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A atividade econômica vai encolher 0,20% no primeiro trimestre e contrair 2,13% no segundo trimestre, segundo o Ministério da Economia Fotos Públicas

Brasil passará por recessão no primeiro semestre por causa de covid-19, prevê Ministério da Economia

Apesar disso, o órgão projeta uma recuperação a partir do terceiro trimestre, com alta de 1,17% em relação aos três meses imediatamente anteriores

Idiana Tomazelli, Adriana Fernandes e Lorenna Rodrigues, O Estado de S.Paulo

20 de março de 2020 | 17h57

BRASÍLIA -  O Brasil passará por uma recessão no primeiro semestre de 2020 devido aos impactos econômicos do avanço do novo coronavírus, prevê a Secretaria de Política Econômica (SPE) do Ministério da Economia. A atividade econômica vai encolher 0,20% no primeiro trimestre e contrair 2,13% no segundo trimestre, sempre na comparação com os três meses imediatamente anteriores.

Quando há dois trimestres seguidos de queda no Produto Interno Bruto (PIB), um país entra na chamada “recessão técnica”. Caso se concretize na magnitude esperada pela SPE, a queda do segundo trimestre de 2020 pode ser a maior desde o segundo trimestre de 2015, quando houve um tombo de 2,2% contra o trimestre imediatamente anterior, segundo a série histórica IBGE.

“O mês de março já sofre com o início das paralisações das atividades da economia, reduzindo as nossas projeções de crescimento. No segundo trimestre ocorre o impacto mais forte, uma vez que é onde deve se concentrar a maior queda do PIB mundial e o maior período de paralisação de atividades econômicas”, diz a SPE.

Apesar disso, o órgão projeta uma recuperação a partir do terceiro trimestre, com alta de 1,17% em relação aos três meses imediatamente anteriores. No quarto trimestre, a expectativa é de avanço de 2,03% no mesmo tipo de comparação.

“Destaca-se que a profundidade e duração da crise ainda são difíceis de se estimar, pois trata-se de um evento inédito na história econômica mundial”, ressalta a SPE. No entanto, a secretaria tem ressaltado que o choque deve ser transitório.

“Mantemos avaliação de que os choques pelos quais a economia brasileira está passando são em sua maioria transitórios, o que permitirá uma retomada a partir do segundo semestre deste ano.” Para o ano de 2020 fechado, o governo derrubou a projeção de crescimento de 2,1% para 0,02%.

Na comparação do trimestre contra igual período de 2019, o período de janeiro a março deve ter uma alta mais tímida que o esperado inicialmente, com avanço de 1,5%. Já no segundo trimestre, a SPE espera uma contração de 1,4%. Se concretizado, será o pior resultado desde o último trimestre de 2016, quando o tombo foi de 2,2% em relação a igual período de 2015.

No terceiro trimestre de 2020, ainda haverá retração de 0,8% em relação a igual período de 2019. Mas, nos últimos três meses do ano, a expectativa é de que haja alta de 0,9%, segundo a SPE.

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Governo reduz previsão de alta do PIB de 2,1% para 0,02% em 2020

Sob estado de calamidade pública por conta do novo coronavírus, o rombo das contas públicas é inicialmente estimado em R$ 161,623 bilhões em 2020, informou o Ministério da Economia

Adriana Fernandes, Idiana Tomazelli e Lorenna Rodrigues, O Estado de S.Paulo

20 de março de 2020 | 15h05

BRASÍLIA - Menos de dez dias após baixar para 2,1% a previsão de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) deste ano, o governo federal revisou novamente sua estimativa e passou a prever uma expansão de apenas 0,02% para este ano, ou seja, uma estabilidade.

O número foi divulgado pelo Ministério da Economia por meio do relatório de receitas e despesas do orçamento de 2020. A revisão do crescimento da economia para zero por causa dos efeitos da covid-19 foi antecipada pelo Estado.

 Na semana passada, o mercado estimou uma alta de 1,68% para o PIB deste ano, segundo pesquisa conduzida pelo Banco Central, mas já há instituições financeiras estimando uma contração do PIB em 2020. “Estamos sendo transparente, é o melhor número de PIB que temos”, afirmou o secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Adolfo Sachsida.

Apesar do cenário dramático, Sachida ressaltou que o momento exige “extremo cuidado”, uma vez que ainda não há certeza de quanto tempo vai durar a crise. Mesmo assim, ele afirmou estar otimista de que o choque, embora inesperado, será transitório. “Temos bases da economia saudáveis. É uma crise transitória”, disse.

