Alex Silva/Estadão
Rubens Ricupero Alex Silva/Estadão

Brasil na OCDE: ‘Estamos colhendo a humilhação pública depois de todo festejo’, diz Ricupero

Ex-ministro da Fazenda afirma que governo Trump não é confiável e promessa de apoio saiu após uma ‘conversa’

Luciana Dyniewicz, O Estado de S.Paulo

11 de outubro de 2019 | 08h29

Para Rubens Ricupero, ex-embaixador nos EUA e ex-ministro da Fazenda, a promessa de apoio dos EUA ao Brasil na candidatura à Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) foi feita de modo improvisado e não haverá surpresa se Donald Trump não cumprir com a palavra que deu ao presidente Jair Bolsonaro. “Trump não é confiável.” O diplomata é contra a adesão do País à OCDE Leia a entrevista. 

É surpresa a Argentina ter sido indicada antes do Brasil?

Os americanos fizeram essa promessa (de apoio ao Brasil) numa conversa, sem uma negociação calma, levando em conta as consequências. O que se vê agora é que o Brasil trocou algo concreto (o status de país em desenvolvimento na Organização Mundial do Comércio) por um vazio (a promessa de apoio na OCDE), como a maioria do que foi anunciado naquela visita (de Bolsonaro aos EUA). Não surpreende, porque o governo Trump não é confiável. Se estão dispostos a abandonar os curdos, que deram o sangue para ajudar os americanos contra o Exército Islâmico, imagina se iriam ser fiéis ao Brasil, que não fez por eles nada que precisem agradecer.

O que o Brasil perde sem ter recebido a indicação agora?

Minha posição é contrária ao ingresso na OCDE. Essa é uma antiga aspiração dos economistas liberais. Somos um país subdesenvolvido e não é por entrar na OCDE que vamos deixar de ser. O Brasil tem de ter sua posição internacional ao lado de outros países em desenvolvimento. Nas questões de comércio mundial, as regras são muito desequilibradas. Devemos invocar o fato de que nossa economia está longe de ser avançada e, por isso, não temos condições de fazer concessões que se exigem dos outros. É balela dizer que o ingresso na OCDE garante um selo de boas políticas econômicas. A Grécia, que faliu, é um membro.

Pode realmente haver uma expansão dos membros da OCDE?

Os EUA não querem uma expansão rápida porque representaria o ingresso de muitos candidatos apoiados pelos europeus. Eles dizem que uma ampliação rápida transformara a OCDE em uma organização de padrões mais baixos. Acho um erro completo querer ingressar. Agora, estamos colhendo essa humilhação pública depois de terem feito todo esse festejo (quando foi anunciado o apoio dos EUA). Além do mais, isso é perda de tempo, porque duvido que França e Alemanha deixem de criar dificuldades no ingresso do Brasil. Para ingressar na OCDE, o país tem de estar de acordo com as regras cambiais, de movimento de capitais, de meio ambiente. Tem um comitê muito forte na OCDE de políticas ambientais. Não vejo como o Brasil poderia passar nesse comitê com o que está acontecendo na Amazônia. 

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Brasil na OCDE: ‘Estamos colhendo a humilhação pública depois de todo festejo’, diz Ricupero

Ex-ministro da Fazenda afirma que governo Trump não é confiável e promessa de apoio saiu após uma ‘conversa’

Luciana Dyniewicz, O Estado de S.Paulo

11 de outubro de 2019 | 08h29

Para Rubens Ricupero, ex-embaixador nos EUA e ex-ministro da Fazenda, a promessa de apoio dos EUA ao Brasil na candidatura à Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) foi feita de modo improvisado e não haverá surpresa se Donald Trump não cumprir com a palavra que deu ao presidente Jair Bolsonaro. “Trump não é confiável.” O diplomata é contra a adesão do País à OCDE Leia a entrevista. 

É surpresa a Argentina ter sido indicada antes do Brasil?

Os americanos fizeram essa promessa (de apoio ao Brasil) numa conversa, sem uma negociação calma, levando em conta as consequências. O que se vê agora é que o Brasil trocou algo concreto (o status de país em desenvolvimento na Organização Mundial do Comércio) por um vazio (a promessa de apoio na OCDE), como a maioria do que foi anunciado naquela visita (de Bolsonaro aos EUA). Não surpreende, porque o governo Trump não é confiável. Se estão dispostos a abandonar os curdos, que deram o sangue para ajudar os americanos contra o Exército Islâmico, imagina se iriam ser fiéis ao Brasil, que não fez por eles nada que precisem agradecer.

O que o Brasil perde sem ter recebido a indicação agora?

