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Brasil pode até ter passado vergonha na COP-26, mas o setor financeiro deve passar ao largo dela

Em postura positiva e proativa, a mensagem da indústria financeira foi a de que há recursos e ambição para a preservação do meio ambiente

Ana Carla Abrão*, O Estado de S.Paulo

30 de novembro de 2021 | 04h00

O Brasil vive, aos olhos da comunidade internacional, um dos seus piores momentos. Como se não bastasse, vergonha adicional surgiu nos números recordes do desmatamento da Amazônia, escamoteados numa tentativa inútil de evitar mostrar um sabido descaso, senão incompetência. Mas, se o governo falha fragorosamente também nesse tema, há bons ventos vindos do setor privado lá e cá.

A Conferência de Mudança Climática em Glasgow (COP-26) deixou avanços e perspectivas a serem comemoradas. Em particular, os resultados do Dia de Finanças, que colocou a indústria financeira sob os holofotes nas questões climáticas. Em postura positiva e proativa, a mensagem foi a de que há recursos e ambição. E há um papel de liderança que poderá ser desempenhado pelas instituições financeiras – tanto tradicionais quanto desafiadoras. Assim como em outras vezes em que iniciativas de impacto econômico e social foram lideradas por essa indústria, é a vez agora do tema ambiental. 

A Oliver Wyman destacou algumas das principais implicações desse compromisso em um relatório que destaca a mobilização da indústria financeira nesse tema (bit.ly/relatoriocop26). 

A primeira delas se refere à adesão de mais de 450 empresas do setor financeiro de 45 países à Aliança Financeira de Glasgow (GFANZ, na sigla em inglês). Essas instituições, que hoje representam mais de US$ 130 trilhões em ativos, comprometeram-se a alinhar ações na direção da transição para uma economia carbono zero, mobilizando US$ 100 trilhões em investimentos para atingir zero emissões líquidas até 2050.

O segundo ponto de destaque vem do anúncio da formação de um Conselho Internacional de Padrões de Sustentabilidade pela IFRS Foundation, visando a garantir a qualidade dos dados sobre emissões zero, gerando transparência e padronização, de forma a facilitar a tomada de decisão por parte de investidores.

Houve ainda a assinatura de um acordo sobre práticas de supervisão por mais de uma centena de bancos centrais, sinalizando a convergência na direção da implantação de requerimentos de capital para risco climático. Segue-se a proteção da natureza e da biodiversidade, com o fim do desmatamento e da degradação ganhando protagonismo. Neste ponto, já são 33 as instituições financeiras comprometidas em cortar o financiamento à expansão de áreas agricultáveis a custas do desmatamento.

O Brasil pode até ter passado vergonha em Glasgow. Mas certamente o setor financeiro nacional pode e deve passar ao largo dela. 

* ECONOMISTA E SÓCIA DA CONSULTORIA OLIVER WYMAN. O ARTIGO REFLETE EXCLUSIVAMENTE A OPINIÃO DA COLUNISTA

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