Em 2019, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o PIB cresceu 1,1%. Foi o desempenho mais fraco em 3 anos, com o resultado afetado principalmente pela perda de ritmo do consumo das famílias e dos investimentos privados. Em 2017 e 2018 o crescimento foi de 1,3% em ambos os anos.

Nos últimos dias, a área econômica do governo tem anunciado uma série de medidas para proporcionar melhores serviços de saúde para a população e, também, para impedir que a crise econômica tenha impacto muito grande no nível de emprego.

Sem decreto de calamidade, bloqueio seria de R$ 37,5 bilhões

O governo informou, ainda, que se o decreto de calamidade pública não fosse aprovado pelo Congresso Nacional, seria necessário efetuar um bloqueio de R$ 37,553 bilhões em gastos no orçamento neste momento.

O contingenciamento seria necessário para tentar atingir a meta de um déficit primário (despesas maiores do que receitas, sem contar juros da dívida pública) de até R$ 124,1 bilhões em 2020. A meta consta na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) deste ano.

Nesta sexta-feira, 20, porém, o Senado Federal aprovou o projeto de decreto legislativo que reconhece o estado de calamidade pública no país em razão da pandemia de coronavírus. Com isso, o governo não precisará mais cumprir a meta fiscal e poderá efetuar os gastos necessários para combater a pandemia do coronavírus, e seus efeitos na economia.

Sob estado de calamidade pública por conta do novo coronavírus, o rombo das contas públicas está sendo inicialmente estimado em R$ 161,623 bilhões em 2020, informou há pouco o Ministério da Economia.  

A pasta ressaltou, porém, que as demais regras fiscais, como o teto de gastos (que limita o avanço das despesas à inflação) e a regra de ouro (que impede a emissão de dívida para bancar despesas correntes, como salários), estão mantidas e precisam ser respeitadas.

 “Mantemos na íntegra o teto de gastos. Não há mudança no teto de gastos com esse reconhecimento da calamidade”, afirmou o secretário especial de Fazenda do Ministério da Economia, Waldery Rodrigues. Ele disse que há hoje um espaço de R$ 1,718 bilhão no teto de gastos. 

Já o déficit (despesas menos receitas sem incluir os gastos com o pagamento dos juros da dívida) ainda pode ser maior neste ano porque as projeções de receitas e despesas ainda consideram parâmetros macroeconômicos defasados. A estimativa de crescimento da economia, por exemplo, estava em 2,1%. O governo já indicou, porém, que vai revisá-la para 0,02%, como antecipou o Estadão/Broadcast. Um relatório extemporâneo pode ser lançado para ajustar as estimativas de gastos e arrecadação.

O secretário do Tesouro Nacional, Mansueto Almeida, afirmou nesta quinta-feira, 19, que as estimativas para o déficit das contas do governo, em 2020, serão "sempre revisadas e informadas ao mercado e ao público em geral". Ele não explicitou, porém, em qual periodicidade isso será feito.

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Brasil entra em estado de calamidade pública por covid-19

Decreto foi aprovado nesta sexta-feira por senadores e publicado no Diário Oficial da União; situação vale até o fim do ano

Daniel Weterman, O Estado de S.Paulo

20 de março de 2020 | 13h01

BRASÍLIA -O Congresso Nacional publicou no Diário Oficial da União, nesta sexta-feira, 20, o decreto de calamidade pública no País. O pedido,feito pelo governo do presidente Jair Bolsonaropara permitir aumento de gastos no combate ao novo coronavírus, foi aprovado por deputados e senadores.Até quinta-feira, 19, os dados apontavam sete mortes pela covid-19 no Brasil.

É a primeira vez que o Brasil entrará em estado de calamidade desde o início dos efeitos da Lei de Responsabilidade Fiscal, em 2000. O decreto não depende de sanção presidencial e passará a ter força de lei, estabelecendo a calamidade pública até o fim deste ano.

No Senado, aproposta foi aprovada nesta sexta-feira, 20, em uma sessão virtual - a primeira da história nesse formato. O Senado desenvolveu um sistema para votar projetos emergenciais remotamente durante a crise e afastar o risco de disseminação da doença. Desde semana passada, diversas reuniões presenciais no Congresso foram canceladas.

Foram 75 votos favoráveis, dados verbalmente um a um, como era antigamente antes da instalação de painéis eletrônicos no Congresso. Não houve votos contrários. O aplicativo de votação automática para as reuniões remotas ainda não ficou pronto.

