Brasil perde da Ásia em investimentos externos de multinacionais

Os setores privados do Brasil e a América Latina não conseguem acompanhar o grau de internacionalização das empresas asiáticas. Segundo o relatório anual sobre investimentos da Conferência da ONU para o Comércio e Desenvolvimento (Unctad), as empresas multinacionais de países em desenvolvimento se tornam atores da economia internacional e já realizam 15% dos investimentos do setor privado mundial. Mas se entre 1980 e 1990 o Brasil era quem mais investia no exterior entre os emergentes, o País foi amplamente superado pelos asiáticos e perdeu a liderança na última década.Hoje, está na sexta colocação em termos de estoque de capital no exterior e, dos US$ 72 bilhões que o Brasil dispõe no exterior, 65% estão em paraísos fiscais. A Argentina, que figurava na terceira colocação em 1980, sequer conta com uma empresa entre as cem primeiras dos países emergentes. Atualmente, as empresas de países emergentes investem no exterior dez vezes mais do que faziam em 1990, com um estoque total de US$ 1,4 trilhão. Em 1990, apenas 19 empresas de países emergentes faziam parte da Lista Fortune das 500 maiores companhias do mundo. Hoje, são 47. A estratégia seguida por muitos delas é a internacionalização como forma de sobreviver à concorrência, seja no setor de mineração, serviços ou tecnologia. Para outras, investimentos no exterior é forma de abastecer seu mercado como commodities ou energia, como no caso da China que busca matérias primas na América Latina e África.No total, a ONU estima que essas empresas investiram US$ 120 bilhões no mundo em 2005, um recorde. Em vendas, somam US$ 1,9 trilhões. Das cem primeiras companhias, porém, 77 delas são da Ásia. Não por acaso, as cinco primeiras do ranking também são asiáticas: Hutchison Whampoa de Hong Kong, com US$ 67 bilhões em ativos, seguido pela Petronas da Malásia, Singtel de Cingapura, a coreana Samsung e a CITIC da China. Essas empresas ainda estão longe das líderes dos países ricos, como a americana General Electric, com US$ 448 bilhões em ativos no exterior, seguida pela britânica Vodafone, as americanas Ford e General Motors. Mesmo assim, o que surpreende a ONU é a rapidez que as empresas asiáticas ganharam força. Hoje, respondem por 55% dos investimentos de multinacionais de países emergentes. A predominância das empresas asiáticas ocorre graças à potência do setor chinês, com 70 empresas entre as cem maiores dos países emergentes. O restante da lista conta com dez empresas da África do Sul, oito do México, três do Brasil, além de uma venezuelana e uma egípcia. A primeira latino-americana no ranking é a Cemex, do setor de construção no México, com US$ 13 bilhões no exterior e na sexta colocação geral. Para a ONU, trata-se da única multinacional latino-americana de fato. A Petróleos de Venezuela ocupa o nono lugar, com US$ 8,8 bilhões. A Petrobras vem na 12ª colocação, com investimentos de US$ 6,2 bilhões. As outras brasileiras são a Companhia Vale do Rio Doce, com US$ 4 bilhões, na 25ª posição, e a Gerdau, com 33ª posição somando US$ 3,3 bilhões. O relatório ainda destaca a Embraer como a única empresa latino-americana em tecnologia de ponta, mas que não conta com investimentos no exterior suficientes para que entre no ranking das cem primeiras. Para a ONU, a América Latina deixou a liderança que tinha nos anos 60 e 70 porque não acompanhou o ritmo de internacionalização da Ásia.No total, a América Latina investiu US$ 33 bilhões no exterior em 2005, 19% a mais que em 2004. Mas ainda metade do que foi investido pela Ásia. Desse total, US$ 14 bilhões ainda foram apenas para paraísos fiscais. O líder no ano passado foi o México, com US$ 6,2 bilhões, seguido pela Colômbia com US$ 4,6 bilhões e o Brasil com US$2,5 bilhões. Em 2004, o País era líder, com investimentos feitos no exterior de US$ 10 bilhões, mas não conseguiu manter a posição nem mesmo na região.EstoquesNo que se refere aos estoques, os dados mostram que a internacionalização das empresas dos países emergentes é também a história de como o Brasil não conseguiu acompanhar os demais países. Em 2005, o País somava US$ 72 bilhões em investimentos acumulados no exterior e superado por Hong Kong, com US$ 470 bilhões, Rússia, Cingapura e Taiwan, além do paraíso fiscal de Ilhas Virgens Britânicas. O Brasil ainda supera a China em termos de estoques, mas pode ser ameaçado nos próximos anos. Isso porque os chineses vêm dobrando seus investimentos a cada cinco anos e soma US$ 46 bilhões. Já País levou15 anos para passar de US$ 41 bilhões para US$ 72 bilhões. Além disso, dois terços dos recursos do Brasil no exterior não estão em atividades produtivas, mas nas Ilhas Cayman, Bahamas e outros paraísos fiscais. Quando vai para atividades produtivas, o dinheiro é destinado ao setor de mineração, comércio e construção, além de petróleo. SulEntre as principais empresas de países emergentes, casos cada vez mais freqüentes surgem de companhias negociando a compra de empresas de países ricos, como no caso da indiana Mittal ou de várias empresas chinesas que adquiriram companhias tradicionais nos Estados Unidos.Mas segundo a ONU, uma característica importante desses novos atores é que parte importante de seus investimentos ocorrem em outros países emergentes. Em 1985, esse volume chegava a US$ 2 bilhões. Em 2004, ultrapassou a marca dos US$ 60 bilhões. Mais uma vez a Ásia é líder, com US$ 47 bilhões investidores por empresas asiáticas no próprio continente da Ásia. Entre as empresas latino-americanas, apenas US$ 2,7 bilhões ficam na região, como no caso da recente compra da Loma Negra na Argentina pela Camargo Correa. Na avaliação dos autores do relatório, essas empresas que buscam outras economias emergentes querem aumentar sua competitividade buscando os mercados que mais crescem hoje no mundo. Outras, como as chinesas, buscam oportunidades na África ou na América Latina para obter recursos naturais para alimentar seu crescimento. Já para os países que recebem esses novos investimentos, o surgimento desse novo grupo de empresas se torna uma alternativa aos investimentos dos países ricos, que até uma década dominavam o cenário. Para a ONU, isso significa também que os países emergentes ganham novo poder para negociar contratos.

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