Brasil perde 30% de sua competitividade com desvalorização

Os produtos brasileiros que têm tido receptividade significativa desde a desvalorização do real, em janeiro de 1999, devem perder pelo menos 30% de sua competitividade no mercado argentino por causa da, agora, desvalorização do peso. A avaliação é do presidente da Associação de Empresas Brasileiras para Integração de Mercados (Adebim), Michel Alaby. "As exportações brasileiras para a Argentina vão ficar 30% mais caras e perder a competitividade que haviam ganhado com a crise cambial há três anos", disse Alaby à Agência Estado.O economista afirmou ainda que o impacto da desvalorização no comércio exterior argentino será imediato, mas isso não significa que as vendas brasileiras para esse mercado venham recuperar, pelo menos a curto prazo, o terreno perdido por causa da crise econômica que levou a Argentina a desvalorizar a sua moeda e pedir moratória de sua dívida externa. "Acredito que, em seis meses, o Brasil poderá estar exportando mais do que no último semestre, mas isso não ocorrerá de imediato, até porque, no momento, os importadores argentinos não estão pagando", afirmou Alaby.Em dezembro do ano passado, por exemplo, as vendas brasileiras para a Argentina caíram 55%, em relação ao mesmo mês de 2000. No acumulado do ano, a queda foi de cerca de 20%. Com o agravamento da crise econômica argentina, que está no quarto ano de crescimento negativo, a fatia das exportações brasileiras para esse mercado caiu de 13,2%, em 1999, para 11%.O professor do Departamento de Economia da Escola de Administração de Empresas São Paulo, da Fundação Getúlio Vargas (FGV/Eaesp), Evaldo Alves, afirmou também que os produtos brasileiros ficarão mais caros no mercado argentino, mesmo com o regime de união aduaneiro (alíquota zero entre membros) em vigor dentro do Mercosul. Além disso, afirmou o professor, "a desvalorização deixou os argentinos mais pobres, o que significa que terão menos condições de comprar".Riscos do câmbio duploO câmbio duplo adotado pela Argentina, mesmo que em regime transitório, deve incentivar o subfaturamento e o superfaturamento de empresas ligadas ao comércio exterior, disse Michel Alaby, da Adebim. De acordo com ele, tanto exportadores como importadores argentinos podem tentar, como ocorreu no Brasil na década de 50, obter ganhos financeiros adicionais com operações de comércio exterior. "Acredito que esse regime de câmbio duplo deva durar, no máximo, entre 60 e 90 dias, período em que as empresas exportadoras e importadoras tentarão fazer operações para se beneficiar com o câmbio duplo", afirmou Alaby.O professor Evaldo Alves, da Eaesp/FGV, acredita também que o câmbio duplo provocará a prática dessas operações. Mas, disse ele, a Argentina não poderá conviver com esse regime por muito tempo. "Como medida transitória, serve. Mas, se o governo estendê-lo por muito tempo, acabará conspirando contra a sua credibilidade", afirmou Alves. Se usarem o bom senso, acrescentou o professor, "esse regime não deverá durar muito tempo, e a Argentina acabará adotando o regime de flutuação.Ganhos financeirosO subfaturamento em operações de exportação para obter ganhos financeiros com o câmbio duplo é feito por meio de empresas instaladas em paraísos fiscais (off shore). Por exemplo, se um exportador fizer uma venda de US$ 50 mil, ele fatura a venda para o exterior por US$ 40 mil para uma empresa off shore. Esta, por sua vez, faz a operação para o destinatário por US$ 50 mil, recebendo essa mesma quantia do importador no exterior. Mas o exportador receberá apenas os US$ 40 mil já subfaturados.Os restantes US$ 10 mil entram no país como remessa financeira, os quais podem ser trocados com a cotação da taxa flutuante e não pela qual foi definida para o peso, por exemplo (1,40 peso por dólar). Assim, se a cotação do dia estivesse em 2 pesos, o exportador não teria apenas os 70 mil pesos (US$ 50 mil x 1,40 peso) da venda não subfaturada, mas 76 mil pesos, com ganho extra de 6 mil pesos. No caso das importações, o processo da operação superfaturada é o inverso, proporcionando também ganhos financeiros para o importador.Leia o especial

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.