Com o decreto, o governo não será mais obrigado a cumprir a meta de resultado primário para o ano, ou seja, a de um déficit de R$ 124,1 bilhões. Isso significa que não precisará bloquear recursos para fechar as contas nesse patamar. Estimativas mais atuais apontam rombo de aproximadamente R$ 200 bilhões em 2020 por causa dos efeitos da pandemia. 

O Ministério da Economia esclareceu esta semana que a medida só impacta a meta fiscal e não livra a União de cumprir o teto de gastos (mecanismo que proíbe que as despesas cresçam em ritmo superior à inflação) ou a regra de ouro (que impede o financiamento para pagamento de gastos correntes, como salários).

O decreto estabelece a criação de uma comissão de deputados e senadores para acompanhar as ações desenvolvidas durante o estado de calamidade. O colegiado deverá realizar uma audiência pública com o ministro da Economia, Paulo Guedes, a cada dois meses. A reunião poderá ser feita à distância.

Senador com coronavírus participa de sessão remota para votar decreto

Mesmo diagnosticado com coronavírus, o senador Prisco Bezerra (PDT-CE) participou da sessão remota do Senado, nesta sexta-feira, 20, para votar o decreto de calamidade pública.

O parlamentar confirmou que está com a doença na quinta-feira, 19. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), e o senador Nelsinho Trad (PSD-MS) também estão com a doença, mas não participaram da sessão. Trad está hospitalizado.

"Eu não poderia deixar de participar deste momento histórico e meu voto é sim", disse Bezerra, agradecendo aos colegas por desejarem melhoras. O senador está em quarentena.

Outros parlamentares também estão em isolamento, mesmo sem registro da doença. Um deles é Jorginho Mello (PL-SC), que também participou da sessão virtual. Ele está em quarentena após ter participado da comitiva presidencial nos Estados Unidos e tido contato com autoridades diagnosticadas com coronavírus.

Sem decreto de calamidade, bloqueio seria de R$ 37,5 bilhões

O governo informou nesta sexta-feira, 20,que se o decreto de calamidade pública não fosse aprovado pelo Congresso Nacional, seria necessário efetuar um bloqueio de R$ 37,553 bilhões em gastos no orçamento neste momento.

O contingenciamento seria necessário para tentar atingir a meta de um déficit primário (despesas maiores do que receitas, sem contar juros da dívida pública) de até R$ 124,1 bilhões em 2020. A meta consta na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) deste ano.

Nesta sexta-feira (20), porém, o Senado Federal aprovou o projeto de decreto legislativo que reconhece o estado de calamidade pública no país em razão da pandemia de coronavírus. Com isso, o governo não precisará mais cumprir a meta fiscal e poderá efetuar os gastos necessários para combater a pandemia do coronavírus, e seus efeitos na economia.

Sob estado de calamidade pública por conta do novo coronavírus, o rombo das contas públicas está sendo inicialmente estimado em R$ 161,623 bilhões em 2020, informou há pouco o Ministério da Economia.

A pasta ressaltou, porém, que as demais regras fiscais, como o teto de gastos (que limita o avanço das despesas à inflação) e a regra de ouro (que impede a emissão de dívida para bancar despesas correntes, como salários), estão mantidas e precisam ser respeitadas.

O déficit ainda pode ser maior neste ano porque as projeções de receitas e despesas ainda consideram parâmetros macroeconômicos defasados. A estimativa de crescimento da economia, por exemplo, estava em 2,1%. O governo já indicou, porém, que vai revisá-la para 0,02%, como antecipou o Estadão/Broadcast. Um relatório extemporâneo pode ser lançado para ajustar as estimativas de gastos e arrecadação.

O secretário do Tesouro Nacional, Mansueto Almeida, afirmou nesta quinta-feira (19) que as estimativas para o déficit das contas do governo, em 2020, serão "sempre revisadas e informadas ao mercado e ao público em geral". Ele não explicitou, porém, em qual periodicidade isso será feito.

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'É provável uma recessão este ano e que continue em 2021', diz Martin Wolf

Para comentarista-chefe de economia do 'Financial Times', falta de cooperação entre os países agrava crise atual, e Brasil deve priorizar seus esforços no trabalhador informal

Entrevista com

Martin Wolf, comentarista-chefe de economia do 'Financial Times'

Luciana Dyniewicz, O Estado de S.Paulo

20 de março de 2020 | 13h56

A crise econômica decorrente da pandemia do coronavírus é mais grave que a de 2008, deve durar dois anos e ter efeitos profundos de longo prazo, segundo o comentarista-chefe de economia do jornal Financial Times, Martin Wolf. Em entrevista ao Estado, Wolf afirma estar preocupado com o Brasil e com outros países emergentes, que terão dificuldade para aumentar os gastos para tentar reduzir os efeitos da recessão que está por vir.

