Brasil perde a 'guerra do câmbio' na OMC

China, EUA e Europa reiteraram que tema cambial é responsabilidade do FMI e não da Organização Mundial do Comércio como defendia Dilma

JAMIL CHADE, CORRESPONDENTE / GENEBRA, O Estado de S.Paulo

27 de novembro de 2012 | 02h07

Lideradas pela China, as principais potências comerciais praticamente enterraram a ideia do Brasil de criar uma tarifa de importação para compensar a valorização do real e promoveram duro golpe contra as pretensões do governo de Dilma Rousseff de colocar o assunto na agenda internacional de forma permanente.

Ontem, na Organização Mundial do Comércio (OMC), Pequim alertou que o projeto do governo poderia "afundar o sistema multilateral do comércio". Outros países o qualificaram como "campo minado". Estados Unidos e Europa alertaram que o tema cambial é responsabilidade do FMI, não da OMC.

O Brasil apresentou a proposta para que a OMC comece a lidar com os desequilíbrios cambiais, alegando que a valorização do real e a desvalorização manipulada por alguns governos prejudicam as exportações nacionais. O tema virou uma das bandeiras do governo no cenário internacional.

No médio prazo, a esperança do governo é de que países possam elevar tarifas de importação quando sua moeda sofrer forte valorização. Mas, de forma estratégica, o governo brasileiro evitou uma apresentação formal da criação do mecanismo e só sugeriu que membros da entidade debatam o formato que poderia ter o novo mecanismo. "Estamos abertos a todas as ideias", declarou Roberto Azevedo, embaixador do Brasil na OMC. "Não estamos propondo nada, apenas colocando ideias sobre a mesa".

Nem assim Azevedo conseguiu dissipar o movimento contrário. O primeiro país a atacar foi a China. Zhu Hong, vice-embaixador chinês, disse que rejeita qualquer debate sobre o assunto e que a OMC não é local adequado. "Seria um equívoco tentar lidar com isso com medidas comerciais".

Mostrando impaciência, o chinês se queixou de que a reunião já era a quarta sobre o assunto e que, até agora, o único consenso é de que adotar um nova barreira apenas complicará o assunto e vai ferir o sistema comercial.

"Criar qualquer tipo de taxa nova seria medida extremista", disse um diplomata chinês. Os chineses não querem o estabelecimento de um novo mecanismo que justifique barreiras ao comércio. Pequim, alvo de dezenas de barreiras pelo mundo, também não quer o estabelecimento de novo fórum permanente para servir de plataforma para que o governo americano ataque a manipulação da moeda local, acusada de ser responsável pela expansão da exportação da China.

Inundação. Para Pequim, os problemas que o real enfrenta vêm da inundação de dinheiro no mercado promovido pelos EUA, Europa e Japão nos últimos anos. A atitude dos países ricos, segundo a China, é irresponsável. "Por isso, o caminho correto para resolver esse problema é aumentar a coordenação entre países. Portanto, o tema deve ficar restrito ao FMI", defendeu o diplomata chinês.

Europa e EUA sugeriram um debate mais amplo antes que o mecanismo de compensação seja pensado. Na linguagem diplomática, significa não fazer nada.

Para os europeus, não se pode comparar o valor entre duas moedas, já que a produção hoje é globalizada e um só produto tem peças vindas de várias partes do mundo, cada qual com sua moeda. Essa realidade, segundo os europeus, complicaria o debate sobre o câmbio. Já Washington rejeitou a ideia de novas tarifas.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.