Brasil lança candidato para chefiar a OMC

Embaixador Roberto Azevedo disputará cargo em momento em que Brasil é criticado por práticas protecionistas

JAMIL CHADE, CORRESPONDENTE / GENEBRA, O Estado de S.Paulo

29 de dezembro de 2012 | 02h02

Com uma plataforma desenvolvimentista, o Brasil lança sua candidatura para ocupar o posto máximo do comércio mundial, o de diretor da Organização Mundial do Comércio (OMC), justamente no momento em que é mais criticado por sua postura protecionista. Ontem, a presidente Dilma Rousseff anunciou a candidatura do embaixador Roberto Azevedo para o cargo.

A disputa será intensa. Pela primeira vez, nove países apresentaram nomes para ocupar um dos postos mais disputados no sistema multilateral. A eleição ocorrerá entre os dias 31 de março e 31 de maio de 2013 e o vencedor assume o cargo em setembro. Dilma esperou até o último dia para anunciar a candidatura brasileira, alegando que iria primeiro avaliar se os nomes apresentados atendiam ou não os interesses nacionais.

A missão de Azevedo será dura: ressuscitar e concluir a Rodada Doha, que há 12 anos vive um impasse e é dada por muitos como o maior fracasso da diplomacia comercial em décadas. Mas a campanha será lançada no momento em que o Brasil é acusado de não respeitar o acordo do G-20 de congelar barreiras comerciais e de estar indo na direção contrária ao que seria a Rodada Doha, que justamente prega a abertura de mercados.

Mas com uma posição protecionista, observadores em Genebra alertam que o Brasil poderá ter sua candidatura bombardeada. Nos últimos seis meses, o Brasil liderou no número de barreiras criadas no mundo. Para a Câmara Internacional de Comércio, o Brasil é hoje a economia mais fechada do G-20 em termos comerciais.

Em comunicado de ontem, o Itamaraty não citou a abertura de mercados como seu objetivo. A opção foi por uma plataforma com forte acento sobre o desenvolvimento e a capacidade de todos os países serem considerados nas decisões da OMC.

"O Brasil tem defendido o crescente engajamento dos membros para o cumprimento dos objetivos da organização, com vistas à melhoria dos padrões de vida, à garantia ao pleno emprego e de renda, à expansão da produção e do comércio, bem como ao uso dos recursos disponíveis em conformidade com o desenvolvimento sustentável", indicou a nota. "A candidatura brasileira representa a importância atribuída pelo País ao fortalecimento da OMC", completou.

Divisão. Essa é a segunda vez em dez anos que o Brasil concorre ao cargo. Na primeira ocasião, o diplomata Luis Felipe de Seixas Correa foi apresentado como forma de evitar que um nome uruguaio saísse vencedor. O Brasil, naquele momento, desconfiava que o uruguaio defendesse a posição de países desenvolvidos. Funcionou: o Brasil acabou rachando a América Latina. Mas o vencedor foi o francês Pascal Lamy, que por anos defendeu subsídios e proteção.

Agora, mais uma vez a América Latina se dividiu. Além de Azevedo, a região tem candidatos do México e da Costa Rica, países que vem adotando uma postura mais aberta ao comércio. Ontem mesmo, embaixadores da América do Sul já apontavam que o continente não terá uma coesão na busca pelo cargo.

Uma regra não escrita é a de que, depois de a OMC ser ocupada por oito anos por um representante de um país rico, agora seria a vez dos emergentes. Além disso, pelas reformas acordadas pelo G-20, os emergentes teriam mais espaço nos organismos internacionais. Com FMI e Banco Mundial nas mãos de Europa e Estados Unidos, a OMC ficaria para os emergentes.

Não por acaso, praticamente todos os candidatos são de países em desenvolvimento: Jordânia, Gana, Quênia, Indonésia e Coreia, além de Costa Rica, Brasil e México. O único candidato de país rico é da Nova Zelândia.

Mas Azevedo conta com um apoio fundamental: o da China. Ao Estado, altos funcionários de Pequim revelaram que os chineses estariam dispostos a apoiar o nome do brasileiro. Maior parceiro comercial do mundo, a China passou a ter um peso fundamental nas decisões internacionais. Azevedo também seria um nome bem aceito pelos países ricos, ainda que a disputa pelo voto de Estados Unidos e Europa será intenso.

Um dos pontos fortes de sua campanha será sua vasta experiência de 20 anos. Ele liderou a criação de um departamento de disputas comerciais no Itamaraty, chefiou a campanha da Embraer na disputa contra a Bombardier, venceu casos contra os subsídios agrícolas dos EUA e Europa e participa desde o início da Rodada Doha.

Mas não faltarão obstáculos à candidatura brasileira. O primeiro é o fato de o País já comandar a FAO. Ter a OMC também nas mãos significaria um controle sobre políticas agrícolas que poderia gerar insatisfações. Outro complicador é o fato de o Brasil ter insistido na inclusão do tema cambial na agenda da OMC, um ponto que desagrada países ricos e emergentes. Agora, o temor é de que Azevedo tenha de atender à pressão de Brasília e, como diretor, incluir o assunto de volta na agenda.

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