Diz ainda que a atuação dos principais líderes globais é inferior à de 2008, quando os países se uniram para enfrentar o problema. "Na crise financeira, tínhamos o G-20 trabalhando junto de modo eficiente.  Essa imagem é muito diferente da que temos hoje. Então, é fácil tudo dar muito errado." Para Wolf, dada a escassez de recursos, a prioridade no Brasil tem de ser a população mais carente. "Ajudar o trabalhador informal a manter sua renda é a prioridade número um."

A seguir, trechos da entrevista.

Que motivos levam o sr. a acreditar que essa crise será pior que a de 2008?

As medidas que estão sendo adotadas para controlar a epidemia vão fechar grande parte da economia. Vimos isso na China. Ninguém sabe ainda o que aconteceu lá no primeiro trimestre, mas deve haver uma contração muito grande do PIB  e provavelmente no segundo trimestre também. A Europa e os Estados Unidos estão fazendo o mesmo: fechando lojas, restaurantes, entretenimento. Teremos uma interrupção massiva de oferta. Depois, trabalhadores não serão pagos, empresas ficarão sem receita e vão demitir funcionários. Muitas podem ir à falência. Tudo isso não importaria se voltássemos ao normal em dois meses. Mas não parece que isso vai acontecer. A doença será controlada enquanto ninguém está tendo contato com os outros. Quando as economias forem reabertas, é esperado que a transmissão volte. É o que está acontecendo na China. Se isso acontecer, teremos uma nova fase de fechamento da economia. Esse processo de abrir e fechar a economia pode continuar até o ano que vem. Pode continuar até que haja uma cura, e os especialistas parecem concordar que não haverá uma cura que possa ser disponibilizada em escala antes do fim do ano que vem. Até lá, muitos negócios vão desaparecer. Esse vai ser um choque de oferta gigantesco, com consequências graves de solvência e de demanda. Então, é provável que tenhamos uma recessão neste ano e que isso prossiga em 2021. Por isso, acho razoável assumir que esse choque econômico pode ser pior que a crise financeira de 2008. Também pode ter efeitos de mais longo prazo , porque haverá uma grande interrupção de comércio e viagens. Uma consequência pode ser que a estrutura da cadeia de fornecimento e da economia global sejam transformadas permanentemente. Mas, claro, tudo isso pode ser muito pessimista e o vírus pode acabar sendo controlado no verão (do hemisfério norte). Aí, seria algo menos grave. Mas, neste momento, me parece mais provável que haja uma recessão grave. 

Em sua última coluna, o sr. escreveu que precisaremos de líderes fortes e inteligentes para lidar com essa crise. As principais lideranças globais são capacitadas para isso?

O problema é que, ao contrário da crise financeira, as principais economias do mundo hoje são incapazes de colaborar umas com as outras. Trump é um ignorante nacionalista que não entende como lidar com esse tipo de problema. Essa questão está completamente além dele intelectualmente. Por sorte, tem uma ou duas pessoas competentes no seu governo. O Fed (Federal Reserve, o banco central americano) é eficiente e o Congresso americano está fazendo alguma coisa. Os europeus estão desmoronando. Muitos países europeus estão respondendo de modo nacionalista, sem solidariedade. O Japão está lidando bem. Isso porque já teve a experiência com a Sars antes. Mas, se olharmos para a Europa e para os EUA, é assustador. Na crise financeira (de 2008), tínhamos o G-20 trabalhando junto de modo eficiente. Eles produziram um plano comum que funcionou bem para o setor financeiro e em termos de política fiscal. A recuperação pode não ter sido como se esperava, mas havia qualidade de lideranças. Houve muita colaboração nos primeiros encontros do G-20. Essa imagem é muito diferente da que temos hoje. Então, é fácil tudo dar muito errado. Não sei como essas pessoas vão cooperar. Já pararam de comercializar itens vitais, como ventiladores e máscaras. 

O sr. acredita que o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, está preparado para o desafio?

Não conheço pessoalmente o sr. Bolsonaro, que parece ser um populista de extrema-direita, ignorante e preconceituoso. Como Trump, mas um pouco pior. Apesar disso, sua equipe econômica parece competente e inteligente. São provavelmente muito mais Chicago do que preferiria. Mas as reformas que estão fazendo eram necessárias. Como eles vão funcionar nessa crise, dado que o Brasil não está numa posição econômica forte e não pode aumentar seus gastos facilmente, realmente não sei. Será um desafio grande para o Brasil. É preciso uma capacidade do governo para gastar mais e rapidamente, o que é difícil para o Brasil, que já está altamente endividado. Vai ser um desafio grande para o Brasil e para muitos emergentes, como Índia, e Indonésia. 

