Brasil, o parceiro 'bonzinho'

O ministro da Fazenda denuncia a existência de uma guerra cambial, o diretor-gerente do FMI e o presidente do Banco Central brasileiro dizem que não é bem isso, mas todos concordam que as desvalorizações de moeda preocupam muito. Estão deixando de ser apenas uma questão cambial, se transformam em política comercial. China, Europa e EUA querem exportar mais para sair da crise e voltar a crescer.

Alberto Tamer, O Estado de S.Paulo

30 de setembro de 2010 | 00h00

Guerra ou não guerra, chamem como quiser, é uma questão de retórica. O que está havendo mesmo - e o ministro tem razão - é uma disputa de mercados sustentada não apenas na redução de custos, mas na desvalorização da moeda. Sem as armas do incentivo fiscal, os países desenvolvidos - a China age como um deles - estão desalojando competidores no mercado global. Nós.

Na dificuldade de reduzir custos e aumentar consumo interno, resta-lhes derrubar o valor da moeda. Ganha a guerra comercial - aqui sim, uma guerra - quem está mais preparado para derrubar o valor do dinheiro; perde quem estiver menos. Nós, de novo. Os EUA podem e estão simplesmente "criando" dólares e derrubando a cotação da sua moeda; a China tem mais de US$ 2 trilhões de reservas para manter o yuan desvalorizado. Nós temos US$ 270 bilhões e....o pobre Fundo Soberano, com US$ 18 bilhões. Não dá para competir.

Protesto inútil. O ministro Guido Mantega, o presidente do BC, Henrique Meirelles, e o FMI estão certos, sim, em vocalizar alertas, mas ninguém vai se preocupar muito com suas acusações de guerra comercial e cambial. Os países desenvolvidos têm outros problemas, querem e estão se aproveitando fartamente do crescimento isolado dos emergentes.

Cada um por si. Ninguém está interessado em "superar crises mundiais". Todos querem, isso sim, sair das suas próprias crises porque vivem ainda à sombra de nova recessão. Como? Ora, na falta de mercado interno, exportando mais! Por que não?

Alguém tem de ficar para trás. Nós.

É uma nova realidade. Tudo indica que estamos diante de uma nova realidade: o câmbio passou a ser personagem importante na economia mundial. Não segue mais as regras do mercado. É orientado pelos governos. Os EUA criam dólares, a China tem mais de US$ 2 trilhões para defender sua moeda, que atrela à americana, e os países da eurozona estão felizes com a sua crise grega que conteve a alta do euro.

O que o Brasil pode fazer. O governo - Banco Central e Tesouro Nacional - terão pouco êxito para conter a excessiva valorização do real. Podem continuar comprando dólares, podem taxar mais a entrada de capitais, sem muito resultado em face da agressividade cambial que se vive hoje. Vai ser difícil conter a entrada de dólares enquanto os juros internos continuarem oferecendo rendimento insuperável. Tem o IOF...

Tem, não. Tinha. O IOF sobre a entrada de capitais, adotado em outubro do ano passado, teve mais um efeito de receita do governo do que alcançar o objetivo de conter a entrada de mais recursos. Rendeu R$ 16 bilhões só neste ano. Uma prova de que os investidores continuaram vindo é que a receita do IOF, até agosto, aumentou 34%.

Defender, defender. Se não se pode agora atacar a causa, a saída é atenuar os efeitos da desvalorização do dólar sobre as exportações brasileiras. Aqui, o Brasil não pode enfrentar Estados Unidos, China e a eurozona, mas pode - e deve - defender os setores mais atingidos.

Eles praticam protecionismo cambial, que temos pouco espaço para enfrentar. Ao Brasil resta adotar rapidamente uma política seletiva de defesa comercial. Ou isso ou continuarão rindo da gente, dizendo que nunca antes no mundo tiveram um parceiro tão dócil e amigável...

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