Brasil não pode ser tratado como emergente, diz França

Segundo ministro do Comércio francês, País 'não pode mais ter apenas direitos, mas também deveres'

Jamil Chade, do Estadão,

08 de outubro de 2007 | 13h34

O Brasil não pode mais ser tratado como economia em desenvolvimento nas negociações da Organização Mundial do Comércio (OMC). O pedido é do ministro do Comércio da França, Herve Novelli, que apelou nesta segunda-feira, 8, por uma liberalização dos mercados emergentes como "chave" para o sucesso da Rodada Doha. Apesar da cobrança, ele deixou claro que a França já ofereceu tudo o que poderia e não está disposta a abrir seu mercado nem para açúcar nem para carnes. Em uma reunião de mais de uma hora com o governo brasileiro, Novelli ouviu do Itamaraty que o Brasil não aceitará pagar para que a Rodada chegue a uma conclusão. "Eles tem a avaliação deles e nós a nossa sobre o que deve ser um acordo. O que achamos é que não podemos pagar pelo sucesso da Rodada", afirmou o embaixador do Brasil na OMC, Clodoaldo Hugueney, ao deixar a reunião com o ministro. Os franceses insistem que os países emergentes precisam abrir seus mercados para produtos industriais das economias ricas. "Queremos um acordo, mas que seja recíproco", disse Novelli. "Não é justo pensar no Brasil e em outros grandes países emergentes como economias em desenvolvimento", disse. Questionado se a posição da França não seria uma incoerência em relação aos objetivos de gerar desenvolvimento da Rodada Doha, Novelli alertou que o mundo de hoje já não é o mesmo de 2001, quando o processo foi lançado. "Não estamos renunciando ao aspecto de desenvolvimento da Rodada. Mas temos de considerar que, desde 2001, muitas coisas mudaram e há países emergentes crescendo muito. Não podem mais ter apenas direitos, mas também deveres. Esses países são cada vez menos economias em desenvolvimento e é ilusão considerá-los como emergentes. São potências comerciais", afirmou Novelli, lembrando que a China poderá ser o maior exportador do mundo em 2008. Para o francês, são esses países emergentes e os Estados Unidos que tem a "chave para o sucesso ou fracasso da Rodada". "A Europa já fez sua parte e temos reservas em relação ao que está sobre a mesa", disse. Suas principais preocupações estão no setor de carnes e açúcar. "Vamos nos manter vigilantes em relação a um acordo. Tudo o que pudemos oferecer já está sobre a mesa. Não aceitamos fazer uma nova proposta agrícola. O que existe em negociação já viola uma série de pontos de nossa posição", disse. "A França quer um acordo, mas não a qualquer preço", alertou. Em pelo menos um ponto Brasil e França estão de acordo. Parte da responsabilidade por um acordo está nas mãos dos Estados Unidos, que está sendo cobrado a reduzir seus subsídios agrícolas. "O mandato negociador americano é incerto e está complicado chegar a um acordo", disse Novelli. Segundo ele, o Brasil também estaria preocupado com a "incerteza política nos Estados Unidos e a rigidez na posição da Casa Branca".O ministro francês, porém, reconheceu que a opinião pública e empresas de seu país não estão engajada na Rodada como no passado. O euro valorizado, segundo ele, seria uma preocupação maior que o futuro da OMC. "Negociamos há cinco anos e não há uma mobilização das empresas nem de opinião publica", concluiu.

Tudo o que sabemos sobre:
Rodada Doha

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.