Minha posição é contrária ao ingresso na OCDE. Essa é uma antiga aspiração dos economistas liberais. Somos um país subdesenvolvido e não é por entrar na OCDE que vamos deixar de ser. O Brasil tem de ter sua posição internacional ao lado de outros países em desenvolvimento. Nas questões de comércio mundial, as regras são muito desequilibradas. Devemos invocar o fato de que nossa economia está longe de ser avançada e, por isso, não temos condições de fazer concessões que se exigem dos outros. É balela dizer que o ingresso na OCDE garante um selo de boas políticas econômicas. A Grécia, que faliu, é um membro.

Pode realmente haver uma expansão dos membros da OCDE?

Os EUA não querem uma expansão rápida porque representaria o ingresso de muitos candidatos apoiados pelos europeus. Eles dizem que uma ampliação rápida transformara a OCDE em uma organização de padrões mais baixos. Acho um erro completo querer ingressar. Agora, estamos colhendo essa humilhação pública depois de terem feito todo esse festejo (quando foi anunciado o apoio dos EUA). Além do mais, isso é perda de tempo, porque duvido que França e Alemanha deixem de criar dificuldades no ingresso do Brasil. Para ingressar na OCDE, o país tem de estar de acordo com as regras cambiais, de movimento de capitais, de meio ambiente. Tem um comitê muito forte na OCDE de políticas ambientais. Não vejo como o Brasil poderia passar nesse comitê com o que está acontecendo na Amazônia. 

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Não indicação à OCDE: ‘Para o Brasil é ruim, pois atrasa o processo de adesão’, diz Rubens Barbosa

Ex-embaixador diz que países não têm amigos e sim interesses e que os EUA fizeram o que é conveniente para eles

Luciana Dyniewicz , O Estado de S.Paulo

11 de outubro de 2019 | 08h29

O fato de o Brasil não ter sido indicado agora pelos EUA para a OCDE mostra que os americanos priorizarão seu interesse de não aumentar o número de membros do bloco. “Os países não têm amigos, têm interesses. Como era mais fácil os EUA seguirem seu interesse? Indicando a Argentina (...), que não poderá cumprir os compromissos exigidos pela OCDE”, disse o ex-embaixador em Washington Rubens Barbosa. A seguir, trechos da entrevista. 

A Argentina havia pedido apoio dos EUA antes do Brasil. Era natural que fosse indicada antes?

Minha interpretação é que, como o pedido da Argentina era mais antigo e o país está em uma situação muito ruim, não vai entrar tão cedo na OCDE, resolveram apoiar a Argentina. Os EUA são contra o aumento do número de países membros da OCDE. Se apoiassem o Brasil, que já está aderindo a convenções da organização, seria um processo mais rápido. Isso não quer dizer que, no futuro, os EUA não venham a apoiar o Brasil. Agora, tudo isso mostra que os países não têm amigos, têm interesses. Os EUA colocaram em primeiro lugar o interesse deles, que é não aumentar o número de países. Como era mais fácil seguir o interesse deles? Indicando a Argentina, que está muito debilitada. Ela não vai poder cumprir os compromissos que são exigidos dos países que pretendem entrar na OCDE. O que ficou meio negativo foi os EUA terem preterido o Brasil pela Argentina na situação atual da Argentina.

A estratégia americana então é não mexer no bloco, apesar da indicação?

Você pode interpretar isso. Como eles são contra o aumento, colocaram dois países que terão dificuldade de cumprir as regras. Para o Brasil é ruim. Atrasa o processo de adesão.

Quando pode haver nova indicação de países?

É de tempos em tempos, mas não sei se há um cronograma.

O fato de o Brasil ter sido preterido indica que o País trocou o certo, o status de país em desenvolvimento na Organização Mundial do Comércio (OMC), pelo extremamente duvidoso?

Isso mostra o que disse antes, que os países não têm amigos, têm interesses. Você tem de defender o seu interesse. O Brasil não abriu mão do status de país em desenvolvimento. O que o Brasil concordou com os americanos foi abrir mão do tratamento especial e diferenciado, que é muito localizado na questão dos acordos comerciais, como tempo especial (para se adequar a uma norma). Agora, como os EUA não cumpriram isso, o Brasil pode voltar atrás também se quiser. Acho que o Brasil não vai fazer isso, mas pode. Se não houve o apoio ao Brasil agora – e eu não vejo num futuro próximo o pedido de o Brasil ser atendido –, aí o País fica livre para modificar essa posição. 

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EUA dizem manter apoio ao Brasil na OCDE, mas não falam em prazo

Secretário de Estado americano havia se posicionado a favor da entrada da Argentina e da Romênia no grupo, mas não se manifestou sobre País

Beatriz Bulla, correspondente, O Estado de S.Paulo

10 de outubro de 2019 | 18h16
Atualizado 11 de outubro de 2019 | 08h33

WASHINGTON - Os Estados Unidos dizem manter o apoio à entrada do Brasil na Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), mas não se pronunciaram até o momento sobre o prazo em que o apoio formal ao processo de entrada do País deve acontecer. A manifestação acontece depois de a agência Bloomberg revelar carta em que o Secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, se posiciona a favor da entrada da Argentina e da Romênia no grupo, sem citar o apoio ao Brasil.

