Brasil mantém tarifa do trigo após medida argentina

O Brasil decidiu nestaterça-feira manter a tarifa de 10 por cento para compras detrigo fora do Mercosul, de acordo com decisão tomada porministros integrantes da Câmara de Comércio Exterior (Camex). Segundo o ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, adecisão foi tomada para uma melhor avaliação da medida daArgentina, principal fornecedora de trigo aos moinhosbrasileiros, de reabrir as exportações desse cereal. O anúncio da reabertura dos registros de exportação detrigo da Argentina, fechados desde o final do ano passado, foifeito nesta terça-feira, horas antes da reunião da Camex. Osargentinos concederão licenças para vendas externas adicionaisde 2 milhões de toneladas. "Há um fato novo, a Argentina hoje reabriu as exportações.Temos que analisar o volume, ver se isso efetivamente abasteceou não (o Brasil), porque a nota (da Argentina) que nós temosnão é detalhada", afirmou Stephanes a jornalistas, após areunião da Camex. A redução da tarifa, que se daria pela inclusão do trigo nalista de exceções do Mercosul, é uma reivindicação da indústriade trigo do Brasil, que afirma que, diante das restrições naArgentina, fica muito caro comprar o trigo nos países dohemisfério norte, pagando uma taxa adicional. Apesar de dizer que o governo poderá tomar uma decisãosobre a tarifa assim que avaliar o impacto da decisãoargentina, o ministro da Agricultura não especificou se issoserá discutido na próxima reunião da Camex. Não foi estabelecido um prazo para a avaliação da decisãoargentina pelo governo brasileiro. Questionado se o volume de 2 milhões de toneladas serásatisfatório, ele respondeu: "Em princípio, sim". O ministro disse ainda que a decisão argentina de reabriros registros ocorreu após o ministro da Fazenda do Brasil,Guido Mantega, telefonar para o colega argentino. A notícia da reabertura dos registros reverteu a tendênciado trigo nas bolsas de Chicago e Kansas City, que começaram emforte alta nesta terça com informações de que o Brasil poderiareduzir a tarifa para compras do cereal fora do Mercosul. O governo da Argentina havia limitado as exportações detrigo no ano passado como uma maneira de proteger os estoquesinternos do país, quarto maior exportador mundial de trigo esegundo maior fornecedor de milho. As fortes geadas em novembro levantaram preocupações de quea produção 2007/08 de trigo seria drasticamente reduzida, e osregistros, reabertos por um curto período no final do anopassado, foram fechados novamente naquela oportunidade. Mas agora, com a colheita encerrada, a Secretaria deAgricultura da Argentina considerou que as lavouras nãosofreram tantos danos pelas geadas como se acreditava, e que opaís terá um saldo de 2 milhões de toneladas para exportar. "Essa reabertura e a metodologia dos registros de operaçõesinstala as condições para a comercialização internacional, quetem o Brasil como principal demandante", afirmou um comunicadoda Secretaria de Agricultura nesta terça-feira. Houve também uma mudança no sistema de emissão dosregistros, que agora serão limitados a 400 mil toneladas detrigo por mês pelos próximos cinco meses, sendo queexportadores ficarão limitados a um máximo diário de 12 miltoneladas, explicou a secretaria em comunicado. O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA)estima que as exportações de trigo da Argentina em 2007/08poderiam chegar a 10 milhões de toneladas, pouco abaixo dos10,5 milhões de toneladas exportadas em 2006/07. O órgão estimaa colheita em 15 milhões de toneladas. Pouco mais de 7 milhões de toneladas do cereal tinha sidoregistrado para exportação no curto período em que as licençasforam emitidas antes das geadas, de acordo com o governo. O Brasil obteve registros para compras na Argentina de 3milhões de toneladas em 2007/08, contra importação de 5,6milhões na temporada anterior. O governo argentino ainda liberou registro de exportaçõesde milho para embarques a partir de 15 de fevereiro. BRASIL A simples possibilidade de compras do Brasil fora doMercosul elevou os futuros do trigo dos EUA no início dosnegócios desta terça, uma vez que o Brasil poderia se tornar umcomprador mais importante no mercado norte-americano. Entretanto, diante da reabertura dos registros naArgentina, ficam reduzidas, em tese, as possibilidades de oBrasil realizar grandes compras de trigo nos EUA. "A Argentina fecha, brinca com o Brasil, tradicionalcomprador de trigo... do jeito que está brincando, o governobrasileiro não tem outra opção", afirmou o presidente doConselho Deliberativo da Abitrigo (Associação Brasileira daIndústria do Trigo), Luiz Martins, por telefone, antes dedecisão da Camex. "Acho que o governo argentino continua brincando com ogoverno brasileiro", acrescentou ele, referindo-se à decisãoargentina de reabrir os registros pouco antes da reunião. Apesar da reabertura dos registros, ele disse que o Brasildeveria atender à reivindicação da indústria nacional dereduzir a tarifa, considerando que a medida argentina não serásuficiente para atender à demanda brasileira. De acordo com Martins, não apenas o Brasil buscará compraro volume de trigo (2 milhões de toneladas) liberado paraexportação. Ou seja, outros países continuarão comprando otrigo argentino, reduzindo a oferta para os moinhosbrasileiros. "Não virão todos os 2 milhões (ao Brasil). Isso tudo se dáem função da ameaça do governo brasileiro de colocar o trigo nalista de exceção (de produtos isentos de tarifas paraimportação fora do Mercosul)", observou Martins. (Com reportagem adicional de Helen Popper e NicolásMisculin em Buenos Aires e Roberto Samora em São Paulo)

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