Thiago Queiroz/Estadão
Thiago Queiroz/Estadão

Brasil não vai virar Dinamarca após Lava Jato, diz presidente de construtora

Para Newton Simões, fundador da Racional Engenharia, mudança na cultura de negócios do País será gradual

Entrevista com

Newton Simões, presidente da Racional Engenharia

Renée Pereira, O Estado de S.Paulo

25 de setembro de 2019 | 09h00

O presidente da Racional Engenharia, Newton Simões, afirma que a Operação Lava Jato foi um rojão não só para o setor da construção, mas para toda a cadeia produtiva. Muitas empresas entraram em recuperação judicial, fecharam as portas ou estão tremendamente machucadas, diz ele. “Hoje temos de cuidar da saúde financeira dos nossos fornecedores e arrumar funding (recursos) para ele continuar operando.”

Mesmo sem estar envolvida no escândalo, a Racional – fundada em 1971 – viu seu faturamento despencar de cerca de R$ 2 bilhões, em 2013, para algo em torno de R$ 700 milhões. Segundo Simões,  pelo aumento da demanda de projetos e estudos, alguns sinais de recuperação começam a surgir . Mas a contratação ainda não voltou, diz o executivo.

Para ele, a Lava Jato deve trazer transformações na configuração do setor. Com as grandes construtoras da Lava Jato ocupadas em arrumar a casa, haverá mais espaço para empresas menores disputarem novos contratos. Sobre a cultura de negócios, ele aposta numa mudança ao longo do tempo. “Não acho que o Brasil vai virar uma Dinamarca. Você não muda cultura rapidamente. Cultura não dá cavalo de pau.” Abaixo, trechos da entrevista:

Como a empresa tem sobrevivido à crise?

Entramos na crise depois de uma série de anos positivos, bastante capitalizados e sem dívida. Mas 2015 e 2016 foram muito ruins. Decidimos conservar ao máximo nosso capital intelectual, que é difícil de repor. É claro que tivemos ajuste. Para ter ideia, em 2013, faturamos R$ 2 bilhões; nos últimos três anos, ficamos na casa de R$ 700 milhões. Este ano devemos fechar em R$ 750 milhões. Ou seja, é uma redução expressiva. Tão cedo vamos ter a rentabilidade que tivemos em 2013. E nem posso querer ter com um mercado altamente deprimido como hoje. Se encolher demais, a companhia perde a essência. Então, sacrificamos a rentabilidade.

Não há sinal de retomada?

Sentimos que chegamos ao fundo do poço. Estamos percebendo um aumento da demanda por propostas e estudos, mas ainda sem efetivação e contratação. É uma sinalização. O pessoal está desengavetando projeto e está estudando. Mas ainda há incertezas, especialmente para o investidor que vem de fora. A crise da Amazônia, por exemplo, foi desnecessária. Não estamos conquistando nada com isso. Tenho ouvido de investidores internacionais que estão adorando o Brasil, o caminho que o País está fazendo rumo às privatizações, mas dizem que o conselho pede para esperar mais um pouco. Estamos fazendo a lição de casa no plano econômico e na área de infraestrutura. Mas não vejo forte crescimento em 2020 e 2021. A retomada será muito gradual, principalmente porque a mudança de paradigma está sendo muito grande.

Em que aspecto?

Não vamos ter mais recursos abundantes do BNDES, do Banco do Nordeste, etc. Tudo isso vai passar por uma revisão. E há um tempo para absorção. A crise foi terrível para o nosso setor, mesmo para quem não teve envolvimento com a Lava Jato. As empresas ficaram muito machucadas, não só as construtoras, mas toda a cadeia produtiva. Muitas empresas entraram em recuperação judicial, fecharam as portas ou estão tremendamente machucadas. Hoje, temos de cuidar da saúde financeira dos nossos fornecedores e arrumar funding (recursos) para eles continuarem operando. Temos feito coisas que nunca fizemos antes. Isso aí não vai retomar de uma hora para a outra. Há um gargalo na oferta. Pode ser que o mercado comece a oferecer mais oportunidade, mas como vamos executar essas oportunidades com uma cadeia produtiva tão machucada como está?

Embora não estivesse envolvida, a empresa sofreu os reflexos da Lava Jato?

A Lava Jato foi um rojão no sistema e a construção foi a que mais foi pega no contrapé. Todas as empresas sofreram. Hoje percebemos que companhias, principalmente multinacionais, fazem due diligence profundo antes de convidar alguma empresa para participar das disputas. Se você tem seu nome apontado em algum processo da Lava Jato, você tem um impeditivo para participar da disputa. Acredito que, com a Lava Jato e a transformação estrutural que nós vamos passar, as megaempresas vão ter de encolher. E muitas pequenas e médias vão poder abraçar outras oportunidades. Vai ser um mix.

O sr. acredita que a Lava Jato vai reduzir a corrupção no Brasil?

Mudar uma cultura de negócios que vem sendo praticada há tantos anos exige tempo. Há pelo menos 80 anos se pratica isso no Brasil. Foi um processo que foi sendo construído em cima da ineficiência do Estado e da necessidade de rentabilidade das empresas. O setor privado busca lucro. Se o Estado não está preparado para fazer essa gestão, ele cria um ambiente propício para a deterioração de valores éticos. Não acho que o Brasil vai virar uma Dinamarca. Você não muda cultura rapidamente. Cultura não dá cavalo de pau. Você pode mexer na legislação, na Constituição e fazer reformas, mas isso é a parte mais fácil – exagerando, é claro – de fazer a transformação. Também não acho que o País será outro completamente diferente. Mas os limites desse processo foram tão expostos, tão declarados, que a população passou a ter contato com uma coisa que não era tão pública. A população está mais consciente e os políticos precisam saber interpretar o que o povo quer. Esse é o lado positivo. Agora não sei dizer quando uma transformação substancial ocorreria, se em um, dois, cinco, dez ou 20 anos. Sou otimista, mas com pé no chão. Não vamos acreditar em Papai Noel.

