Brasil para turistas

Somos o país do jeitinho e da meia-boca, onde o planejamento nunca funciona de fato, seja no âmbito público ou privado; nosso lema básico é 'não fazer hoje o que pode ser feito amanhã'

Antônio Márcio Buainain*, O Estado de S.Paulo

02 de agosto de 2016 | 08h48

Esta semana o Rio recebe milhares de turistas, que chegam com mixed feelings: de um lado, temem principalmente a violência frequentemente noticiada em seus países; de outro, estão ansiosos para conhecer a cidade e ter contato com os brasileiros, que veem como cordiais e simpáticos. Com base em “amostra estatística” de três famílias amigas, parece que a preocupação com o terrorismo e com o insucesso dos Jogos é mínima. Sugeriram-me preparar uma nota para ajudar os anfitriões a explicar o Brasil para seus hóspedes.

Somos o país do jeitinho e da meia-boca, onde o planejamento nunca funciona de fato, seja no âmbito público ou privado. Nosso lema básico é “não fazer hoje o que pode ser feito amanhã”. Temos uma arma secreta e poderosa – o jeitinho brasileiro – e acreditamos que sempre é possível usá-la para resolver os problemas à medida que vão surgindo. Não viram a eficácia dos 600 trabalhadores arregimentados na ultimíssima hora para fazer o mutirão e consertar as falhas na Vila Olímpica? Cultivamos a “gambiarra” com certo orgulho, resultado da nossa engenhosidade e criatividade, que permite soluções alternativas sem usar peças originais, sempre mais caras. O serviço fica meia-boca, mas é quase sempre um exagero pedir que tudo saia perfeito e seja entregue na hora certa, tal e qual contratado. Afinal, estamos no Brasil, e não na Suíça! Tranquilizem-se: tudo está sendo entregue na última hora e tudo dará certo! E lembrem-se de que um ou outro coco boiando na Baía de Guanabara não pode ofuscar o privilégio de remar com a magnífica vista do Cristo e do Pão de Açúcar.

A questão da desigualdade e da pobreza incomoda os estrangeiros, que acham tal situação moralmente inaceitável. É preciso dizer-lhes que o Brasil foi o último país do mundo a eliminar a escravidão negra, que os libertos não tiveram acesso a terras e o trabalho não era protegido. No período mais recente, optamos por modernizar o País. Construímos Brasília, investimos em prédios públicos de luxo, em obras faraônicas de infraestrutura, em usinas nucleares, em ferrovias que nunca se encontram. E nos esquecemos da educação: 13 milhões de brasileiros não sabem ler nem escrever o próprio nome, pouco mais de 1/3 é de analfabetos funcionais e metade dos jovens de 15 anos não sabe realizar operações simples de álgebra e interpretar textos básicos.

Tem de explicar que essa é a fonte básica e mais perversa da desigualdade, mas que a estamos resolvendo com os programas de distribuição de renda, como o Bolsa Família, as cotas para alunos pobres e negros estudarem nas melhores universidades do País, distribuição de remédios nas farmácias populares e um conjunto de mecanismos de proteção social que incluem desde pensão integral por viuvez precoce até isenção de impostos para quem tem doença grave comprar carro, entre outras. Mesmo não sendo bem assim, vai acalmar a ansiedade deles.

Em relação à crise, temos duas possibilidades. A mais fácil é responsabilizar a crise internacional, a queda de preços das commodities e o erro de entregar a gestão econômica para os neoliberais de Joaquim Levy em 2015. Se o hóspede não entende de Economia e o anfitrião não tem escrúpulos para enganá-lo, adiante! A outra é reconhecer que erramos, e muito; que nosso jeitinho conseguiu transformar o céu de brigadeiro numa tempestade perfeita; afugentamos o capital ansioso para investir na infraestrutura do País; quebramos a Petrobrás, nossa maior empresa; adotamos postura populista e mentirosa, prometendo ao povo benefícios que só Jesus Cristo poderia cumprir, repetindo o milagre da multiplicação; demos bilhões via BNDES a poucas empresas amigas e nos descuidamos do que funcionava, como o agronegócio. E que assim quebramos o País! Mas pode dizer que somos brasileiros, que não desistimos nunca e que logo voltaremos para reconquistar nosso lugar entre os grandes.

E sugira que não deixem de conhecer os botecos do Rio, onde podem comer o tradicional pastel, um sanduíche de mortadela e uma boa coxinha frita. Mas não tente lhes explicar sobre coxinhas e mortadelas.

*É PROFESSOR DE ECONOMIA NA UNICAMP

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.