O sr. mencionou que o Brasil já está bastante endividado. E o sr. também tinha escrito que os governos deveriam prover solvência ao sistema. Se o Brasil não pode fazer isso, como fica a situação do País?

Vai ser difícil para o Brasil conseguir financiamento em moeda estrangeira. Talvez a questão seja quanto o governo conseguirá emprestar domesticamente. Provavelmente, precisará da ajuda do Banco Central. Mas, dada a história brasileira de inflação e altas taxas de juros, vai ser muito difícil fazer isso sem criar pânico no mercado financeiro. O Brasil terá de realocar gastos existentes, o que pode ser difícil politicamente. Politicamente, é quase impossível mudar os gastos nessa situação. Mas essa parece ser a coisa lógica a se fazer. Gastar com o que realmente é prioridade. Mas, para ser honesto, para um país como o Brasil responder de forma efetiva a essa emergência, vai ser um desafio gigantesco. Se você comparar o Brasil com a China, a China obviamente tem vantagens enormes em termos de recursos financeiros e de poder de organização e controle social. A maioria dos países emergentes não tem esses ativos. Os próximos dois anos vão ser muito difíceis para os mercados emergentes.

Uma das medidas que o governo brasileiro anunciou foi a autorização para empresas reduzirem jornadas e salários dos trabalhadores. É uma boa opção?

Na Alemanha, que é um país rico, o governo financia o trabalhador de meio período. O governo diz para a empresa reduzir o número de horas que o funcionário trabalha e cobre a diferença de salário.  Mas o governo alemão tem solvência, pode emprestar a taxas de juros negativas. Se o governo brasileiro não tem condições financeiras de fazer isso, então o que está sugerindo me parece fazer sentido. Caso contrário, as pessoas ficarão desempregadas e em um problema terrível. Acho que não é uma má ideia se for algo organizado. Para mim, o problema no Brasil é que a maioria das pessoas não trabalha em uma grande empresa. A maioria tem empregos informais. O que o governo vai fazer para ajudar essas pessoas? 

Vai dar R$ 200 por pessoa por mês nos próximos três meses.

Não parece muito. Isso é suficiente para viver no Brasil?

Não.

O problema é que, em um país pobre como o Brasil, o governo não tem os recursos para proteger as pessoas. No Brasil, a grande questão não é salvar o setor organizado, é proteger a população. É preciso encontrar um jeito que possibilite que as pessoas sobrevivam. Ajudar o trabalhador informal a manter sua renda é a prioridade número um.

O sr. já disse também que estamos em uma situação de guerra e que os países devem gastar o quanto for preciso para incentivar a economia. Eles estão agindo nessa direção?

Os Estados Unidos estão fazendo isso. Eu não ficaria surpreso se alguns países tiverem um déficit neste ano e no próximo de 10% do PIB ou mais. Não estou prevendo isso, mas era onde estávamos na crise financeira. Os principais países desenvolvidos, com exceção da Itália, podem fazer isso de forma fácil sem gerar grandes problemas. Se você empresta na sua própria moeda, tem o Banco Central para ajudar e com as taxas de juros da dívida do governo são próximas a zero, que é basicamente onde estão agora, não é problema aumentar a dívida. O problema fiscal vai ser negligenciável. Em muitos países emergentes, como discutimos antes, o problema é que vai ser mais difícil conseguir dinheiro no mercado global por causa da aversão ao risco. 

Então, os brasileiros devem se preparar para uma recessão profunda neste e no próximo ano?

A economia global vai ter uma desaceleração massiva, possivelmente uma recessão. O Brasil não é super dependente dos mercados globais como outros emergentes, mas obviamente isso vai afetar os negócios brasileiros significativamente. Empresas importantes exportam e têm ativos no exterior. Deve haver um efeito deflacionário. As condições no mercado de crédito para o Brasil ficarão muito apertadas e as empresas brasileiras também terão mais dificuldade para emprestar nos mercados globais. Essa é uma segunda razão para haver recessão. Outra é que, aí, pessoas também vão ficar em casa e haverá um choque de oferta. Esperaria que a economia desacelerasse consideravelmente, e já está em uma taxa de crescimento muito lenta. Se o País for muito bem mesmo, o PIB será próximo de zero. Mas ficarei incrivelmente surpreso se não for negativo.

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