Um porta-voz da área assuntos do Hemisfério Ocidental do Departamento de Estado afirmou que os EUA “continuam a manter a declaração” de 19 de março, quando o presidente Donald Trump “afirmou claramente o apoio ao Brasil para iniciar o processo e se tornar um membro pleno da OCDE”.

No mesmo comunicado, o Departamento de Estado diz que os EUA “continuarão a trabalhar com outros membros da OCDE para encontrar um caminho para a expansão da organização”.  “Apoiamos a expansão da OCDE a um ritmo que considere a necessidade de pressionar reformas de governança e o planejamento da sucessão. Continuaremos a trabalhar com os outros membros da OCDE para encontrar um caminho para a expansão da instituição. Todos os 36 países membros da OCDE devem concordar, por consenso, com o calendário e a ordem dos convites para iniciar o processo de adesão à OCDE”, afirmam os EUA.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou na noite desta quinta-feira, 10, em sua conta no Twitter que a declaração conjunta divulgada em março com o presidente Jair Bolsonaro deixa "absolutamente claro" que ele apoia o início do processo pelo Brasil para se tornar um membro integral da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

"Os EUA mantêm aquela declaração e mantêm [seu apoio] a Jair Bolsonaro", escreveu Trump. Ele também chama de "fake news" um artigo da Bloomberg a que remete em seu tuíte com o título "EUA rejeitam tentativa do Brasil na OCDE após endossá-la publicamente".

Em mais um comunicado divulgado no início da noite, o secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, afirmou que a carta “não representa de forma precisa a posição dos EUA a respeito da expansão da OCDE”. “Nós somos apoiadores entusiasmados da entrada do Brasil”, escreveu Pompeo, que disse ainda que os EUA “farão esforços para apoiar o acesso” do País à OCDE.

“Ao contrário do reportado pela mídia, os EUA, consistentes com o comunicado conjunto dos presidentes Trump e Bolsonaro em Março, apoia por completo o começo do processo do Brasil para se tornar um membro pleno da OCDE”, escreveu Pompeo.

O americano não mencionou prazos ou a razão para dar preferência, neste momento, à entrada de outros países.

Apesar de a manifestação em março de apoio dos EUA à entrada do Brasil na OCDE, seguida de outros momentos em que o apoio foi verbalizado por autoridades do governo Trump, os americanos não chegaram a estabelecer publicamente um prazo ou cronograma para que isso aconteça. O governo Trump trava uma queda de braço com o atual secretário-geral da organização, Angel Gurría, e é contrário a um alargamento da instituição, que já fora conhecida como clube dos países ricos. Os americanos tentam balancear as forças dentro da organização frente aos europeus e, por isso, se opõem a uma entrada simultânea de todos os países candidatos.

O governo brasileiro argumenta que não foi pego de surpresa com a carta de Pompeo referendando as indicações de outros países, sem citar o Brasil. A alegação de diplomatas é de que o processo do Brasil é recente e está atrás da fila de outros países com os quais os EUA já tinham se comprometido, e que o processo do Brasil segue. O comprometimento de Trump com a candidatura da Argentina aconteceu em agosto de 2017, com a visita de Maurício Macri – com quem o americano mantém bom relacionamento – à Casa Branca./ COLABOROU  NICHOLAS SHORES 

Secretário fala em apoio claro ao País

O secretário-geral adjunto da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), Ludger Schuknecht, procurou amenizar as notícias sobre uma possível falta de apoio dos EUA ao ingresso do Brasil no órgão. “Os EUA têm uma posição clara de apoiar o ingresso do Brasil na OCDE. Não tenho informações de uma mudança nessa posição”, disse ontem, após participar do Fórum de Investimentos Brasil 2019.

Mais cedo, a agência de notícias Bloomberg revelou uma carta em que o secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, se posicionou a favor da entrada da Argentina e da Romênia no grupo, sem citar, entretanto, o apoio ao Brasil.

Questionado sobre se teve conhecimento da carta, Schuknecht se limitou a dizer de que a posição dos EUA foi clara e que não houve mudanças nessa postura. O executivo disse ainda que o Brasil é o parceiro-chave mais avançado da OCDE. Ele lembrou que o País já se adequou a vários padrões exigidos pelo grupo econômico e que também já participa de muitos comitês dentro da organização.

Apesar das citações positivas, ele evitou dar um prazo para o ingresso do Brasil na OCDE. “O Brasil está no caminho certo para fazer parte do grupo”, disse. / ANDRÉ ÍTALO ROCHA/ CIRCE BONATELLI E ISADORA DUARTE

 

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