocratização, que gerou uma enorme pressão sobre o gasto social, com a demanda para construir nosso estado de bem estar social, que representa quase 15% do PIB", explicou Pessoa.

O pesquisador deixou claro que, sob qualquer critério, a sociedade brasileira poupa muito pouco. Além disso, diferentemente do que ocorre nos países asiáticos, por exemplo, a poupança aqui não responde a ciclos de aceleração do crescimento, o que permitiria períodos mais longos e sustentáveis de expansão econômica. "No Brasil é o contrário, o que significa que o investimento precisa ser financiado por poupança externa e na primeira reversão disso o ciclo de crescimento é abortado antes de se tornar longo", comenta.

Há ainda um terceiro bônus demográfico, que é o fato de que, com o envelhecimento da população, nascem menos crianças e assim seria mais fácil melhorar a qualidade da educação. Neste caso, também, Pessoa se mostra pessimista. Ele apontou que o gasto do governo com idosos (basicamente com a Previdência) é cerca de 13% do PIB, enquanto o gasto com as crianças (educação e Bolsa Família) soma quase 6%. Como a população de crianças ainda é muito maior que a de idosos, o gasto per capita com a camada mais jovem da população é bem menor. "Para cada criança que deixa de nascer, é como se o Brasil ganhasse três idosos", brinca. 

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