Hoje como está a carteira de projetos da Racional?

Estamos com um portfólio com de oito obras, sendo cinco para o ano que vem. São obras emblemáticas. Estamos terminando o Sirius (projeto de fonte de luz sincroton); vamos começar a Arena MRV, do Atlético Mineiro; o Centro de Ensino e Pesquisa do Hospital Israelita Albert Einstein, um projeto único no Brasil. Temos ainda o Aeroporto Internacional de Florianópolis e o Shopping Jacarepaguá. Nossa carteira está em R$ 1,25 bilhão. De certa forma, estamos com o ano de 2020 quase viabilizado. Estamos bem mais otimistas para o ano que vem. Nossa expectativa é crescer cerca de 10% neste ano. Parece pouco, mas, com um PIB fraco, é bastante.

O ambiente de juro baixo pode beneficiar o setor?

Há uma mudança de paradigmas, com um cenário de juros baixíssimos que nunca tivemos antes; inflação controlada; e reformas em andamento. Essas reformas são fundamentais para transformar o ambiente de negócios e, principalmente, resolver o encolhimento do Estado. Quando você não tem o Estado como protagonista de investimento, há um freio de arrumação grande. Sem subsídios, a tendência é que novos investidores, como fundos de investimentos, venham de fora com uma demanda de governança e de confiabilidade maior que antes. E, nesse aspecto, estamos bem posicionados. A Racional se modelou em cima desses atributos que começam a ser cada vez mais importantes. Atuamos no mercado de engenharia e construção voltado para o setor industrial, shopping center, hospitais e empreendimentos privados. Por isso, estamos otimistas com a nova configuração do setor privado na economia, tendo mas protagonismo nesse novo ciclo.

Como o sr. vê a configuração do setor daqui para frente?

Acredito que não vai existir mais espaço para conglomerados e megaempresas de construção como no passado. Elas cresceram num ambiente de baixíssima competição. Entendo que as barreiras que impediam outras empresas de disputar mercado vão diminuir e a competitividade vai aumentar no setor. É uma regra natural. E vão entrar empresas de fora também, que já estão aqui sentindo o clima.  

A maior participação da iniciativa privada deve ajudar nesse processo?  

A governança de custos, prazos e qualidade vai passar a ser mais rigorosa. Não havia controle, nem visibilidade. Hoje está tudo mais exposto. Todo mundo sabe quem está no Supremo Tribunal Federal (STF) e quem é o procurador da República. Virou quase um jogo de futebol. Isso para a democracia é o máximo. O eleitor passa a se apropriar desse processo e começa a haver uma mobilização que interfere na política. Isso é um fato novo. 

Qual foi o pontapé para essa mudança na consciência da população?

Primeiro: há 13 milhões de desempregados. Mesmo que não tenham essa consciência, mas eles influenciam muito. Segundo: a internet. Hoje a velocidade com que você recebe a informação, inclusive fake news, coloca o cara que tem smartphone numa rede de comunicação que não existia. Entre o ato e o fato para comunicar havia um hiato grande. Hoje é imediato. Uma boa parte da população está formando juízo de quem é cada ministro do STF, quem é o procurador geral da República, o procurador da Lava Jato. Essa visibilidade ajuda a criar opinião sobre as coisas. É uma democracia que está nascendo. Há um protagonismo maior da população. E vai acabar induzindo na qualificação dos políticos. Eles mesmos não vão conseguir enrolar o eleitorado como antes. No passado, era mais fácil, distribuía santinho, fazia um churrasco, um comício e estava certo.

A Racional tem passado por uma renovação, especialmente com a chegada de seu filho Andre Racy Simões, atual diretor da empresa. Que mudanças ele tem promovido?

Ele tem trazido muita coisa nova. Eu imaginava que ia ser o mentor dele por muito tempo, e a situação está quase que invertendo. Em alguns momentos ele me mentora e consegue quebrar minha lógica. Nos quatro anos que está aqui, ele trouxe uma visão completamente nova dos papéis e responsabilidades dos nossos líderes para direcionar nossas estratégias. Esse é o grande projeto que ele está desenvolvendo. Hoje fala-se muito em disrupção, inovação e ambiente de colaboração. Foi uma disruptura do modelo clássico, se não você não conseguia fazer surgir a inovação. Ainda mais quando você está trabalhando com grupos multidisciplinares. 

Como conciliar esses dois mundos?

Criar um ambiente de colaboração é muito importante. Por outro lado, o modelo clássico é o modelo de comando. Modelo das hierarquias e organogramas, que foi atropelado por esse novo modelo da disruptura. O desafio é entender que um não está substituindo o outro, mas que um está convivendo com o outro. Esse equilíbrio de colaboração e comando é o que o Andre está desenhando hoje para que haja essa convivência positiva. A doença infantil da colaboração é o ambiente onde ninguém cobra ninguém e todo mundo está livre. A maturidade vem quando você vê que é preciso atingir resultado. Se aquele ambiente não tem o mínimo de tensão e de direcionamento, não funciona. Vai ficar um grupo acadêmico, fazendo evolução e teorias cientificas e filosóficas. É preciso entregar o produto.  

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